O médico e o monstro


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O turista prefere fotografar o mundo a vê-lo. Já o gestor-economista-empreendedor-consultor, mundo, nem vê-lo, apenas medi-lo.

O gestor-economista-empreendedor-consultor é omnisciente, detentor do saber universal, explicador-geral de todas as realidades, incluindo a da missa ao padre. Se não acreditam, perguntem-lhe. As relações humanas poderão existir, se puderem ser contabilizadas, medidas, reduzidas a lucro. Serão dispensáveis, se implicarem despesa ou tempo, outra despesa.

Não espanta que o gestor-economista-empreendedor-consultor pense assim, porque foi esse não-pensamento que lhe ensinaram. Não-pensamento, porque não há verdadeiro pensamento sem sentimentos, sem humanidade. Na realidade, o gestor-economista-empreendedor-consultor é um andróide que vive convencido de que é uma pessoa, porque acredita que todas as pessoas se devem comportar como andróides.

É graças à intervenção do gestor-economista-empreendedor-consultor que é possível lermos notícias como a de que os médicos têm de ver doentes em cinco minutos. O doente precisa de dez minutos? Pagará duas consultas.

O gestor-economista-empreendedor-consultor irá, com toda a certeza, substituir técnicos de saúde por cronometristas e obrigará os candidatos a Medicina a realizar provas de resistência e de velocidade e não me admiraria que a auscultação viesse a ser modalidade olímpica.

Na verdade, uma consulta de mais de cinco minutos é como ir à casa de banho e abanar mais de três vezes: há o risco de bem-estar. Isso é inaceitável para o gestor-economista-empreendedor-consultor, porque, para ele, o trabalho é incompatível com a humanidade.

Os seres humanos não sabem, mas o mundo em que vivem já está dominado pela raça do gestor-economista-empreendedor-consultor. Por ser parecido com os seres humanos, continuamos a pensar que é da nossa espécie, mas é só um parasita que deixámos sair da empresa, o seu habitat, para tomar conta do resto do mundo.

Comments

  1. 1. Gosto deste artigo, concordo com ele, identifico-me com ele.
    2. Mas depois há a longa experiência de Facebook, jornais, notícias, media, enfim.
    3. E interrogo-me se “pode alguém ser quem não é”?
    4. Sim, porque a retórica, o aparato, o show-off iludem.
    5. E quando iludem, resta a desilusão.
    (Perdoe-se-me o desabafo)

  2. Joana says:

    Adorei!!!
    Sou um pouco desse gestor-economista-consultor, aliás trabalho numa consultora onde tudo é traduzido em tempo e tempo em dinheiro.
    Gostava que neste tipo de reformas/iniciativas/projectos as pessoas que trabalham diariamente na áreas fossem consideradas no grupo de trabalho, seriam na minha perspetiva uma mais valia. Muito mais podia ser dito, hoje fico por aqui.
    Continuação de um dia bom e de um bom trabalho com o Aventar.

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