O Clube do Regime nos Trinta e Cinco Anos da Independência de Angola (parte II)

O Estádio 11 de Novembro, construído no âmbito do CAN, situa-se numa área de expansão urbana junto à nova auto-estrada que circunda a cidade de Luanda. Possui um imagem bastante simpática pelo exterior, instalações modernas e bons acessos (ainda por acabar), que apesar de tudo não impediram o congestionamento do trânsito, o que é recorrente e uma das imagens de marca desta metrópole de cinco milhões de habitantes.

Foi montado um grande aparato policial, bastante intimidador, o que também é uma das imagens recorrentes desta cidade sempre que há um evento destas características. No entanto o ambiente era festivo e o comportamento do público pacifico, pautado aqui e ali por algumas tentativas de grupos de jovens tentando entrar sem bilhete.

Ouviam-se algumas bocas dirigidas aos adeptos do Benfica, sobretudo aos brancos : “cuidado, pulas, se o Benfica ganhar, amanhã a DEFA (polícia de fronteiras) vai vos fatigar ”  ou o  ” então! cumé? já digeriram a derrota com o Porto?”, etc. Aprendemos também algumas expressões que desconhecíamos. Por exemplo, a polícia de choque é conhecida como sendo “os maridos” . Maridos porquê? ” Esses ui são como os maridos, batem à toa, tás a ver né?”.  Entretanto, vislumbrámos um adepto vestido com a camisola do FcPorto, e um grupo de sportinguistas,que fizeram questão de marcar presença numa saudável provocação. Mas a maioria vestia as cores de Angola ou do Benfica.

O estádio estava  composto, ainda que não esgotado . O ambiente era festivo, abrilhantado com a presença da banda da claque do KabusCorp, clube do bairro Palanca, conhecido como o clube dos langas – emigrantes ou angolanos nascidos no Congo democrático- cujo presidente é o carismático Beto Calamba,  o empresário da juventude. É de sublinhar, pois que  se tratava da única claque organizada presente, ainda para mais sendo de um clube pequeno. Os grandes clubes (1º de Agosto, o Petro, o Inter ou Asa) só se faziam notar por uma outra camisola dos adeptos.

O Benfica trouxe todo o seu plantel e fez alinhar de início grande parte dos seus titulares à excepção do lateral esquerdo, o jovem Fábio Faria. Não por acaso, foi por este flanco que se verificaram as jogadas de maior perigo para as balizas encarnadas, durante os quinze minutos iniciais, em que a selecção angolana empolgou a torcida, sobretudo através das diabruras do seu extremo direito, o jovem Job, a quem apelidam de Mestre. Chegaram mesmo a marcar, num golo infelizmente invalidado  por fora de jogo, que de facto existiu, mas que o homem do apito poderia ter ignorado.  Depois o Benfica assumiu as rédeas e sem grande esforço chegou naturalmente ao dois zero. Quase no final da primeira, dá-se a entrada de Mantorras, da qual resulta um forte salva de palmas naquele que foi um dos momentos grandes da noite.

Convencidos quanto à superioridade técnica do Benfica, aos adeptos angolanos restava a consolação das jogadas bonitas protagonizadas por Job. E foi de facto impressionante a forma como sempre que o miúdo pegava na bola, a plateia levantava-se e vibrava. O puto tem talento, ainda que nos pareça ser difícil uma eventual adaptação ao futebol europeu. Deu dois ou três nós cegos os defesas encarnados, quer na 1ª parte, onde jogou no lado direito, quer na 2ª fazendo diagonais da esquerda para a direita. Mas registe-se alguns nions (expressão muito utilizada pelo falecido Perestrelo) e um túnel a um defesa do Benfica, que deixou os adeptos à beira do delírio, gritando MESTRE! MESTRE!

A determinada altura,  junto a nós, um adepto português muito condescendente, não sem alguma arrogância, vira-se para uma angolana vestida com a camisola da selecção e diz-lhe para não ficar triste porque “nós” íamos deixar Angola marcar. A angolana responde-lhe nós quem? nós estamos a ganhar a dois a zero! O tuga meteu, não sem uma vénia, a viola no saco, certo de que tinha perdido uma boa oportunidade para estar calado.

No final os jogadores do Benfica atiram bolas, camisolas e bonés para a bancada, dá-se uma invasão de campo de miúdos à cata dos equipamentos dos jogadores o que provoca entrada dos “maridos” em campo. Registe-se que não houve bastonadas. Bastou a sua presença para que os miúdos debandassem. Alguns são detidos e levados sem violência. Das bancadas ouve-se Deixa, Deixa ! pedindo a libertação dos garotos.

E foi assim, pá. Uma festa bonita, tás a ver né?

Comments


  1. Bem vindo Miguel, ainda que com um texto sobre futebol. É bom ter notícias tuas. Um abraço


  2. Compreendido 🙂

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