A banalização da fome

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Em 2010 o Arnaldo Antunes, um professor de profissão que vinha aqui desabafar do seu quotidiano profissional, escreveu um artigo intitulado A Fome nas Escolas onde narrava o seu encontro com uma mãe com “2 litros de leite e meia dúzia de batatas para dar aos dois filhos.

Deve ter sido dos um dos textos mais badalados que se publicaram nesta casa, ele foi pedidos de entrevista, gente voluntariosa pronta para ajudar a família necessitada, um corropio, que de resto assustou o pobre Arnaldo, vidas privadas e vidas profissionais levam-nos ao desabafo mas podem transformar-se em complicação para um funcionário público.

Neste ano da graça de 2013 a Carla Romualdo veio denunciar outras fomes que descobriu num Hospital público e central:

era frequente as visitas comerem as refeições destinadas aos doentes. Sentavam-se ao lado dos pais, avós, irmãos, maridos ou mulheres e iam debicando do seu prato, ou ficando com a parte de leão.

A fome é a fome e é a fome, não há fomes mais fomes do que outras; aperta-se a barriga, o discernimento esvai-se, damos por nós a desejar como iguaria o que noutras circunstâncias negaríamos no prato, rodamos dentro de nós mesmos em parafuso e acabamos por mandar às urtigas a ética e restantes valores.

Mas enquanto facto do quotidiano ainda há uma certa diferença entre a fome de uma família, isolada, e a administração de um hospital que proíbe aos doentes a companhia dos familiares na hora de almoço, perdendo em apoio o que segura na cozinha.  Curiosamente o artigo da Carla teve os seus leitores, mas comparando nada que se compare com o do Arnaldo.

O  que foi escândalo em 2010 banalizou-se em 2013. A fome anda por aí, divertindo-se nas ruas, escalando as sopas dos pobres, descendo aos hospitais e às escolas, fazendo a alegria de tanta católica que finalmente tem pobrezinhos em abundância para a sua esmolinha dar.  A natureza é compensadora, convenhamos, e como declamou Mestre Almada quem não tem dinheiro para ir ao Coliseu arranja razões de sobra para se rir cá fora.

Comments


  1. É uma questão de tempo! Talvez, quem sabe, os famintos se organizem em turbas e invadam os supermercados a reclamar o seu quinhão de dignidade humana, e se forem presos óptimo, têm os problemas de sobrevivência, no curto prazo, resolvidos! Eu nem sei se terei que vir a fazer parte dessa turba…


  2. Também por estas bandas a fome já grassa… No UK, 1 em 5 pessoas recorrem neste momento a bancos alimentares. Em massa, famílias jovens, pais sózinhos, jovens desempregados (há ONGs que colocam o desemprego jovem – dos 18 aos 25 ou 28, conforme o paladar – em cerc de 40% na regiao onde vivo, as infames West Midlands, enquanto que para o país a estatística oficial é muito mais baixa, como se pode ver aqui http://www.parliament.uk/briefing-papers/sn05871), mas também com cada vez mais frequencia desempregados de uma certa idade (os suspeitos habituais entre os 50 e poucos e a idade da reforma, cujas empresas ou foram esgoto abaixo, ou ‘emagreceram’ dramaticamente para se manterem a tona do charco, e nao conseguem arranjar novos empregos porque simplesmente nao os há para ninguém, velho ou novo). Aí como aqui, o problema é exactamente esse – entre um estado social justo e capaz e eficiente, e a caridadezinha balofa e pestilenta, os poderes instituídos escolhem a última. Aliás, escolhem seja o que quer que for, desde que nao interfira com a acumulacao de lucro fácil e chorudo…


  3. Judite diz mas o dr Silva Lopes está agora mais próximo do Dr. Medina do que esteve da 1ª vez que esteve aqui – ai judite rais a partam

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