No autocarro

autocarro

Num autocarro de serviço urbano, cujos passageiros terão, todos, mandado uma pinocada há menos de uma hora, à pinha, uma mulher de meia idade, flácida, de aspecto descuidado, ocupa um lugar sentado, praticamente adormecida, mal segurando com uma das mãos um saco com compras. No corredor e a seu lado, um homem de meia idade, flácido, de aspecto descuidado, desperta do embrutecimento rodoviário típico porque um líquido pastoso encharca-lhe a meia do pé esquerdo – o seu melhor pé. Verifica então que um dos pacotes de leite inclusos no saco da personagem à sua ilharga ter-se-à furado algures mas, depois de um irritado olhar sobre aquela carcaça gelatinosa, opta por considerá-la responsável pelo sucedido. Acto contínuo, esbofeteia três ou quatro vezes a mulher, que finge não dar por nada, continuando de olhos fechados muito ciosa do seu lugar. Intrometem-se terceiros. Gera-se uma grande confusão. Os que estão em pé apoiam incondicionalmente a iniciativa do homem flácido, os sentados condenam-no, indignados. Há também alguns indecisos. Pancadaria geral. O motorista trava com brusquidão e o aparelho imobiliza-se, obediente. Alguns caem. Outros aguentam-se. É assim em tudo na vida.

O motorista dirige-se ao homem empastado.

Condutor – Saia! Eu vi o que o senhor fez. Já!

Homem – (amuado) Só saio quando a minha meia secar. Não antes!

Condutor – Então, esperamos todos por essa altura! Sempre quero ver…

Ficam à espera do anunciado momento. Três horas. (tempo real)

Sinais

de 

i

m

p

a

ciência

crescente.

Homem – (mimado) Pronto, secou. Agora saio.

Condutor – Fique mais um bocado, caramba! Que diabo, sair assim sem mais nem menos…

Homem – Vocês, motoristas dos transportes urbanos municipalizados, são todos da mesma laia. Ai quando vierem as privatizações!…

Fotografia MBK (Marjie), publicação original: liberatura

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