Reaparição de Luiz Pacheco

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Quando o Luiz Pacheco esperava a morte num lar no Príncipe Real, em Lisboa, fiz-lhe uma entrevista que a revista do Público fez o favor de publicar, dando honras de capa ao mal-escrito (i.e., ao maldito, na sua própria e justíssima definição). Depois disso, passei a visitá-lo regularmente, a cada vez levando-lhe as suas bolachas predilectas: as araruta, que ele adorava, e podia comer à vontade, e que eu procurava identificar em diferentes lojas, versões e receitas, um jogo prazeiroso porque eram difíceis de encontrar. Bolachas antigas, para pessoas antigas, diziam-me os poucos que sabiam o que eram.

Uns meses depois de o Pacheco morrer, apareceu por esses dias na escada do prédio uma pequena arara que alguém acorrentou dentro de uma gaiola e que era estranhamente parecida com ele. A aparição seguia de perto uma outra de Fernando Pessoa, com que António Manuel Venda havia sido contemplado na parede da sua casa-de-banho – um lugar bom como qualquer outro para uma aparição. A mim coube-me o Pacheco, na forma dessa arara que passou uns dias no segundo andar, a fazer de porteiro do patamar, espreitando sem pudor os que subiam e desciam, sobretudo as mulheres.

A noite passada, num sonho maluco, voltei a ver o Luiz Pacheco, desta feita entretido a tratar das frutas e legumes da mercearia da Dona Joaquina. Fui lá comprar pão alentejano e eis que sou recebida pelo Pacheco, enfiado atrás do balcão da Joaquina como se fosse o seu lugar natural. Nem perguntei pela Joaquina, de tal forma me encheu de alegria o reencontro com o Pacheco. Perguntou-me se eu queria pão de Évora ou se preferia o da Vidigueira. Respondi o da Vidiguêra, perguntei como ia a morte, disse-me que era um descanso, quis saber da minha vida, disse-lhe que era uma canseira, despedi-me dele apertando-lhe as mãos esguias, aquilinas (de águia, lá está) como narizes e de unhas finas, e realmente muito parecidas com patas de ave.

Legados e Heranças

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252.494.854 euros é quanto falta aos cofres públicos dos bracarenses. Se não me equivoquei na leitura do memorandum de conclusões, os encargos com parcerias várias (em que os investidores privados têm sempre lucro garantido) não estão contabilizados; algumas dessas parcerias (e respectivas rendas) valem durante 25 anos.
Postas as evidências, é lícito e justo que se refira que o autarca Mesquita Machado [37 anos de poder em Braga] teve, tem e terá um impacto directo na vida dos bracarenses num espaço temporal de 62 anos. Notável.

Um defensor do AO90 contra a simplificação da ortografia

Marcos Bagno é um linguista brasileiro e defende o acordo ortográfico (AO90) com a mesma frontalidade com que critica o “preconceito linguístico”. Acrescente-se que é um homem de esquerda, preocupado, portanto, com os mais desfavorecidos, que o são, também, por serem desfavorecidos em termos educativos.

Continuo a só encontrar defeitos no AO90 e sinto algum desconforto diante de algumas opiniões do autor brasileiro no que se refere à questão do preconceito linguístico. Esse desconforto é consequência de uma reacção, uma vez que o meu conhecimento dos textos de Bagno resulta de leituras dispersas e superficiais; um dia, poderei ter uma opinião sobre o assunto.

No que se refere ao campo ideológico, teremos, provavelmente, muito em comum.

Em Portugal, alguma esquerda tem defendido o AO90, argumentando que “a simplificação das regras de escrita [resultantes, depreende-se, do AO90] constitui (…) uma forma de democratização da língua portuguesa.” No Brasil, o Movimento Acordar Melhor defende que a simplificação ortográfica deve ir mais longe, sempre com o objectivo de facilitar a aprendizagem.

Confesso que, tendo em conta as minhas leituras superficiais sobre Marcos Bagno, esperaria dele uma opinião semelhante. Foi, portanto, uma agradável surpresa ter descoberto, no Facebook, que defende precisamente o contrário, com argumentação inatacável. O texto foi originalmente publicado na revista Caros Amigos e o autor resolveu disponibilizá-lo nas redes sociais. A seguir ao corte, está a transcrição. Continuar a ler “Um defensor do AO90 contra a simplificação da ortografia”

Valsa lenta

Felizes os que morrem devagar, e nesse devagar vão revendo tudo quanto foi, e quanto é, e o que ficará. Morrem como quem chega à estação de destino, o comboio abranda e nesse abrandamento vêem com detalhe a paisagem que até aí era mero esboço fugidio, recolhem a bagagem, lançam um último olhar ao lugar que ocuparam, e saem, devem sair.

Se te dizem que é melhor morrer de repente, que a morte te apanhe desprevenido, não acredites. É melhor morrer devagar, com tempo para saborear os pêssegos deste Verão, sabendo que não haverá outro Verão, e deixar que o mundo inteiro se concentre por instantes no prazer deste pêssego maduro, e que ele valha por si mesmo, sem pressas, não porque é o último mas porque é perfeito. Continuar a ler “Valsa lenta”

Histórias para embalar ovelhas

(Passos Coelho efectivamente avisou ao que vinha senhor deputado. O vídeo do Ricardo Santos Pinto é a prova viva disso mesmo…)

Duarte Marques, qual cruzado passista, continua a usar do seu espaço gentilmente cedido pelo Expresso para simpáticas lições de propaganda social-democrata, conhecimentos quiçá adquiridos na universidade de Verão lá da jota, ora louvando Passos Coelho, ora veiculando falsidades, o que no fundo também se enquadra no acto de louvar o primeiro-ministro, esse exímio contador de mentiras.

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Opinião de um pai sobre a chamada avaliação de professores

O texto de João Fraga de Oliveira no Público de hoje merece uma leitura atenta, pelo que revela de poder de síntese e de sensatez. Eis o título: “Avaliação de professores: o “politiquês” em discurso directo?”

Vale a pena relembrar que a Educação não é um problema exclusivo dos professores, mas da sociedade. Vale a pena, ainda, relembrar que os problemas dos professores são, também, problemas da Educação e, portanto, da sociedade. Coisas fáceis de perceber, independentemente da área ideológica que se frequente.

A propósito de coisas fáceis de perceber, ou seja, a propósito de bom senso, realce-se e releia-se a seguinte proposta de João Fraga de Oliveira: “Apesar de ser controverso (qualquer candidato a professor é titular de inerente licenciatura, para o que aí, na universidade, deverá ser exigentemente avaliado), é de admitir que, para o início (e não já depois de vários anos) do exercício de uma profissão tão socialmente responsabilizante e responsabilizável como é a de professor (ainda para mais vinculado ao Estado), deva haver um processo (e não só, necessariamente, uma mera prova escrita) prévio de avaliação/integração, visando efectivamente garantir “conhecimentos e capacidades” fundamentais para o desempenho de tal profissão, tão fulcral do (no) ensino esta é.” (perdoe-se-me o abuso do bold, mas, repito, o bom senso merece ser realçado).

Propaganda e Circo

Passos e Salgado

Os académicos do regime, da blogosfera à comunicação social financiada pela direita militante ou outras clientelas, têm explorado à exaustão o suposto murro na mesa de Passos Coelho que recusou, apos suposto pedido de Ricardo Salgado, uma intervenção do estatal no banco que alguns dos seus correligionários tomaram posteriormente de assalto, quais Armandos Varas enviados por Sócrates para o BCP. A tal comunicação social que a propaganda refere como sendo de esquerda, apesar de controlada por homens da direita liberal, tem feito das tripas coração para beatificar São Pedro da Tecnoforma e a sua coragem sem paralelo de tirar o tapete ao banqueiro caído em desgraça. Apenas e só quando caiu em desgraça, algo que ilustra bem a coragem do indivíduo.

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Já que de religião falamos, venha o Diabo…

Não simpatizo com Estados religiosos. Cristãos, Judeus, Árabes ou outros, plasmam na Lei a fé ou doutrina da maioria da população, sem respeitar o Direito à diferença e Liberdade dos restantes indivíduos. Foi sempre assim ao longo dos tempos…

Sobre o conflito Israelo-palestiniano, sem apoiar qualquer dos contendores, deixo o meu ponto de vista.

Israel é um Estado Judeu. Tem no mínimo o mesmo direito à existência que Estados islâmicos como Irão ou Arábia Saudita. O não reconhecimento do Direito à existência do Estado de Israel, implicaria uma intervenção da ONU no sentido de desmantelar os Estados religiosos. Todos eles, não apenas os monoteístas… Solução em que não acredito, pois significaria a perda do direito dos povos à sua autodeterminação. Não é aceitável qualquer ordem ou polícia mundial.

Os cidadãos de Israel ou de qualquer outro lugar no mundo, têm direito a viver em paz e segurança. Muitos dos que contestam o isolamento a que Israel condenou os habitantes de Gaza, já esqueceram as quase diárias explosões de criminosos bombistas suicidas a soldo de fundamentalistas, em cafés, autocarros ou praças, servindo os intentos de organizações terroristas. Os muros, passes e postos de controlo puseram fim a tal barbárie, intolerável no século XXI. A consequência foi condenar um povo à pobreza e exclusão. Muitos estão a pagar pela loucura de alguns, mas a sociedade israelita assim o exigiu, sair à rua em segurança é um Direito.

O Hamas insiste em lançar rockets sobre Israel, nunca reconheceu o Direito à existência do Estado Judaico, ao mesmo tempo que luta por estabelecer na Palestina um Estado que a existir iria praticar a Sharia. Lamento, mas por mais que custe isso não representaria qualquer avanço civilizacional, mas seguramente um retrocesso. O que por si só não absolve Israel dos crimes que diariamente pratica. Uma coisa é controlar fronteiras e defender território. Outra bem diferente é o sistema de apartheid que existe no seu interior. Porque Judeus e Palestinianos não têm exactamente os mesmos Direitos em Israel. Mesmo que ali nascidos, cidadãos honestos e trabalhadores. E disso poucos falam.

Falar em bons e maus, preto ou branco, neste conflito é um pouco difícil…

Paris a arder

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© Laurent Troude

Manifestação pró-Palestina em Paris (19 de Julho de 2014). Esta tarde, e embora interditada pelo Ministro do Interior, preocupado com o anti-semitismo, deverá haver outra. O Novo Partido Anti-Capitalista apela à mobilização dos parisienses

O problema do custo da diária na prisão

Diana Andringa

Anunciou o jornal Público que a Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais pretende vir a afastar os directores das cadeias que não conseguirem reduzir a reincidência dos seus reclusos. De acordo com a época, as razões avançadas são contabilísticas. É que metade dos 14.500 reclusos portugueses voltam à cadeia e, segundo um responsável daquela direcção geral, cada um custa ao Estado 50 euros por dia: “O tratamento penitenciário é caro e, por isso, não nos podemos dar ao luxo de encarar a reincidência de ânimo leve”, explicou. Daí a decisão de avaliar os resultados e o perfil do director, sendo este responsabilizado e podendo ser afastado se nada mudar.

Há anos, numa intervenção no Centro de Estudos Judiciários, sugeri que todos aqueles que têm responsabilidades no sistema judicial – incluindo políticos e legisladores que respondem com aumento de penas aos medos sociais que, muitas vezes, incentivaram – deveriam passar algum tempo encerrados numa cela. Talvez isso lhes permitisse ver a prisão com outros olhos, bem diferentes do custo da diária. Continuar a ler “O problema do custo da diária na prisão”

Em defesa da honra e consideração

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Arrastado pelas ruas da amargura, o nome de Crato, identificado com um conhecido ministro, espécie de híbrido entre a União Nacional e o maoismo à portuguesa, tem sido duramente injustiçado. Eu compreendo. Os meus colegas professores, emboscados pelo tratante e seus descerebrados colaboradores, adquiriram um compreensível asco pelo nome e pelos actos do tratante. É um processo de associação inevitável. Por isso, aqui estou a lembrar que o nobilíssimo nome Crato, que já brilhava nas bandeiras do priorado do mesmo nome, é ostentado por um pequeno mas justamente orgulhoso Concelho do Alto Alentejo. Ao contrário do que acontece com a corja da 5 de Outubro do outro Crato, neste tudo é bom. Não é muito povoado, mas os habitantes que tem – não mais de 4000 – são excelsos e entre eles estão algumas das minhas pessoas preferidas, como diria o Derek.

Assim, no sentido de desagravar a ofensa feita à insigne vila do Crato, desafio os meus amigos a visitá-la e comprovar o que aqui digo. Os que podem, assentem arraiais nesta pousada que aqui vos mostro ( restauro do antigo mosteiro da Flor da Rosa). Se não tiverem argumento$ – o que acontece a tantos de nós…- parem aqui para beber um copo ou um simples café. Serão bem recebidos. Mas quando estiverem a falar do Crato (Nuno) tenham cuidado, para não haver confusões. É que o pessoal por aqui anda muito susceptível. E compreende-se.