Poética do Prazer entre Sereias e Ciclopes

prazerFaça-se justiça a todos quantos descobriram
a singela chave para superar
esta mó nacional tão abaixo de baixa,
chave para um homem se agigantar
ante as mandíbulas impiedosas de um mundo a colapsar
ou talvez não.
Quem puder, se já corria, intensifique a sua corrida.
Passe a ser bidiária, a meio da manhã,
ao fim da tarde. Duas horas, portanto.
Será o prazer de correr, passar pelas árvores,
sorver em largas golfadas a aragem tépida,
húmida, odorosa,
deste Outono. Não há outro.

Às refeições, o prazer do vinho tinto:
sinta-se com a boca toda. Sorva-se.
Cheire-se.
Observe-se-lhe a cor quente, bela.
Invista-se tempo, sorriso, calor,
no prazer do convívio familiar
e na preciosidade dos amigos.
Invista-se no prazer de observar embevecido
cada um dos nossos filhinhos, netinhos, a crescer.
Ame-se cada mão na mão, olhos nos olhos,
cada abraço, cada saudação calorosa
e acolhedora.

Faça-se Luz e desabroche o prazer de uma Missa serena,
joelhos humildes por terra
e a comoção íntima pela Palavra Penetrante de Deus,
onde o sentido da nossa Existência mora todo
e nos grita imortalidade a partir do âmago mesmo
do nosso frágil barro.

Invista-se no prazer do sexo degustado,
com zelosos preliminares,
sem eles e sem escrúpulos,
à mansa, à bruta, canzanal, lateral, total,
quotidiano, dedicado, obrigatório, meigo, feroz,
missionário, sempre puro,
na nudez e no sorriso,
olhos nos olhos, na frescura do beijo,
na certeza do abraço.
À libido o que é da libido.
A Deus o que é de Deus.
Esqueçamos César
[o Estado,
a Política,
o Debate,
o Sindicato,
a Corporação.
Há mais prazer além do défice,
da dívida e da monumental nulidade PS/BE/PCP/PSD/CDS-PP.]

O prazer de um crepúsculo religioso, quotidiano,
entre maresia, bramido marinho,
na mais pura quietude
e na certeza da Amorosa presença Divina,
a cada pulsar do nosso coração de meninos eternos,
capazes de perdão e recomeço.
O prazer de provocar desassossego pela Arte,
pela Poesia,
pelo rasgar das unanimidades
e das certezas de curro.

O prazer de amar o momento
e nada mais senão o momento.
O prazer de transpirar.
O prazer de respirar.
O prazer de não haver amanhã. Só agora.
O prazer de mandar foder o facto de não ter dinheiro,
nem ganhar dinheiro,
nem para iogurtes,
quanto mais para vícios, chicletes,
mintos, dropes, chupa-chupas. Nada.

O prazer de viver com, em função de,
por causa do Prazer de Viver.

O Prazer do Prazer nosso de cada dia
que nos damos hoje. Ámen.