19 Agosto – Dia Mundial da Fotografia

Paulo Abrantes
Bayard

Se pudesse contar a história com palavras, não precisava de arrastar comigo uma máquina fotográfica.

Lewis Hine

A fotografia foi inventada para servir as artes e a ciência como um Janus de duas caras; marcada pela ambiguidade, nasceu como ciência e cresceu como arte. Talbot tinha uma frustrante negação para o desenho, e por isso se entregou devotadamente à pesquisa de um processo fotogénico permanente; a luz, esse «lápis da natureza», seria o substituto da sua mão desajeitada. Mas uma vez inventada, a fotografia foi logo posta por Talbot ao serviço das causas técnicas, por exemplo auxiliar na decifração de textos cuneiformes do British Museum, em que estava envolvido.

Das obras de Niépce e Daguerre praticamente nada resta, e o que se conhece surpreende mais pelo milagre da técnica do que pela qualidade estética. O primeiro fotógrafo – artista francês foi, indubitavelmente, Bayard. Ignorado pelas entidades oficiais que em 1839 proclamavam a descoberta da fotografia, Bayard destilou o seu rancor num soberbo auto-retrato (1840) que o representa semi-nú, como o cadáver de um afogado. O humor negro é acentuado pela legenda: O governo que deu demasiado ao sr Daguerre, nada fez pelo sr Bayard e o infeliz afogou-se.

(Excertos de um texto de Jorge Calado publicado na Revista Expresso, 7 de Outubro de 1989)

paulo abrantes

Comments

  1. Sarah Adamopoulos says:

    Muito bem lembrado o nome de Jorge Calado, o homem que andou às compras para reunir um acervo de fotografia para o Estado, no tempo das vacas gordas, claro, e apesar de tudo o que depois não se fez, não se faz pela Cultura e pela memória dela em Portugal, designadamente fotográfica. Tenho o livro que reune parte desse acervo público, e algumas dessas imagens são inesquecíveis, como por exemplo um retrato de Maria Helena Vieira da Silva sentada no seu atelier na fábrica das sedas. Amo a Fotografia, uma arte que a sua massificação tornou outra coisa, banalizando e tornando tudo igualmente irrelevante, e em Portugal lançando os fotógrafos na miséria, como todos os outros. Conheço muitos que emigraram.


  2. Onde anda esta coleção?

  3. Sarah Adamopoulos says:

    Na antiga cadeia da relação do Porto? A apodrecer? Quem sabe deve ser a Teresa Siza.

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