Os hippies da sharia

Carlos Roque

Khadijah_Dare_Abu_Bakr

Ela tem 22 anos, adoptou o nome de Khadijah Dare e é de Lewisham, Londres. Ele acolheu o nome de Abu Bakr e é sueco. São casados, ambos combatem pelo ISIS e vivem com o filho pequeno em Raqqa, a capital do Califado.
O sonho dela é ser a primeira mulher a decapitar um “terrorista” dos EUA ou Reino Unido (como o James Foley, segundo afirma no Twitter).
Convertida durante a adolescência, vive aquilo que chamamos de radicalismo islâmico, que não é, nem mais nem menos, que viver em rigor sob os ditames da Sharia, a Lei Islâmica, mantendo aceso o fogo sagrado da Jihad de a impor a cada ser humano do planeta. E apenas isso.
Para muitos um bicho-de-sete-cabeças, que evoca açoites e chicotadas, apedrejamentos, amputações e execuções, a Sharia, baseada em tradições muito anteriores ao Islão, é, na verdade, uma resposta pragmática, simples e eficaz a muitos males que assolam a sociedade ocidental.

Por exemplo, um marido traído numa comunidade ocidental machista, pode eventualmente carregar esse estigma durante anos, ser apontado a dedo ou referido em sussurro. Com toda a dificuldade que acarreta a construção dum futuro com tal fardo. Com a Sharia, nada disso acontece: toda a comunidade participa na punição da “traidora”, duma forma tão violenta e traumática para todos, que ninguém mais refere o facto, abrindo assim caminho para o construção do futuro do ofendido. Uma pedra sobre o assunto, literalmente.
Uma sociedade regida pela Sharia não tem assaltos ou crime violento. As punições são tão severas que ninguém se atreve a roubar seja o que for, em que circunstâncias for.
Numa sociedade regida pela Sharia, ninguém perde o emprego, destrói um casamento, vai preso por cometer um crime de agressão, mata na estrada, ou faz figuras tristes, quer na rua, quer na internet, por beber demais. O álcool é proibido. Ponto final.
Não se vêm drogados. A droga é completamente proibida e as punições físicas são atrozes, como as do álcool.
Estes são alguns exemplos duma filosofia simples… Algo como cortar a cabeça para lhe passar a dor.
É claro que existem punições horríveis para actos que fazem parte da nossa normalidade, como uma mulher andar sozinha (sem um familiar), ou mostrar as pernas ou o cabelo, ou fazer propaganda a Jeová porta-a-porta, ou tomar um refresco com um amigo numa esplanada, ou conversarem num carro a fumar um cigarro. As violações com base na lógica do “estavas a pedi-las, ao não te comportares segundo os preceitos islâmicos” são punidas de forma leve. A pena da violada costuma ser pior que a dos violadores.Mas, para os adeptos, estas coisas fazem parte. Para eles é muito pior estarem no meio do trânsito e levarem um tiro e ficarem sem o carro ou saírem dum banco e levarem três. Ou a prostituição, ou isto, ou aquilo… É o que alegam.

É impressionante a quantidade de jovens ocidentais que se tem juntado à Jihad do ISIS. Semanalmente aparecem relatos de jovens que fogem da casa dos pais para isso. E inúmeras raparigas, como a londrina acima mencionada. Muitas espanholas e inglesas. E rapazes, de todas as nacionalidades. Ainda hoje soube de um belga com apenas 13 anos… Treze anos, no norte do Iraque, de Kalashnikov em punho, para matar infiéis. Os portugueses sabem que andam por lá onze dos seus. Um deles martirizou-se no outro dia ao carregar contra uma esquadra de polícia ao volante de um monovolume carregado de explosivos.
Austrália, EUA, Suécia… adolescentes e jovens que chegam, de todo o mundo, aos milhares para abraçar esta Jihad.
Porquê?

Não deve existir altura na vida de alguém em que a vontade de mudar o mundo seja maior que na adolescência. É a altura de colocarmos tudo em causa: a vida dos nossos pais, na qual identificamos um futuro que para nós não queremos. O mundo que a geração deles faz gestão, um mundo que não gostamos. A forma como eles o vêem, que contestamos.
Queremos mudar tudo, e precisamos de pistas, linhas-mestras. Numa altura em que não temos grande conhecimento técnico dos mecanismos da vida, começamos a acreditar que existam fórmulas mágicas para mudar o mundo.
Foi assim à volta de Woodstock. Foi assim com a geração do Flower Power.Todos os outros, excepto os nossos pais, tinham razão. Se os nossos pais eram de direita e conservadores, nós éramos de esquerda e comunistas. Se eram cristãos, nós éramos budistas, ou hinduístas, ou seguíamos um Guru Marahiji qualquer e fazíamos viagens à Índia, ou ao Nepal.
Sempre em busca dum novo rumo para aquilo que sabíamos estar mal.

Hoje, na segunda década do Século XXI, o fenómeno repete-se.
Só que hoje, todas as fórmulas antes tentadas, falharam. Nada resultou. Comunismo, Capitalismo, Gurus, Dalai Lama. Nada disso resolveu os males do Mundo. Os pais são exemplo disso: escravos das dívidas, alcoólicos, desrespeitados pelas mulheres, desrespeitadas pelos homens, todos a traírem todos. Deixaram de acreditar naqueles deuses coloridos e agora não acreditam em nenhum, nem na vida depois da morte, nem no futuro do planeta, nem no dos filhos, que nele andam à deriva…

É para muitos destes adolescentes e jovens, que o Islão se revela uma resposta.

Mas não o Islão espiritual. Esse, o da oração e contemplação, é muito semelhante a outras fórmulas tentadas. A resposta, eles buscam-na e encontram-na na magia do Islão Guerreiro, primordial, o do Profeta que, à semelhança do ISIS, andava de cidade em cidade a matar infiéis e a converter, a cargas de cavalaria ligeira, hoje motorizada, com bandeira de Allah a esvoaçar no azul quente do céu do deserto.
É na Sharia, esta fórmula simples e decisiva de resolver os males do mundo, que eles se revêm.
Antes, viajavam para a Índia e o Nepal em busca de pistas para o seu futuro.
Hoje, viajam para a Síria para o construírem.
E ele nasce, violento, à sua frente.

Comments

  1. Reblogged this on ||.

  2. Fiquei muito sensibilzada com o seu texto…por sinal, um belíssimo texto.
    Muito poderão rir ao lerem este comentário…mas sinceramente, tampouco me importa(!):
    Pelo seu testemunho…por aqui se vê A FALTA DE DEUS NAS NOSSAS VIDAS!…A FALTA DE AMOR!…e a FALTA DE AMOR AO PRÓXIMO!!!

    • Deus mata!…

      • Muito honestamente, Luis FA…tenho pena que essa seja a sua convicção, pelo que, muito embora não o compreenda, RESPEITO!…com base nos fundamentos que me foram transmitidos desde menina:
        O RESPEITO PELO OUTRO!
        Como tal, defendo que o AMOR EM DEUS, também se traduz em AMOR AO PRÓXIMO!
        E…pode rir à vontade!

      • alexandra campaniço says:

        Deus não mata. O homem é que mata,…em nome de Deus!

  3. Rui Moringa says:

    Sem dúvida Paula, sem dúvida que é a falta de Fé. Pode ser em Deus para quem acredita ou no Homem quem acredita que todos podemos melhorar e caminhar para uma sociedade mais justa.
    A intolerância com os erros dos outros quando não cuidamos de corrigir os nossos, porque nos achamos superiores ou perfeitos, reduz o espaço de convívio e diálogo.
    Se Deus não é reconhecido, mesmo na expressão do rosto de um nosso semelhante, então tudo será permitido – então a barbárie estará entre nós…
    Bem, corremos o risco de sermos românticos, ingénuos, ou, como se diz no Porto, morcões.
    Fui educado nestes valores e sempre olharei para a morte causada por outros seres humanos como algo nefasto.
    Entre as outras espécies haverá um ou outro registo esporádico de morte pelos da mesma espécie. O Homem é assim quase o único Ser que se mata a si próprio.
    Fenómeno estranho este, registado desde Caím e Abel.

  4. Esta coisa da fé só trouxe aborrecimentos à humanidade. No caso destes malucos receio que não os estejamos a levar tão a sério como devíamos. E nós, em Portugal, um dia destes ainda o vamos sentir na pele. É bom não esquecer que estamos no mapa daquelas bestas.

  5. Nightwish says:

    O problema é que os pais mentem e os adolescentes sabem que o que lhes dizem não é verdade.
    No caso dos fundamentalistas islâmicos, há um enorme branqueamento das acções do ocidente e dos vários tipos de fundamentalistas que ainda cá existem, hipocrisias que as pessoas vão-se apercebendo mais sem fazer grande esforço.
    Um actual é o caso de Israel, que antes de nascer já era uma nação terrorista, xenofóbica e fundamentalista, mas o que nos querem fazer acreditar é que o Hamas tem alguma coisa a ver com o Isis.

    • O Hamas não tem rigorosamente nada a ver com o grupo que originou o ISIS. O Hamas (Irmandade Muçulmana) é o braço palestiniano da Al Qaeda, que segue uma estratégia de longo prazo. Trabalha em conjunto com a Jihad Islâmica, mais internacionalista (também presente em Gaza e Cisjordânia). Embora os objectivos sejam semelhantes, o cronograma estruturado para os atingir é muito mais curto, no caso do ISIS.

  6. José Silvia vaz says:

    Quais suecos , ingleses ou belgas? Tretas de quem apadrinha estas simpáticas criaturas! São filhos de islamistas encapotados que aproveitam da sociedade em que vivemos …

  7. José Sequeira says:

    Se algum dia os fundamentalistas islâmicos do ISIS chegarem a este País à beira mar plantado, podem contar com a colaboração deste bloguer.
    É arrepiante a menorizacão da falta de respeito pelos direitos humanos, do esquecimento das execuções em massa, etc.
    À certos textos onde se apercebe perfeitamente do local onde o autor estava quando os escreveu.

  8. assam says:

    علاء كبير
    ديوس رحيم

  9. Escrevi sobre o movimento jihadista no meu blog (http://agoradigoeu.wordpress.com/2014/08/22/o-movimento-jihadista-as-coisas-atrozes-que-se-fazem-em-nome-de-deus/), onde divulguei um vídeo de um jornalista que testemunhou as motivações dos jihads. Estou a viver em França ha algum tempo e confesso que todo este movimento – que esta, na minha opinião, a ter pouca atenção dos media – é assustador. A Península Ibérica e a Turquia podem ser duas portas de entrada na Europa. Essas e o verdadeiro cavalo de Tróia que existe em França e Inglaterra, pela quantidade de pessoas oriundas de países islâmicos. Não partilho a opinião veiculada no seu texto. Pensar que os jovens se aliaram no jihad como rebeldia aos pais é demasiado… Aqui em França tenho observado que, de uma forma geral, os muçulmanos são gente boa, com uma enorme noção de família. Mas a integração na sociedade francesa é quase inexistente. Movimentos fundamentalistas não podem trazer nada de bom…

  10. Hassam says:

    علاء كبير ديوس رحيم

    • Hassam says:

      الله أكبر الله اكبر
      الله أكبر فوق كيد المعتدي
      الله للمظلوم خير مؤيد
      أنا باليقين وبالسلاح سأفتدي
      بلدي ونور الحق يسطع في يدي
      قولوا معي قولوا معي
      الله أكبر الله أكبر الله أكبر
      الله أكبر فوق كيد المعتدي

      يا هذه الدنيا أطلي واسمعي
      جيش الأعادي جاء يبغي مصرعي
      بالحق سوف أرده وبمدفعي
      وإذا فنيت فسوف أفنيه معي
      قولوا معي قولوا معي
      الله أكبر الله أكبر الله اكبر
      الله فوق كيد المعتدي.

  11. Pedro says:

    O meu sentido de humor deve estar a falhar. Nada disto é a sério, é? Texto e alguns comentários. Deus, males da sociedade ocidental – que raio de conversa arrepiante é esta?

  12. A.Silva says:

    Um texto escrito por um ignorante, era bom que antes de se escrever um texto sobre qualquer coisa deste mundo, perdessemos algum tempo a perceber alguns conceitos, como é no caso presente a “SHARIA”, a verdade é que o ignorante que escreve este texto não tem a minima consciência do que isso é

    • Abel says:

      Então podia explicar ou dar indicações sobre onde obter a informação que diz que é a correcta.

      • A.Silva says:

        Se se desse ao trabalho de pesquisar um pouco sobre o tema, saberia que uma coisa é sharia que é o direito islâmico, outra coisa é a forma como ela é aplicada, resumindamente é como se aos 10 mandamentos fossem a base da nossa legislação, mas uma coisa é condenar moralmente a infidelidade, outra é condenar o autor de tal ao suplicio ou à morte. Ou seja a Sharia em si não tem nada a ver com a forma irracional com que os fascistas islâmicos a aplicam… percebeu?

        • Apesar desse não ser o tema, não convém deixar dúvidas num assunto onde elas abundam em demasia. Assim, aqui o confesso ignorante agradece então que o estimado especialista refira um país onde vigore, em exclusivo, o Direito Islâmico e onde as penas referidas (e mais algumas que não refiro aqui pelo excessivo grafismo, embora como repita, não sejam relevantes para o texto) não estejam contempladas na lei. Basta um (é fácil, não são assim tantos, felizmente). E pode continuar a exercer a sua incivilidade no trato e tudo. Basta um. Tem é de ser, como referi, um Estado de Direito Islâmico em exclusivo. Não um com uma constituição assim-assim, com um niquinho de Democracia. Nada disso. Ok? Um apenas. Obrigado.

    • Nightwish says:

      E o que é que isso tem a ver com a conversão de ocidentais em fanáticos muçulmanos?

  13. Islamismo? Sim, se fosse uma religião pacífica. Se o é não parece. Aliás, os fundamentalistas só prejudicam a conversão de novos crentes. A religião não pode ser coerciva nem impor regras, cuja desobediência poderá implicar a morte. A existência de Deus não é uma constatação física, situando-se no campo da crença. Ninguém, mas ninguém poderá falar em nome de Deus. É abusivo e pecaminoso. Os islâmicos usam a abusam de invocar o nome de Deus. Existe na terra, alguém que tivesse falado com Deus? Pois, que apresente provas. Deixem-se de radicalismos e sejam honestos, solidários e pacíficos. Aí estará Deus todo poderoso…

    • Pimba says:

      Tal como o fizeram os cristäos durante séculos, Cruzadas, Inquisic,äo, fogueiras e autos-da-fé, etc. e tal.
      Cristianismo? Sim, se fosse uma religião pacífica. Se o é não parecia. Até a fazerem amoxar com a Revoluc,äo Francesa.
      Se os muc,ulmanos fanáticos säo “islamitas”, como chamaremos aos cristäos fanáticos, que ainda os há (mas felizmente com poucas hipóteses de ter armas pesadas)… “cristianitas”?

  14. José almeida says:

    Desejo aos comentadores deste artigo, que o voltem a ler, calmamente, e vejam se vale a pena alterar alguma coisa…..

  15. Eduardo says:

    Se seguirmos as palavras deste senhor (animal), ha que encontra-lo e mata-lo. Pois se nao pensa como eu e inimigo. Menos um terrorista.

  16. Por mim eles que venham, pessoalmente terei todo o prazer em lhes proporcionar o acesso a todas as virgens a que tiverem acesso no paraíso ….

  17. João says:

    11 portugueses no total da população jovem (que será talvez de uns 2 milhões? – ou seja cerca de 0,00005%) parece-me mais um micro-nicho do que propriamente uma tendência. Para generalização abusiva não está nada mal…mas como artigo sério deixa muito a desejar. Às vezes estes jornalistas/bloguistas ou que seja excitam-se um bocadinho. (ou são sensacionalistas). Comparar isto com os hippies é de quem não pensou no assunto meio segundo. Enfim.

  18. Os jovens com a vida virtual que levam e a falta de cultura dos progenitores ficam a merce destas fantasias de faz de conta; o tragico é que as consequencias são reais, desde estropiados a alienados ou barbaramente agredidos ou mortos tudo é levado como designio duma ideia que tinha sentido a 1500 anos quando foi escrita mas totalmente cretina ser seguida como charia ou charada hoje. Todos merecem ter a religião que precisam mas não devemos misturara selvejaria com principios, e todos os que têm civilização independentemente da sua nacionalidade ou clube/religião sabem distinguir charlatanismo com teorias religiosas ou filosoficas. Os jovens terão mais dificuldade , na sua ansia de descoberta em não se deixarem enganar mas lá estão(ou deviam estar) os mais experientes para lhes abrirem as ideias e afastar da intransisgencia e fanatismo. Uma das piores manifestações é a da arrogancia, que tanto prejudica o proprio como a sociedade. Arrogancia de que não precisamos/devemos escutar os outros e interrogarmo-nos sobre tudo.

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