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«No final de Setembro, Matteo Renzi visitou a Singularity University, templo californiano da inovação tecnológica exponencial. Em Fevereiro de 2013, François Hollande recebeu com pompa Eric Schmidt, o patrão da Google, quando ele foi a França anunciar uma ajuda à reestruturação digital da imprensa francesa. «Os governantes europeus parecem fascinados pela Silicon Valley. É ingénuo e perigoso», alertou Evgeny Morozov numa sua recente passagem por Paris, aquando do lançamento da tradução francesa do seu estimulante ensaio To save everything, click here [Para resolver tudo, clique aqui], publicado em 2013.

Impotentes para encontrar uma saída para a crise, os políticos europeus acham «cool» exibirem-se ao lado dos magnatas norte-americanos da web e anunciam o digital como a única solução para o crescimento e a criação de emprego, analisa Morozov. «Mas não creio que percebam que as soluções defendidas pela Silicon Valley não são neutras: elas veiculam uma ideologia política.» O autor emprega o termo Silicon Valley para designar o lobby das industrias digitais, tal como Wall Street designa o da finança.

Quais são, então, as consequências nefastas dessa «dominação do digital», desse «Silicon Paradise», em que a Google, a Amazon, o Facebook, a Apple, etc. e a geração digital que influenciaram procuram fechar-nos?

«Uma política desprovida de tudo o que a torna desejável», escreve Morozov. Mais especificamente, «humanos que perderam a sua capacidade inata de raciocício moral», «instituições culturais sorumbáticas – se não mesmo moribundas», e sobretudo «um clima social completamente controlado, que tornaria toda e qualquer contestação não apenas impossível, mas também inconcebível.»

Para Morozov, esse pensamento digital veicula com efeito dois logros intelectuais: o «solucionismo», ou propensão para acreditar que a tecnologia pode resolver todos os problemas da humanidade, e o «webcentrismo», segundo o qual essa ruptura tecnológica seria historicamente inédita – um artifício cujo objectivo é a legitimação de programas radicais». Assim, a mentalidade da Silicon Valley incita a gerir as consequências dos problemas em vez de compreender as suas causas, promove o desenrascanço e a adaptabilidade individual em detrimento da acção colectiva, e privilegia o instante presente em vez de encorajar as pessoas a pensar o passado e o futuro.

O ensaista denuncia um vocabulário que glorifica a «disrupção», a «eficácia» e a «performance», como se se tratasse de objectivos incontestáveis. Para ele, pelo contrário, «a imperfeição, a ambiguidade, a opacidade e a oportunidade de cometer erros são também elementos constitutivos da liberdade do homem.» Concretamente, a mania de cada um medir a sua importância social (o «quantified self») através da proliferação de objectos pessoais conectados (smartphone, óculos, televisão, frigorífico, carro…) estabelece uma assimetria perigosa: «O cidadão deve estar visível, ser «performante», controlável. Tudo isto ao mesmo tempo que as grandes empresas que detêm os datacenters, os governos e as instituições não estão obrigados a essa transparência.» Quem é que sabe como é que a Google faz os seus algoritmos?

Por outro lado, é evidente que a «Internet das coisas» [Internet of Things] permite uma manipulação do cidadão: «Este é levado a crer que se é obeso é porque come demasiado açúcar e não anda o suficiente. O que evita que nos detenhamos nas causas sociopolíticas do problema: o poder dos lobbies das indústrias agro-alimentares, a falta de espaço vital, os ritmos da vida profissional, etc.» Evgeny Morozov não perfilha de modo algum o optimismo de Jeremy Rifkin relativamente ao fim do capitalismo pela extinção das margens de lucro em favor de uma economia colaborativa. Porque, e pelo menos até agora, não identificou qualquer contrapoder – ONG, movimento cidadão, governo – susceptível de enfrentar o poder capitalístico desses gigantes, cujos algoritmos penetram a cada dia que passa cada vez mais nas nossas sociedades, incluíndo nas esferas da educação, da saúde e da segurança.

Apesar de estar a levar a cabo um verdadeiro processo contra a «dominação digital» que nos ameaça, Morozov não pretende ver-se apropriado pelos conservadores tecnofóbicos: o digital pode ser muito útil, diz, sob condição de ser posto ao serviço do interesse geral. Um exemplo? «A Finlândia foi capaz de criar um serviço inteligente de transporte público baseado na geolocalização, em vez de enriquecer ainda mais empresas como a Uber, cujos accionistas são a Google e a Goldman Sachs.»»

[Dominique Nora, Nouvel Observateur, edição de 20–26 Novembro 2014, recensão de imprensa a propósito da tradução francesa do livro de Evgeny MorozovPour tout résoudre cliquez ici, Fyp Editions. Tradução rápida pela autora do post].

Contraditório? Aqui, por exemplo.

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