Postcards from the Balkans #16

A chuva em Zagreb, como se fosse outono. Tavez seja outono. Há um gato preto à entrada da Galeria de Arte Moderna. Quem me dera que a minha vida fosse apenas isto…

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Quem me dera que a minha vida fosse apenas isto. Reparar nos gatos. Neste gato preto à entrada da Galeria de Arte Moderna, alheio a quem passa, naquela posição tão tipíca dos gatos, aquela que todos sabemos desenhar desde pequenos. Um gato de costas. Coisa tão simples. Quem me dera que a minha vida fosse apenas isto, repito plagiando mais ou menos o mais simples dos heterónimos de Pessoa. Embora ele não falasse de gatos. Mas falo eu. Quem me dera que minha vida fosse apenas isto… reparar nos gatos em museus, nas cidades alheias, com se fosse próprio dos gatos estarem sossegados nos museus e de mim reparar neles. Para existir deve ser preciso pouco mais, estou segura.

Amanhã escreverei o último dos postais dos Balcãs. Significa isto que esta viagem acabará e que começo já a ter saudades quer da viagem, desta, quer de todas as viagens feitas, por fazer e, sobretudo, das que nunca se farão. Tenho, por outro lado, saudades da minha vida. Bem sei que esta é também minha vida, mas é mais, sempre, com se fosse um intervalo em que não importa quem sou e o que faço, de onde venho e para onde irei… importa somente o que acontece em cada instante. As pequeníssimas coisas em que, na minha vida quotidiana, provavelmente não repararia. Como neste gato preto, de gravatinha branca, gordo e brilhante, como que à minha espera à entrada da Galeria de Arte Moderna. Este gato que me faz lembrar um outro, que tive(mos) há já muitos anos. E uma outra, conhecida há menos tempo, suave como uma nuvem, uma memória tranquila no meio de uma tempestade agora longínqua, quase como se se tivesse esfumado. Escrevo isto e troveja em Zagreb.

Quem me dera que a minha vida fosse apenas isto. Estes trovões do lado de fora da janela do quarto. Estas memórias que um dia hão-de ser tão distantes como as outras. Pressinto que esse tempo das grandes solidões povoadas de lembranças muito longe, se aproxima. Mas não, ainda não, esta não é ainda a minha última viagem. Não é ainda a última vez que ando a reparar nas coisas todas muito bem. E a recordar todas as coisas também muito bem. Não é a última vez em que a estranha sou (para) sempre eu. Não é ainda a derradeira vez que peço a um desconhecido se me pode tirar uma fotografia.

As fotografias. Uma das coisas que mais gosto é de ver como me vêem esses desconhecidos que se dispõem a retratar-me. É verdade que pareço sempre igual, mas asseguro que de fotografia para fotografia estou diferente. Há quem me tire 4 ou 5 fotografias de uma vez, há quem me tire apenas uma. Numas fico bonita de verdade. Noutras fico só eu, com as minhas rugas, os meus anos todos, um por um. Numas pareço uma rapariga. Noutras a pessoa crescida que, quase sempre, ainda, me vou esquecendo de ser. Em todas, sou eu ou as muitas que sou. Em todas a mesma estranha que me faz companhia. Sempre.

Fico sempre nostálgica no fim das viagens. Não procuro nada, de verdade, quando viajo. (E nada há de mais confortável que isto). Apenas esse reparar nos gatos sentados nos capachos, à porta dos museus. Hoje choveu em Zagreb. Era outono de repente e, de repente o verão outra vez ou ainda. As ruas no outono de Zagreb ficam vazias. No verão, de repente, povoam-se de gente apressada, que parece ter onde ir e, por isso, passa sem reparar nos gatos sentados à porta dos museus. Andarão à procura de qualquer coisa, a mesma ou parecida àquela que, daqui a dias, também eu procurarei.

Chove quando bebo o meu primeiro café na rua Draskovica. Continua a chover quando atravesso a rua Vlaska e passo pela estátua do escritor contemplativo. Chove ainda quando atravesso a praça Josipa Jelacica e percorro toda a Ilica até à praça Britanski. Há um pequeno mercado na praça. Nada a ver com o Dolac em extensão, animação, atividade. No entanto, os mesmos chapéus de sol (agora de chuva) tingem tudo de vermelho, frutas, legumes, flores, pessoas. A mesma luz sobre todas as coisas sob as gotas grossas da chuva que cai em Zagreb. Talvez seja outono.

Ao fim de um bocado, o verão aparece, já o disse como se nunca tivesse feito um intervalo. O céu, por cima dos chapéus de sol vermelhos, torna-se outra vez azul. Algumas flores e frutas retomam as suas cores. Eu retomo o caminho, percorrendo (no sentido inverso ao de ontem) a Frankopansa, entrando na Praça Marsala Tita e reencontrando a Masarykova. Ao cimo desta, de novo a estátua de Nikola Tesla. Admiro outra vez a pose, a calma. Entro depois na rua com o nome do inventor e vou até ao Zrinjevac, um parque maravilhoso, onde é definitivamente outono. Fico por ali admirando as cores. Estou a fotografar o edifício do Museu Arquelógico quando um senhor me pergunta se falo inglês. Pensando que queira alguma informação digo que sim. Não quer. Quer só dizer-me que reparou que eu era turista, por causa da fotografia e que na Josipa Jelacica há um posto de informação turística. Que coisa rara! Um local, sem mais nem menos, interpelar um turista para o informar. Respondo que sei onde é, muito obrigada. Pergunta-me se sou (claro) italiana. Digo que não, que sou portuguesa. Diz-me: ‘ah, é a segunda pessoa de Espanha que vejo hoje’. Rio-me mas não lhe explico nada. Além de que, digo frequentemente, como dizia o Hemingway, ‘não nasci em Espanha, mas a culpa não é minha’.

Gosto genuinamente de saber, de ter a certeza, que podia ser de qualquer parte. Não digo nada disto ao senhor, claro, mas é reconfortante esta certeza. Podia ser de qualquer parte. E não sei se conseguem perceber a sensação de grande liberdade que tal certeza me dá. Sento-me, com minha certeza e a minha liberdade, num banco do Zrinjevac. É definitivamente outono. As cores das árvores, as mil folhas pelo chão, a pouca gente que passa… tudo isto é já outono. Levanto-me e tenho à minha frente o belo edifício da Academia das Artes e Ciências (HAZU). Do seu lado direito fica a Galeria de Arte Moderna onde entro. Antes de entrar vejo o belo gato preto, sereníssimo como apenas sabem ser os gatos, sentado no tapete. Faço-lhe festas, que aceita magnânimo. Entro na Galeria. Exceto as esculturas de Mestrovic, nada mais conheço. Gosto sobretudo do ‘anjo com flauta’, comovente. E do segundo piso, dedicado à arte contemporânea. Amanhã terei tempo para ver parte dos 12000 trabalhos do Museu de Arte Contemporânea, tanto mais que se anuncia chuva outra vez. Talvez seja outono em Zagreb.

São três e meia da tarde quando saio da Galeria de Arte Moderna. O gato deixou o tapete abandonado. Chove, de novo, em Zagreb. O cheiro do jardim Zrinjevac sob a chuva, vale uma viagem inteira. Caminho por entre chapéus de chuva que transportm pessoas até à Praça Petra Preradovica onde como. Caminho mais um pouco pelas ruas em torno da Josipa Jelacica antes de regressar ao hotel. Chove ainda. Como se fosse outono. Talvez seja outono. Bastante mais tarde, ao jantar, diante de uma ‘san servolo’, volto a ver um gato preto. Não será o mesmo que aprecia arte moderna, seguramente. Mas quem me dera que a minha vida pudesse ser, assim de vez em quando, apenas isto. Reparar nos gatos, enquanto troveja numa cidade qualquer.

Comments


  1. Reparar… no que nos cerca e em nós, é uma capacidade rara.
    A nostalgia do fim de viagem é inevitável!
    E este cirandar entre a nostalgia e o “reparar” está um primor.
    beijos

    Nota – Obrigado por sempre reparar.

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