Postcards from the Balkans #11

‘One hundred years of solitude’

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Este postal vai começar ao contrário, porém as fotografias estão na ordem certa. Ao contrário do postal e dos meus sentimentos. Tenho as emoções completamente abaladas e acreditem que as cervejas que já bebi hoje (vá foram só algumas, não exageremos) nada têm a ver com isso.

Esta foi a segunda vez que pus os pés na Croácia. A primeira foi há exatamente 11 dias, em Zagreb, de passagem para Ljubljana. Depois de amanhã – quem me dera que fosse já hoje, agora mesmo – voltarei por uns dias a Zagreb antes de voltar a Lisboa, recuperar as chaves de casa e retomar a minha vida. Bem sei que esta é também a minha vida, mas as férias são sempre um intervalo, uma pausa. O tempo em que a minha vida se assemelha mais à literatura. Estou-me a plagiar. Já o disse o ano passado. Isto mesmo, muito embora por razões absolutamente diferentes.

Mas comecemos o postal ao contrário, então. Estou em Split, na Croácia. E se já aqui vieram e gostaram… tenho muita pena, mas tenho a dizer que estou a odiar. Tudo. O folclore em torno do velho centro (mais património mundial, que seca), os taxistas, os cafés, as pessoas em geral… melhor será dizer, os turistas, mas sobretudo o dono do hotel onde me hospedei. Escrevo-vos de um belo café. A internet não funciona no buraco que me deram, em vez do quarto. Tudo aqui – exceção feita a este belo bar (Marvlvs) onde se ouve bom jazz e se bebe bom vinho, embora eu prefira beber cerveja e, sobretudo, onde há livros, muitos e onde parece que escolhem os livros para ti, mas já lá vamos – e vou considerar que esta será a minha casa nas próximas 30 e qualquer coisa horas.

Gostei tanto de Split que a primeira coisa que fiz mal saí da estação de autocarros, foi comprar o bilhete de comboio para Zagreb. Ao contrário da estação de autocarros, a estação dos caminhos de ferro está deserta. Acho que este desdém pelo comboio diz muito do lugar onde estou. Se na BiH as linhas foram destruídas, aqui a razão não é só essa ou não é, sobretudo, essa, mas apenas o facto de Split ser uma cidade para italianos. Tipo mais uma colónia balnear para o povo do outro lado do Adriático, este (sim, ao menos isto) belo mar que vejo agora pela terceira vez na minha vida. Todas as outras vezes foram do outro lado, do lado italiano. Mas Split é essencialmente isto, a nova colónia de férias dos italianos. Com eles trouxeram os mosquitos. Cheguei há 8 horas e já pareço um passador. Amanhã devo ter mordidelas de mosquito em todos os centímetros de pele, mas adiante. Mais uma picadela, menos uma picadela. Isso passa. Outras coisas nunca passarão, tenho a certeza.

Venho de um país pobre (a BiH) e de uma região ainda mais pobre (a Herzegovina). Antes estive no país mais próspero dos Balcãs e (atrevo-me a dizer, embora sabendo que estou a ser bestialmente etnocênctrica) do mais europeu (no sentido União Europeia, whatever that means). Chego a este sítio que não sei descrever. Só me ocorrem adjectivos péssimos e sei que posso estar a ser injusta. Split é também uma cidade bonita. Mas tudo o resto é absolutamente feio (exceção feita, repito, a este maravilho bar onde me encontro e onde já estive de tarde), rude, comercializável, caro.

Além dos italianos, Split está cheia de americanos com os seus sotaques palermas e com o seu sempre eterno, sobretudo (já o disse para aí outras vezes) entre os jovens, ‘it’s like’ a entremear cada palavra. Não admira que tudo seja caro, vendido e comprado. Que tudo, até a vergonha, ou melhor, a sua ausência, seja vendido. Digo isto a propósito de muitas coisas, mas sobretudo a propósito do hotel que reservei (tal como os outros e tal como sempre faço) através do Booking.com. Pela primeira vez na vida e nas viagens, já longas ambas felizmente, o que encontro é um buraco que nada tem a ver com o que reservei online. Um buraco caríssimo ainda por cima e onde tem de se pagar em dinheiro. Ainda não paguei. Já barafustei até onde pude. Tentei arranjar outro sítio, inclusivamente com a ajuda do rapaz deste belo bar onde estou. Nada feito. Split está completo. Portanto, vou ter de dormir naquele sítio terrífico. Vamos a ver como. Amanhã vos contarei, se sobreviver. Se os mosquitos, among other interesting things, não me comerem viva.

A certa altura desisti de barafustar e de encontrar outro sítio. São só duas noites, de certeza que hei-de sobreviver. Em Zagreb de certeza que será diverso. Ter barafustado serviu apenas para me ‘fazerem um desconto’. Vão fazer. Melhor que nada, seja como for. A culpa é minha. Ninguém me manda vir para sítios completamente turísticos, junto ao mar adriático, em agosto. Devia ter ficado na Bósnia, ter ido diretamente de Mostar para Zagreb. Agora é tarde. Aguentemos, pois.

À parte esta situação do hotel, Split é, como já sugeri um sítio caro. Um sítio (pelo menos nesta parte da cidade) feito para os turistas e apenas para estes. Está calor. Há mosquitos. Tudo isto. E Split parece uma cidade italiana da costa, qualquer uma das que já visitei. Para isto prefiro a ‘real thing’, naturalmente. As ruas do centro antigo, com o palácio Diocleciano, são magníficas. Seriam, se as conseguíssimos ver, claro. O caminho de Mostar até aqui fez-se bem, em cinco horas de autocarro. Quando se entra na Croácia, sobretudo a partir de Ploce, a paisagem da Croácia é absolutamente magnífica. O mar, o mar, o mar. Ainda assim não é um oceano.

Ao fim de pouco tempo de caminhar, durante a tarde, desisto. Só vejo cabeças e pernas, depende para onde estou a olhar. Vejo umas portadas com ‘Biblioteca’ escrito a lápis, ouço o Chet Baker a cantar lá dentro e entro. Ainda bem que entrei. O sítio é tão bonito, tão sossegado, tem livros e jazz e um rapaz que fala português porque viveu no Brasil. Antes dele, outro trouxe-me uma cerveja e a conta dentro de um livro. O livro era o ‘Cem anos de Solidão’. Eu disse: ‘tem de me trazer outro, esse já li’. Ele respondeu: ‘já leu?’. ‘Claro’ – disse eu – ‘toda a gente já leu esse livro, é um clássico e maravilhoso’. Ele diz que na Croácia as pessoas lêem pouco, são as que menos lêem na UE. Não me surpreendo. Pelo menos as de Split não devem ler nada. A avaliar pelo modo como tratam as outras pessoas e os convidados, que pagam, aliás. Digo que em Portugal as pessoas também não lêem muito, que eu é que sou uma grande leitora. O que nem é, hoje em dia, assim tão verdade, mas… suponho que em comparação com a maior parte das pessoas, eu ainda me possa qualificar como uma grande leitora.

Saio do bar, mas antes conheço o rapaz que fala português (na conta têm escrito até obrigado, coisa que acho muito simpática) e o seu velho cão, com 12 anos. O rapaz há-de tentar ajudar-me mais tarde a encontrar uma alternativa ao meu alojamento terrífico, embora sem sucesso. Janto num sítio simpático, embora extremamente caro. Com a neura, achei que merecia. Vou de novo ao quarto. Está calor. Sou mordida por mil mosquitos. A internet não funciona. Volto ao bar. Aqui estou. A ouvir a Nina Simone, a beber mais uma cerveja e a desejar que o dia de amanhã passe depressa e que chegue Zagreb e depois Lisboa e depois a minha pequena casa. Onde há jazz e cerveja e onde estão os meus livros. A minha vida.

Em dias como estes, sinto-me sozinha, é verdade. Sem ninguém com quem dividir as chatices e o barafustar e a cerveja. Há infinitamente muito mais coisas muito piores do que os meus dois dias no buraco deste Dioclecian Hostel. O livro que me trouxeram agora com a conta, é o Aleph. Não sei se ajustam os livros aos clientes, nem me interessa. Seja como for, parece-me bem.

(Nota: é provável que este postal tenha mais erros ortográficos involuntários que o costume. Deve ter sido da neura, ou da cerveja, ou de ambas. As minhas desculpas, seja como for)

Comments


  1. Não há férias sem arrelias… mas a verdade é que não há direito de as termos (pelo menos de férias!):
    Beijinhos


  2. exato. mas enfim… isto não é nada. o pior são os mosquitos…. 🙁 agora vou passear!

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