Um amplo debate entre os países lusófonos?


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© FRANCISCO LEONG/AFP (http://bit.ly/1ZyvyKi) | http://bit.ly/1TAFD4R

Exactamente porque está transformado numa questão política e não naquilo que deveria ser: uma questão linguística. E educativa, já agora.

António Fernando Nabais

***

Hoje, no Diário de Notícias, durante uma entrevista ao excelente António Fernando Nabais, o jornalista Pedro Sousa Tavares fez o seguinte comentário:

Afinal, houve um amplo debate entre os países lusófonos…

Na página Acordo Ortográfico Não!, Francisco Belard reagiu:

Faltou corrigir o jornalista quando, no final, disse que “houve um amplo debate entre os países lusófonos”».

Efectivamente, ainda ontem, recordei que, «neste contexto, “reabrir o debate” não será a opção mais feliz, pois existe um prefixo a mais. Salvo iniciativas pontuais (uns colóquios aqui, umas audições ali, umas audiências acolá), o debate sobre o AO90 nunca foi aberto, por isso, é um erro mencionar-se uma reabertura».

Para terminar este pequeno texto, gostaria de saudar o Diário de Notícias pela escolha do entrevistado. Excelente!

Pro memoria, eis a entrevista, numa versão em português europeu:

“Está instalado o caos ortográfico”
Entrevista
Diário de Notícias, 09 DE MAIO DE 2016
Pedro Sousa Tavares

Um dos grandes críticos do Acordo, António Fernando Nabais, diz que as declarações do Presidente são um sinal de esperança

As recentes dúvidas suscitadas pelo Presidente da República são um sinal de esperança para os opositores do Acordo?

Sim. Penso que, para quem é contra o Acordo Ortográfico, tudo é um sinal de esperança e estas declarações ainda mais, claro está.

O governo parece ter afastado qualquer hipótese de reabrir este dossiê…

Calculo que sim, até porque isso implicaria de certo modo perder a face. Para os partidos que aprovaram o acordo, isto de voltar atrás é uma questão política. Se não encontrarem uma forma airosa de o fazer, será difícil. Exactamente porque está transformado numa questão política e não naquilo que deveria ser: uma questão linguística. E educativa, já agora.

A propósito da questão educativa, sendo professor de Português tenho de lhe fazer esta pergunta: há 500 mil crianças que só conhecem esta ortografia. Não será complexo pedir-lhes que passem a incorporar na escrita corpos estranhos para elas, como algumas consoantes mudas?

Isto não se resolve nem explica em duas penadas, mas as inconsistências do Acordo são tão grandes que há pessoas, inclusivamente com formação superior, que não têm sempre a noção de quando a consoante é muda ou não. Neste momento está instalado um caos ortográfico e este caos terá reflexos na escrita das crianças. Vários professores têm-se apercebido de erros ortográficos novos e de alterações na pronunciação de palavras em que algumas consoantes mudas foram suprimidas. Que não será uma questão fácil, não será. Mas não seria a primeira vez em que imperaria o bom senso e se recuaria em questões estruturais. Será complicado, mas é complicadíssimo continuar tudo como está.

O professor Malaca Casteleiro diz que este é um acordo para as novas gerações. E que quem aprendeu a escrever pela antiga grafia pode continuar a fazê-lo sem problemas…

Nós podemos sempre escrever com a ortografia que quisermos em qualquer texto pessoal. A questão é o mal que esta ortografia causa às pessoas que são obrigadas a usá-la. Os alunos do ensino básico e secundário e os professores são obrigados a usar, não podem escolher. O que o professor Malaca Casteleiro está a dizer é que há uns privilegiados que podem escolher e outros que são obrigados a usar a ortografia que o professor Malaca Casteleiro quis impor ao espaço lusófono.

Não é injusto atribuir o Acordo a um desígnio individual? Afinal, houve um amplo debate entre os países lusófonos…

O problema continua a estar sempre também na aplicação do próprio Acordo. Esta ideia de que veio criar uma uniformização ortográfica entre Portugal e Brasil é falsa. Continua a haver diferenças. Aliás, conseguiu-se o milagre de criar novas palavras nos dois lados, como receção cá e recepção lá. Não só não se atingiu o objectivo como o que aconteceu é pernicioso.

Comments

  1. “acordo” ortográfico = negócio = atentado cultural (evolução uma treta!)

  2. António Rugeroni says:

    Há dois momentos sensoriais e um que se esquece, mas sentido muito mais forte!

    Sensorial o da visão (leitura) e da audição (ouvir). Um não bate com o outro racionalmente, mesmo forçado.

    Algo que não se sente pelos nossos 5 sentidos, que são sensores externos ligado internamente ao nosso cérebro, é o que o NOSSO CEREBRO sente!!

    Diria, apenas por senso comum, necessitando testes específicos ao nosso cérebro, é a confusão de informação consolidada ao longo de anos e agora !!… teremos que limpar tudo e começar a arrumar de novo.
    Este sentido interno, não se percepciona. Mas que por “senso comum” deve ser cá uma revolução!

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