Postcards from the Balkans #14

Broken hearts/ Cuori infranti / Coeurs brisés

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Um dos símbolos de Zagreb é um bolo em forma de coração, de erva doce. Há uns anos, na Roménia, comprei um coração desses – também populares lá – para levar a alguém em Portugal. Há um postal sobre isso. Acompanhava o coração de erva doce uma frase que vi escrita algures na bela cidade de Sighisoara: ‘you have to break your heart until it opens’. O coração acabou por ser comido fora do prazo, o de erva doce, quero dizer. O outro creio que nunca se abriu por mais que se tenha já partido. E não é do meu que falo.
Saio do hotel de manhã, na direção da cidade alta. Aí se encontra, entre muitas outras coisas admiráveis, um museu muito particular: ‘the museum of broken relationships’. Já lá iremos a esta mostra, entre o triste e o divertido, o desesperado e o esperançoso, o belo e o terrível, de despojos de relações interrompidas. Do hotel caminho pela rua Vlaska até à praça Josipa Jelacica. Há pouca gente, é agosto em Zagreb como em toda a parte, ainda que aqui quase não haja turistas, pelo menos à hora em que entro na praça e a atravesso devagar. É uma praça grande, com também grandes esplanadas, a estàtua de Josipa Jelacica no meio e elétricos. Há também uma fonte – Mandusevac – construída sobre uma nascente que, até ao século XIX abastecia Zagreb de àgua. As crianças chapinham por ali, com os cães. Tudo é calmo.
Atravesso toda a praça em direção à rua Ilica que percorro até encontrar a pequena Tomiceva, à direita. Nesta está o funicular para a cidade alta. O funicular com o percurso mais curto do mundo, diz-se. De facto, nem dois minutos e estamos já em frente à torre Lotrscak e logo à direita desta a praça Katarinin, com a igreja com o mesmo nome, atrás da qual se tem uma vista soberba sobre a Catedral e o Kaptol. Hei-vê-la mais tarde. Na mesma praça, o museu dos corações partidos. Mais tarde também. Agora caminho pela cidade alta, no meio do sossego. Que sítio tão bonito e tão quieto. Atravesso a praça Jezuitski e encontro a rua Kamenita onde se encontra a farmácia mais antiga de Zagreb e, ao fundo, a Porta de Pedra, com placas evocativas a mortos, bancos de igreja, capelinhas e velas acesas. Volto para trás, subo o resto da rua Kamenita até à praça Svetog Marka. Aqui está a igreja de São Marcos, com o seu belo telhado de mil cores e muito pouca gente.
Contorno a igreja pelo lado esquerdo e dou de caras com duas ou três cameras de filmar e uns três ou quatro homens. Pergunto a um deles o que se passa. Explica-me que estão à espera do Primeiro Ministro, que regressa hoje de férias. Digo que ninguém deve querer saber, porque não se vê, além deles e de mim e dos polícias que guardam o Parlamento (é o edíficio para o qual apontam as cameras), uma alma. O homem ri-se e diz que é verdade, que nem ele mesmo quer saber do fim das férias do Primeiro-Ministro. Rio-me também e continuo a andar pelas ruas extremamente quietas. Passo o atelier de Ivan Mestrovic, o famoso escultor croata e, na mesma rua, a Mletacka encontro um café que anuncia verdadeiro café bósnio. Sento-me e peço o café para o qual é preciso ter paciência. O café que se toma calmamente, contemplativamente. Ali fico, com o meu café contemplativo.
Deambulo pelas ruas da cidade alta mais um bocado, a seguir ao café bósnio. Aliás, um bom prelúdio, já que tudo aqui convida à contemplação vagarosa das ruas, das casas, das janelas, da vista. Decido voltar à torre Lotrscak e subi-la. São apenas três andares ou quatro. Lá em cima a varanda é estreita, de madeira que range. Agarro-me ao varandim, mas vejo tudo a andar à roda, as vertigens, pois, pelo que resolvo descer antes que desmaie.
Ao descer decido visitar, então, o museu ‘dei cuori infranti’… corações partidos. ‘Broken relationships’. ‘Rapporti interrotti’ como me o apresentou a Barbara, em Sarajevo. Aliás, é por causa da Barbara, do Luca e do Ivano que aqui estou. Foram eles que me disseram que deveria visitar, quando em Zagreb (onde eles haviam estado antes de Sarajevo), este ‘museo così particolare’.
O museu é pequeno. E engraçado. É, de facto ‘molto particolare’, esta coleção de objetos que sobraram das relações de pessoas comuns de vários cantos do mundo. Há relações que foram longas, outras que apenas existiram no breve instante de um olhar. A todas une a circunstância de alguém – geralmnte as mulheres – ter ficado com o coração partido. E o museu recolhe e reune, então, fragmentos desses corações que se partiram. E hão-de seguramente voltar a partir. Se tudo correr bem, quero dizer. Há sapatos, roupas, bonecos de peluche, pequenos nadas, rolhas de garrafas, pedrinhas, cartas, poemas… há uma salinha dedicada às relações interrompidas entre pais e filhos. Noutra há um machado que uma rapariga usou meses a fio para ir destruindo a mobília deixada pela sua namorada depois de a ter trocado por outra rapariga. O machado é a peça mais dramática, digamos, embora não corresponda à estória de (des)amor mais intensa. Não consigo escolher nenhuma. A maioria são estórias de traição, de pessoas que são trocadas por outras. Há estórias sobre relações impossíveis, também. Acho bonito que as pessoas enviem estes objetos, as suas estórias. Somos tão iguais, em tudo, até no amor e no abandono e na (in)felicidade. Gosto particularmente de uma passagem de uma estória de amor à distância, uma passagem sobre uma mulher a quem atraem os homens dela separados por milhas, fronteiras, oceanos ou vidas porque isso é a garantia de que ela consegue manter a sua segurança e o seu estado de ‘depressão elegante’. Uma bela passagem. E tão familiar.
Gosto do museu. Quando saio venho a pensar em todas estas pessoas, nós, eu… e dou e caras com um autocolante numa parede que diz: ‘keep love alive’. É… por mais que o coração se parta, estará sempre aberto. Se tudo correr bem. Sento-me no pequeno jardim atrás da torre e faço o inventário dos despojos que transporto comigo, agora mesmo. Era capaz de, sim agora mesmo, contribuir com alguns pequenos objetos, pétalas de girassol ou buganvília, bilhetinhos, pequenos desenhos e, pasme-se, até com uma carica de cerveja, para o museu das relações interrompidas. Porém, é certo que não tenho o ‘coeur brisé, estou sossegada e com o coração bem remendado. Penso, ali sentada no banco atrás da torre que mais de que nas relações terminadas, seja qual seja a sua duração, mais me fascinam as relações nunca começadas. Quero dizer, todas aquelas que poderiam ter acontecido e não acontecem por instantes decisivos, por pequeníssimos golpes de asa. Tenho comigo, agora mesmo também, dois ou três pequenos tesouros dessas relações que nunca chegaram (chegarão) a nascer. Podia abrir,aqui mesmo, já, o museu das relações não começadas.
Almoço numa barraquinha do Strossmayer, que desço depois, entre o verde, devagar até, novamente, à rua Ilica. Daqui caminho até à praça Petra Preradovic e depois pela galeria Oktogon até à Josipa Jelacica. Passo a tarde a passear (pela Radica, pela Tkalciceva) até desaguar no Kaptol e na Catedral, onde entro enquanto um padre diz a missa. Fico ali um bocado. A ladainha num língua que não entendo pouco me incomoda. Está fresco ali dentro, cheira a velas. É agradável como normalmente são as igrejas. Quando saio passo pelo Dolac (mercado) vazio agora. Sobraram umas banquinhas de flores. Numa estão os girassóis cheios de abelhas. Pergunto ao senhor que os vende se posso tirar uma fotografia. Que sim. Quando tiro, estende-me um pacote de bolachas e insiste para que tire uma. ‘Hvala’.
Decido regressar um bocado ao hotel. Pela primeira vez em muitos dias doem-me os pés. Vou pela rua Vlaska e páro para tirar uma fotografia a um edifício. De repente um rapaz loiro de cabelo comprido, lenço na cabeça, ipod na mão aparece de braços abertos à minha frente, aos saltos e a fazer caretas. Diz-me que me tira uma fotografia, vá. Digo que não quero. Insiste. Que não, continuo eu. Ri-se. Sim. Não. Ganho eu. Desiste e vai em sentido contrário.
E é então que reparo nele, do outro lado da estrada. Alto, encostado a um quiosque, contemplativo como se tomasse um longo café bósnio. Fico imediatamente fascinada e atravesso a rua. Ando à volta dele, com se pudesse reparar em mim, mas permanece impávido. Como se fosse de bronze ou de pedra. Vejo uns senhores sentados numa esplanada e vou perguntar-lhes quem é o homem alto no meio da rua. Não falam inglês, mas consigo perceber que o cavalheiro fascinante é um escritor croata, de seu nome August Senoa. Um dos homens diz-me em alemão: ‘venha que lhe o apresento’ e eu vou e encosto-me ao escritor, imito-o na pose, digo-lhe até ‘dobar vece’. Mas nada. Não fala comigo.
O homem ri-se. Eu agradeço-lhe as apresentações e fico mais um bocado em frente ao escritor na esperança que saia do seu mutismo de bronze e repare em mim, me ofereça, vá, um girassol ou me estenda um pacote de bolachas ou um poema. Vai partir-me o coração, bem sei. O dele é inquebrável ou, como acontece com frequência entre os homens, assim parece. Vou ler o escritor croata, assim que encontre os seus livros em língua que possa entender. Vou ler os seus livros e o coração vai partir-se-me muito devagar, como acontece quase sempre na vida das pessoas, mas mais devagar ainda porque entre mim e o belo escritor croata há milhas, fronteiras, décadas e vidas. Tudo o que me garante uma depressão elegante. O costume.
(este postal vai dedicado à Barbara, ao Luca e ao Ivano/ questa cartolina va dedicata a Barbara, a Luca e Ivano. Vi ringrazio per avermi parlato di questo museo così particolare!)

Comments


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  2. As cidades são como os “cuore infranti”… têm pequenas variações que nos deliciam, pois no demais, na essência, tudo é igual!
    Todavia adoro viajar e ler os relatos de quem o sabe fazer com elegância.
    Beijinhos.


  3. 🙂

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