Em Janeiro de 2018, os factos continuam suspensos

Os pássaros quando morrem

caem no céu.

José Gomes Ferreira

Frege’s statement “the concept horse is not a concept” simply means: “the property of horseness is not itself an ascription of a property”; or to put it even more clearly in the formal mode: “the expression “the property horseness” is not used to ascribe a property, rather it is used to refer to a property”.

John Searle (cf. What Things Really Exist?)

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Efectivamente, o Acordo Ortográfico de 1990 começou a ser adoptado no Diário da República em 2 de Janeiro de 2012 (o dia 1 de Janeiro é feriado) e a circunstância detectada em 2 de Janeiro de 2018 (como, aliás, acontecera exactamente um ano antes) foi a seguinte:

Isto é, a suspensão dos factos mantém-se.

A suspensão dos contactos, por seu turno, encontra-se extremamente activa no jornal da resistência silenciosa. Eis um pequeno exemplo dessa prática tão habitual (os meus agradecimentos ao sempre atento e excelente leitor do costume).

Continuação de um óptimo 2018.

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O agente José

Este livro tem duas partes. A primeira é tentar perceber por que houve atitudes, ao nível da política, que aparentemente tiveram uma justificação. Mas que depois, quando começamos a tentar perceber, constatamos que as peças não encaixam. Por exemplo, a “demissão irrevogável” de Paulo Portas, em julho de 2013, um dia depois de Vítor Gaspar ter pedido a demissão, quando no Governo já todos sabiam desde 2012 que o ministro das Finanças pretendia sair. Portas demite-se na sequência de um braço de ferro com Passos Coelho, que não estava completamente explicado na minha cabeça, porque Paulo Portas nunca apresentava políticas alternativas para subsituir aquelas que não queria permitir. Ele não aceitava as medidas de Passos e Vitor Gaspar, mas também não apresentava alternativas. E mais tarde, no final de 2014, princípio de 2015, ao falar com vários protagonistas do que foi a resolução do BES e dos acontecimentos políticos anteriores e posteriores, houve muita informação que me foi dada mas que na altura guardei porque não quis interferir direta ou indiretamente no processo eleitoral que viria a decorrer no final de 2015. Achei que algumas pessoas poderiam interpretar isso como uma tentativa de influenciar a discussão política num determinado sentido. Não quis correr esse risco e guardei a informação até hoje [José Gomes Ferreira em entrevista ao Jornal Económico]

José Gomes Ferreira não quis influenciar a discussão política num determinado sentido. A saber, no sentido da coligação PSD/CDS perder as eleições. Quando um jornalista opta por guardar informação para si deixa de o ser, tornando-se num agente político.

E porquê escolher este momento específico? A restante entrevista deixa pistas para a motivação. Por um lado aponta todos os dedos a Paulo Portas. Ele terá sido, na visão de Gomes Ferreira, um actor em conluio com Ricardo Salgado. Baseia-se numa fonte, que lhe explicou tudo, para chegar a tais conclusões. Por outro lado, deixa um conjunto especulações, que a partir de certo ponto são dadas como certas, sobre Costa e Marcelo, caso tivessem estado no poder em 2013, poderem ter optado por uma solução para o BES que seria prejudicial aos contribuintes (como se a solução escolhida não o fosse). Chega, mesmo, a entrar em teorias da conspiração quanto à saída de António José Seguro da liderança do PS. E, por fim, faz a defesa em toda a linha de Passos Coelho e de Maria Luís Albuquerque.

Se for para entrar em especulações, à la José Gomes Ferreira, podemos pensar que este livro só seria para publicar mais perto das próximas eleições legislativas, mas, dado o mau momento que Passos Coelho passa, teve que ser antecipado. É o mínimo que se pode pensar de quem tenha tido informações relevantes, segundo o próprio, ou não tivesse delas feito um livro, e tenha optado por as sonegar quando eram relevantes para o momento político.

Carta aberta ao Director de Informação da SIC-Notícias

[Autor: Carlos Paz]

Meu caro Ricardo,
No programa “Negócios da Semana” de ontem, 1 de Março de 2017, o jornalista José Gomes Ferreira, que é teu Director Adjunto, teve como convidados, entre outros, os ilustres Professor João Duque, académico, e Dr. Tiago Caiado Guerreiro, advogado fiscalista.
As grandes notícias do dia foram:
– A audição na AR dos secretários de estado, actual e antecessor, sobre uma colossal fuga de capitais do País, ao longo de anos, que não foi escrutinada pelas finanças;
– A emissão, pela SIC, canal do mesmo grupo, da primeira parte de um programa sobre o Banco de Portugal e a sua imensa responsabilidade em tudo o que a economia portuguesa e os portugueses, em geral, sofrem, têm sofrido e irão continuar a sofrer por muitos anos.
Apesar da relevância de qualquer destes temas, e até da sua potencial inter-relação, o programa “Negócios da Semana” escolheu como seu tema do dia a Caixa Geral de Depósitos, os SMS’s do Ministro das finanças, as opções (que são só do conhecimento de José Gomes Ferreira) da Administração Domingues que, de facto, praticamente nem esteve em funções e, prato forte, o programa de recapitalização da CGD.
Não há aqui nenhum problema deontológico. O canal SIC-Notícias, e o seu Director Adjunto José Gomes Ferreira, tem o direito de fazer as suas escolhas editoriais.

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Maria Luís Albuquerque e a aritmética do défice

Questionada por José Gomes Ferreira, sobre se a meta do défice para 2016 seria cumprida, Maria Luís Albuquerque, especialista na ocultação de problemas bancários que afectam défices e saídas limpas, foi categórica. Segundo a ex-ministra, não é “de todo possível” que o défice deste ano cumpra as exigências de Bruxelas. Aliás, e para que não restem dúvidas, Maria Luís afirma mesmo que “aritmeticamente não é possível“.

José Gomes Ferreira volta à carga: “Não acredita que o défice pode ficar abaixo de 2,7%?“. Albuquerque, com a mesma segurança que há um ano nos garantira a devolução de 35% da sobretaxa, responde: “Não, de todo.“. “E abaixo dos 3%?“, insiste Gomes Ferreira. “Também não“, remata Maria Luís. [Read more…]

Expresso meu, Expresso meu! Há alguém mais SPIN do que eu?

Rui Naldinho

terminalO inefável Spin do Dr. Passos Coelho na estação televisiva SIC descobriu há dias; vejam lá, só agora se lembrou deste assunto; que o novo Terminal Ferroviário do Barreiro será mais uma daquelas obras sem qualquer interesse para a economia nacional. Apenas servirá os interesses de alguns privados! Eu sempre apreciei a verdade e a coerência das pessoas, mesmo as que não partilham das mesmas ideias cá do rapaz. Mas fico sempre intrigado com certos silêncios e tempos de espera, e logo quando são assuntos de Estado que atravessam várias legislaturas.

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José Gomes Ferreira arrependeu-se

Rui Naldinho

Todos já sabemos que o subdiretor da SIC Noticias tem sido um verdadeiro “Spin doctor” dos partidos da oposição e das confederações patronais, no canal de televisão do grupo IMPRESA.

José Gomes Ferreira, Fevereiro de 2014

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Sim, é preciso perder a vergonha de lutar por mais justiça social

imposto

Mariana Mortágua ainda é, por estes dias, o fetiche da direita radical, da imprensa e dos cronistas afectos à direita radical, do incansável e dissimulado ministério da propaganda, dos ayatollahs do fundamentalismo neoliberal e de personagens trampolineiras que aproveitaram a deixa para longos textos sentimentais e hipócritas que emocionaram umas quantas tias do social um pouco por todo o país. Todos lamentam, a uma só voz, a ameaça soviética presente nas palavras da dirigente bloquista. As elites, assustadíssimas, preparam a fuga de capitais. Os investidores externos, em pânico, riscaram Portugal do mapa. Seria justo que todos os jogos da próxima jornada da Liga Portuguesa começassem com um minuto de silêncio em memória dos políticos falecidos e devassados pelo arquitecto Saraiva das vítimas deste ataque cruel. [Read more…]

José Gomes Ferreira em campanha pelo CDS-PP

jornalismo isento é isto.

Planeta terra chama José Gomes Ferreira

jgf

via Facebook Ricardo Alves

José Gomes Ferreira acusa governo de “vergonhosa manipulação política”

Um dos mais reputados ideólogos da extrema-esquerda nacional, o jornalista-comentador-subdirector de informação da SIC José Gomes Ferreira, conhecido pela sua hostilidade face a Pedro Passos Coelho e ao seu governo, acusou a coligação de levar a cabo uma “vergonhosa manipulação política”, traduzida num empolamento artificial das receitas do IRS, que alimentou um dos grandes embustes pré-eleitorais da coligação PSD/CDS-PP: a “devolução” da sobretaxa do IRS. Terminado o período de manipulação eleitoralista, o logro foi revelado. Há exactamente um mês, duas semanas antes da eleição, a estimativa do governo apontava para uma “devolução” de 35% do valor da sobretaxa. Um mês depois, essa estimativa desceu vertiginosamente para a casa dos 9%. José Gomes Ferreira explica mais uma trapaça governamental.

 

A conspiração de José Gomes Ferreira

Será Ricardo Salgado o homem por trás do Vasco?

Sede uns senhores, carago!

jose-gomes-ferreira
É extraordinário o ódio que despertam entre os escrevinhadores e comentadores oficiais homens que pensam, falam e agem coerentemente com as convicções que (se) constroem. A adoração pelas alforrecas morais e os invertebrados cívicos e políticos continua a ser uma toxina incurável herdada dos 48 anos malditos de infecção das consciências. E não faltam arautos bem pagos e apaparicados para manter tal doença crónica. Como eles gostavam de ter um bastonário da Ordem dos Médicos ( e de outras ordens profissionais) de cerviz caída, fazendo vénias ao poder e frequentando o clube do croquete. Como lhes era grato ter um dirigente da Fenprof calado, obediente e beijando a mão ao governo. Mas não têm nada disso. Os senhores doutores em geral e de todos os graus – veja-se bem! – portam-se mal. Parece não se importarem que os considerem “trabalhadores” (bbrrrrr…), prescindindo das fidalguias com que os tentam seduzir. E, para cúmulo, não só defendem os seus interesses como parecem preocupados com os de todos nós! Abusadores! Assumi o vosso ilustre estatuto e portai-vos como os senhores que deveríeis ser. Afinal tendes – todos! – mais habilitações académicas que os membros do governo. Se continuardes a fazer ondas, sereis execrados por todas as pessoas finas da elite – desde o Relvas à Lili Caneças! E, assim, é bem feito que continueis merecer os exorcismos comentatórios dos senhores José Manuel Fernandes, José Gomes Ferreira, Marques Mendes e outros répteis

O PEC já não sei quantos explicado a quem não sabe fazer contas

Como é óbvio só saberemos o tamanho exacto do golpe lá para 15 de Outubro. Tudo em nome de uma coisa tão simples como isto: pagar juros usurários, recapitalizar o capital financeiro internacional que se entalou em 2008.

Dizem que é a dívida. É sim senhor, mas no meu caso lamento muito mas não tenho nada a ver com tal assunto: nunca votei CDS, PSD ou PS e muito menos me abstive.

José Gomes Ferreira comenta as medidas do governo

Daqui por um ano, os meninos do governo estarão a fazer de conta que estão surpreendidos com os valores do défice e do desemprego.

Vídeo de http://www.youtube.com/user/livrescowordpress

A Máfia das Parcerias Público-Privadas em Portugal

José Gomes Ferreira continua, metodicamente, a expor o roubo do país. Se não viu, não deixe de ver este Negócios da Semana sobre as Parcerias Público-Privadas.

Xeque-Mate a Portugal pelo Partido-Merda

O crime político-económico mais grosseiro alguma vez cometido em Portugal é recente e é este, repleto de coniventes, recheado de beneficiados, à testa dos quais-coniventes está, surpresa das surpresas, Cavaco Silva, com a sua velha flácida cumplicidade calculista ou tóina, escolham, pois promulgou tal prolongado estupro geral ao contribuinte pelas décadas das décadas. Nem é preciso repetir quais os supremos cretinos beneficiados sob a gestão calhorda do Partido-Merda. Capazes de tudo, mas tudo, por amor ao próprio estômago e ao próprio bolso. Ímpares no desprezo proverbial por todos e cada um de nós. Foram capazes de capar professores com mordaças burocráticas, algemas morais e estigmas profissionais. Foram capazes de criar todas as condições para chupar tudo e ir de férias. Vitalícias. Prendam-nos. Prendam-nos já, a esses infinitos cabrões!

PPPs dos Ovos de Ouro

Negócios da Semana, apresentado por José Gomes Ferreira, tendo por convidados os Professores Carlos Oliveira Cruz e Rui Cunha Marques, ambos do IST.
Ao assistir a este segmento, uma coisa fica clara, as PPPs como foram feitas em Portugal, são um roubo consciente levado a cabo pelos próprios governantes, pelas empresas de construção e pelas sociedades de advogados que montaram todos estes esquemas.

Vivam Apenas

Sejam bons como o sol

Livres como o vento

Naturais como as fontes (…)

E, principalmente, não pensem na morte (…)

Vivam, apenas,

A Morte é para os mortos.

(José Gomes Ferreira, 1934)

A máquina do tempo: José Gomes Ferreira – um «lisboeta» nascido no Porto – 2

 

Quando José Gomes Ferreira, vindo da Noruega, voltou a Lisboa, encontrou um outro  país – A Revolução continua – diziam os apoiantes da «nova ordem» que reinava nas ruas e com a repressão que condicionava as mentes. Com um ou outro acidente de percurso, a direita católica e conservadora, o chamado Governo da Ditadura Militar, ia, decreto a decreto, sob a orientação cautelosa, mas obstinada, de um tal Oliveira Salazar, eliminando os vestígios da República, suprimindo as liberdades fundamentais. Alguns amigos eram os mesmos, outros tinham morrido.

 

E surgiram alguns novos – Manuel Mendes, Bernardo e Ofélia Marques (seus «compadres», padrinhos de seu filho Raúl), Carlos Botelho, Diogo de Macedo, José Rodrigues Miguéis, João Gaspar Simões Cottinelli Telmo, a Maria e o Chico Keil… E os neo-realistas Alves Redol, Carlos de Oliveira, Fernando Namora, Manuel da Fonseca, Soeiro Pereira Gomes, Carlos Queiroz… Olha, ainda há flores/ Mas quem se atreve/a cantar as flores do verde pino/no madrigal desta manhã de pesadelos?/ E tu, papoila, minha bandeira breve,/quando voltarás ao teu destino/ de enfeitar cabelos? Estes versos, escreveu-os José Gomes Ferreira para As Papoilas, uma canção popular composta por Fernando Lopes-Graça. Na realidade, os tempos não corriam de feição «a cantar as flores do verde pino».

 

Em 1933, logo em Janeiro, o governo a que Salazar presidia criava a Polícia de Defesa Política e Social, que passaria a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado e depois a Polícia Internacional de Defesa do Estado, a PIDE, que ensombrou gerações de antifascistas, perseguindo, prendendo, torturando, matando. Em 1936 desencadeava-se em Espanha a rebelião fascista de Franco contra o governo legítimo da República – era a Guerra Civil que iria durar até 1939, num prelúdio sangrento da II Guerra Mundial, que eclodindo nesse ano, se manteria até 1945, deixando o mundo em ruínas.

 

Foi um período negro em que não publicou livros. Colaborou, sim, em revistas como a Presença, a Seara Nova, a Gazeta Musical e de Todas as Artes, na revista de cinema Imagem, no jornal infantil Senhor Doutor, onde publicou em folhetins As Aventuras de João Sem Medo. Foi na Presença que, em 1931, publicou o poema Viver sempre também cansa, que representou o arranque para uma fase decisiva da sua obra poética. Colaborou também na legendagem de filmes estrangeiros sob o pseudónimo de Álvaro Gomes.

 

Terminada a guerra com a vitória dos Aliados, nasceu entre os antifascistas portugueses a ilusão de que todas as ditaduras nazi-fascistas, lixo da História, iriam ser varridas pelas democracias vencedoras do conflito. Mas foi mesmo uma ilusão. Salazar, qual ilusionista de circo pobre, faz um truque, um passe de mágica – Portugal uma ditadura? Que ideia! – O regime corporativo, onde a saudação de braço estendido, como na Itália fascista ou na Alemanha nazi, foi ritual corrente e, por vezes, obrigatório, transformou-se numa «democracia orgânica».

 

Foi criado o Movimento de Unidade Democrática e Gomes Ferreira aderiu, tal como a grande maioria dos intelectuais portugueses e, em 1947, quando nasceu o ramo juvenil do MUD, escreveu a letra do hino «Jornada» ou «Vozes ao Alto», como é conhecido, com música composta por Fernando Lopes-Graça. Durante as frequentes e intensas lutas estudantis dos anos sessenta, será cantado até à saciedade por jovens, mesmo pelos que, mais à direita ou mais à esquerda, não militam no Partido Comunista, organização que estava por detrás do MUD Juvenil. O Jornada, foi também o hino que serviu de indicativo à estação clandestina Rádio Portugal Livre que, a partir de Praga, emitia diariamente para Portugal desde Março de 1962. Da colaboração entre Fernando Lopes-Graça e José Gomes Ferreira, nasceu também este «Acordai» aqui cantado pelo coro da Academia dos Amadores de Música:

 

Entre 1950, ano do O Mundo dos Outros – histórias e vagabundagens, selecção de crónicas publicadas na Seara Nova, e a sua morte, publicou cerca de quarenta títulos – poemas, obras de ficção, crónicas, livros de memórias, ensaios, peças teatrais, introduções, prefácios, comentários, notas, traduções. De um escritor que, nos primeiros cinquenta anos de vida, produzira pouco mais de meia dúzia de títulos, passou a ser um criador prolífico. No segundo fôlego do seu espírito criativo, vieram as grandes obras, as que o converteram num dos mais importantes escritores portugueses do século XX. Naturalmente que José Gomes Ferreira não publicou muito nesse primeiro meio século de vida, mas escreveu. Foi «enchendo gavetas com nuvens», para usar a expressão que ele próprio utilizou para classificar esses anos em que acumulou projectos que, por uma razão ou por outra, não concluiu.

 

Depois, as nuvens foram saindo das gavetas transmutadas em sóis luminosos: Em 1948 saiu a público Poesia I, que José considera o seu verdadeiro livro de estreia; em 1950 é publicado o volume de Poesia II, sendo também editado o livro de ficções O Mundo dos Outros. Colabora com Lopes-Graça em Líricas. Em 1956 publica Eléctrico. Em 1960 é a vez da obra de ficção, O Mundo Desabitado. Em 1961 é-lhe atribuído o Grande Prémio da Poesia pela Sociedade Portuguesa de Escritores pela Poesia III. Em 1962 é editada a Poesia IV e publicado Os Segredos de Lisboa. Em 1963 edita-se Aventuras Maravilhosas de João Sem Medo. Em 1965 sai A Memória das Palavras – ou o gosto de falar de mim.1966 é o ano de publicação de Imitação dos Dias – Diário Inventado. Em 1969 publicou os contos de Tempo Escandinavo. Em 1971, O Irreal Quotidiano – histórias e Invenções. Em 1973 Poesia V.

 

25 de Abril de 1974: manhã cedo, Rosália acordou-o dizendo-lhe que havia movimentos de tropas em redor de Lisboa. José refilou, rabugento. Levantou-se e espreitou pela janela. Pouca gente na rua. Tocou o telefone. Era o Carlos de Oliveira: «Está lá? Está lá? É você, Carlos? Que se passa? Responde-me com uma pergunta qualquer do avesso. Às oito da manhã o Rádio Clube emite um comunicado ainda pouco claro»: Depois «A Rosália chama-me, nervosa: – Outro comunicado na Rádio. Vem, depressa. Corro e ouço.» (…) «Na Rádio a canção do Zeca Afonso…» «Sinto os olhos a desfazerem-se em lágrimas». Agora, sim, é tempo de cantar flores. É tempo das papoilas, bandeiras breves, voltarem ao seu destino de enfeitar cabelos. Mas José, nos seus 74 anos de vida, já sofreu muitas desilusões. Por isso, num encontro com escritores portugueses antifascistas regressados a Portugal após o 25 de Abril, José diz-lhes: «Que esta revolução das flores não seja a revolução das flores de retórica.»

 

Em 1975 saiu Gaveta das Nuvens – tarefas e tentames literários e o volume de crónicas Revolução Necessária. Em 1976 editou-se O Sabor das Trevas – Romance Alegoria. Em 197
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foi a vez de novo volume de crónicas: Intervenção Sonâmbula. Em 1978 saíram os volumes I, II e III de Poesia Militante. Foi eleito presidente da Associação Portuguesa de Escritores. Publicou Coleccionador de Absurdos e Cinco Caprichos Teatrais. Em 1979, nas eleições legislativas intercalares, foi candidato, por Lisboa, nas listas da APU (Aliança Povo Unido).

 

Em 1980 começou o tempo das homenagens – o presidente Ramalho Eanes, condecorou-o como Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada, recebendo depois o grau da grande oficial da Ordem da Liberdade. Nesse ano, numa altura em que o PCP já não estava «na mó de cima», portanto por idealismo e não por oportunismo como aconteceu com tantos, filiou-se no Partido Comunista Português. Publicou O Enigma da Árvore Enamorada – Divertimento em forma de Novela quase Policial. Editou-se ainda o Relatório de Sombras – ou a Memória das Palavras II. Em 1983 foi submetido a uma melindrosa operação cirúrgica, sendo também homenageado pela Sociedade Portuguesa de Autores. Em 8 de Fevereiro de 1985, morreu na sua casa da Avenida Rio de Janeiro, em Lisboa, vítima de doença prolongada.

 

Na obra de José Gomes Ferreira cruzaram-se três tendências ou correntes literárias, sem que se possa ligá-lo a qualquer delas: o eco da matriz saudosista que lhe ficou da iniciação com Leonardo Coimbra orientando-o para a devoção a Raul Brandão e a Teixeira de Pascoaes, a atracção pela forma insolitamente bela e onírica do surrealismo e o apelo constante do conteúdo do realismo socialista ou, como se chamou entre nós, do neo-realismo. Esta miscigénese deu lugar a uma escrita muito pessoal, muito original, muito fora das escolas e das classificações que os bem-pensantes usam como prótese, a crítica literária como bússola e a análise académica como bengala.

 

Falar, nestas breves linhas, de José Gomes Ferreira, foi como descrever o caminho trilhado pela inteligência através de um século manchado por numerosos estigmas – duas guerras mundiais com uma grave crise económica de permeio, o deflagrar da Guerra Fria, a ameaça da destruição nuclear, e as vésperas do colapso do «socialismo real». Em Portugal, o florescer e o ruir do sonho republicano, submerso no caos da I República e do episódio da aventura sidonista, a eclosão do corporativismo, a guerra colonial, a Revolução democrática e a desilusão que se lhe seguiu. José Gomes Ferreira, o escritor, o cidadão, viveu tudo isto nos 85 anos que a sua vida durou – alternâncias de períodos de vibração popular, de entusiasmo e esperança, com o doloroso e cinzento marasmo de quase cinquenta anos de ditadura de permeio.

 

Depois, antes da sua morte, ainda pôde assistir ao «regresso à normalidade», ao vazio que esta democracia formal nos deixa nas mãos e no coração. A sua escrita incorporou-se na luta de resistência activa que os intelectuais portugueses moveram contra a ditadura salazarista. Os seus versos, as páginas dos seus livros, as letras de canções que, musicadas por Lopes-Graça, andaram nas bocas dos antifascistas, fazem parte da luminosa estrada que sulcou uma noite mesquinha e criminosa. A sua obra foi um grito de inteligência no deserto de ideias que um regime tacanho quis fazer prevalecer sobre as mentes dos Portugueses.

 

Por isso, concorde-se ou não com as suas opções políticas, deve-se-lhe reconhecer a coragem de quem nunca se preocupou com o que lhe era conveniente, de quem sempre fez e disse o que lhe pareceu estar certo. Falar de José Gomes Ferreira foi como narrar o caminho que as suas palavras luminosas abriram através da noite escura que durante 48 anos desceu sobre Portugal. Falei de um dos grandes, de um dos maiores poetas portugueses. Ouçamos Luísa Basto cantar a sua (e de Lopes-Graça) «Jornada», mais conhecida por «Vozes ao Alto!»:

 

A máquina do tempo: José Gomes Ferreira – um «lisboeta» nascido no Porto – 1

Hoje vamos viajar ao longo da vida de um grande escritor – José Gomes Ferreira. Nascido, em 1900, no Porto, «premonitoriamente na Rua das Musas», como se diz no vídeo, freguesia de Santo Ildefonso, viveu em Lisboa a partir dos quatro anos. E, tal como Camilo Castelo Branco, nascido em Lisboa, foi um homem e um escritor do Norte, José Gomes Ferreira, foi um homem e um intelectual de Lisboa. «A minha Aventura Poética começou aí por volta de 1908, tinha eu os meus oito anos, no dia em que reparei (ou procedi como se reparasse) na existência das palavras».

 

O fragmento da entrevista conduzida por Eduardo do Prado Coelho, bem como a leitura do actor João Mota do texto autobiográfico, são elucidativos. A intervenção política começou também cedo: com dez anos, em 4 de Outubro de 1910, na véspera de a República ser proclamada, veio para a rua, com um bando de miúdos, prendendo num cabo de vassoura uma bandeira verde e vermelha feita de papel de seda, onde colou com letras recortadas um vibrante «Viva a República!». O pai, democrata e republicano que viria a ser deputado por Lisboa, teve por certo influência na precocidade com que adquiriu consciência política .

 

 

Morou na Vila Rodrigues, na Calçada do Monte Agudo onde no final da década de 20 nasceu o Bairro das Colónias. Muitos anos depois, em 1958, soube que a escritora Irene Lisboa morara também na Calçada do Monte Agudo, na Vila Rodrigues, em casa pegada à sua. Numa conversa em casa de José, poucos meses antes do falecimento da escritora, descobriram essa vizinhança e que o «Zeca» que Irene ouvia chamar, era a mãe do poeta querendo saber onde parava o filho traquina, sempre empoleirado em muros ou trepando a nespereiras.

 

Depois de uma má experiência no Liceu Camões, passou para o Gil Vicente, onde teve como professor Leonardo Coimbra, com quem estudou os poetas saudosistas. E outros mestres distintos: Newton de Macedo, Damião Peres, Câmara Reys… Tornou-se amigo de todos ou de quase todos. Dirigiu a revista Ressurreição – «Revista de Arte e Vida Mental», na qual Fernando Pessoa colaborou com o soneto Abdicação. Em 1918 publicou o seu livro de estreia, o poemário Lírios do Monte, obra que retirou da sua bibliografia.

 

A música foi outra das suas paixões. Inspirado no romance Os Meus Amores, de Trindade Coelho, compôs um poema sinfónico, Idílio Rústico, que se estreou em 1918 no Teatro Politeama executado por uma orquestra dirigida por David de Sousa. Quando abandonou a via musical, Luís de Freitas Branco disse ter-se perdido a esperança de um notável compositor.

 

Foi também neste ano que se filiou na Liga da Mocidade Republicana e queimou no Café Gelo um retrato de Sidónio. «E todavia quando, empurrado por Leonardo Coimbra e dentro da coerência da linha paterna, entrei no coro prestativo contra o histérico consulado de Sidónio Pais, nem de longe suspeitava a que ponto chegava a minha carência de vocação para a acção política.»

 

À breve ditadura sidonista encerrada com o assassínio do «presidente-rei», em 14 de Dezembro, seguiu-se a ameaça da Monarquia do Norte – Em 19 de Janeiro de 1919, os monárquicos encabeçados por Paiva Couceiro, proclamaram no Porto a monarquia. Quase todo o Norte do País e uma parte da Beira-Alta aderiu à sublevação. Em Lisboa, a guarnição de Monsanto, revoltou-se também contra a República. O nosso José, alistou-se no Batalhão Académico Republicano e, após breve treino militar em Tancos, participou na breve guerra civil que assolou o País. No Porto, a 13 de Fevereiro, eclodiu um movimento republicano chefiado por Sarmento Pimentel. Quatro dias depois, o último bastião monárquico, em Vila Real foi vencido. O episódio da Monarquia do Norte terminara. José voltou à Faculdade de Direito.

 

Os Cafés da Baixa lisboeta eram, nas primeiras décadas do século XX, centros de discussão, sedes de tertúlias artísticas e políticas. Ali se criavam revistas, se combinavam conspirações, se projectavam obras literárias. José Gomes Ferreira foi, por estes anos 20, assíduo frequentador do Martinho, do Portugal, do Gelo, da Brasileira, do Chiado… habitats do sonho e do pesadelo que os cafés eram naqueles anos vinte e continuaram a ser até que, pelos anos sessenta, começaram a ser «reconvertidos», reciclados – bancos, companhias de seguros, agências de viagens, cafetarias, pizzarias…

 

1921 foi o ano em que publicou Longe, outra colectânea de poemas que viria a considerar obra menor. Porém terá surpresas. Mais de dez anos depois, Soeiro Pereira Gomes dir-lhe-á: «A minha mulher e eu namorámos através do Longe…» e Fernando Lopes-Graça, que comprara o livrinho na Feira do Livro em 1942, musicou três sonetilhos. Se serviram para um grande escritor namorar e para um grande musicólogo os musicar, os poemas não podiam ser tão maus como ele julgara.

 

Em Novembro de 1925 foi nomeado cônsul de Portugal em Kristiansund, na Noruega. «Por fortuna não passei de cônsul de 4ª classe» (…) «e fora de todas as carreiras». No Porto, embarcou no paquete Sicília, rumo a Oslo. No comboio de Oslo para Trondjem, atravessando planícies de neve, escreveu: «A pior solidão é a que me espera agora: a de ter de esconder a minha verdadeira personalidade. Ai de mim se não conseguir aparentar a banalidade altiva dos medíocres! Tomar-me-ão por parvo.»

 

Aprendeu a língua norueguesa, que lhe soava «como uma arcada de violoncelo». Ao fim de dez meses lia jornais com desembaraço e, com a ajuda de dicionário, conseguia ler romances policiais. Mais seis meses e começou a mergulhar em Ibsen, Björnson, Alexandre Killand, Knut Hamsum. Aproveitou a solidão para de novo compor música – «meia dúzia de ninharias desprovidas de ânsias de futuro», diz com modéstia.

 

As cartas dos amigos mitigavam as saudades de Lisboa: «Por aqui tudo velho. Continuo a encontrar o Fortunato, continuam as tardes na Bertrand – o mesmo de sempre!», dizia Ferreira de Castro em Abril de 1926. «Lisboa está linda. As olaias floresceram mais cedo…» afirmava-lhe Alfredo Brochado pela mesma altura. No São João desse ano, depois do Movimento de 28 de Maio, Brochado perguntava: «Você já sabe que vivemos em regime de ditadura?» Já sabia. E assim passou o «interregno norueguês», como designou estes cinco anos.

 

(Continua)