CETA: Luz verde para a destruição do planeta


industria areaias betuminosas

Imagem Reuters

Desde que, há três semanas, a Greenpeace divulgou grande parte do texto do TTIP, lá vão aparecendo nos media portugueses, aqui ou ali, artigos dedicados ao assunto – tarde, mas melhor do que nunca. Já o irmãozito canadiano do TTIP, o CETA, que, pressurosamente e pela mão do Conselho da UE, lhe pretende aplanar a entrada, é votado ao ostracismo pelos nossos gloriosos meios de comunicação.

E no entanto, as funestas disposições – à cabeça das quais está uma justiça paralela para investidores (ISDS/ICS) que pode condenar estados a indeminizações milionárias por regulamentação social ou ambiental – também lá estão consagradas.

Um outro “exemplozinho” é a importação de combustíveis resultantes de areias betuminosas canadenses. O petróleo assim produzido tem formidáveis custos ambientais, muito superiores aos dos combustíveis fósseis convencionais. Na região de Alberta, no oeste do Canadá, áreas imensas de bela floresta boreal são dizimadas e transformadas em desoladas paisagens lunares, com montanhas de enxofre e enormes lagos artificiais cheios de caldo tóxico (ver Fotos aqui). Para extrair um litro de betume da areia em que se encontra amalgamado são necessários cinco litros de água – uma água que, posteriormente, já contaminada com metais pesados e associada a um lodo poluído com hidrocarbonetos potencialmente cancerígenos, é armazenada em lagoas de tratamento de águas. O Instituto canadense “Pembina Institute” estima que 11 milhões de litros desta água residual tóxica se infiltram diariamente nos lençóis de água subterrâneos e nos rios circundantes. Devido à enorme quantidade de produtos químicos necessária, Fort McMurray – a localidade da província de Alberta, em que nem há um mês o fogo se espalhou descontroladamente obrigando as autoridades a decretar a retirada dos seus habitantes, e que ainda hoje continua deserta – era frequentemente invadida por um odor fortíssimo a urina de gato, ou a ovo podre como opinam outros. Aos inevitáveis protestos dos habitantes, as companhias petrolíferas respondiam: “Este é o cheiro do dinheiro”. E o cheiro do dinheiro, como é sabido, faz rodar o mundo, mesmo que o vá destruindo à sua passagem. O impacto desta actividade na emissão de carbono – pela destruição da floresta e os processos de extracção do betume – e o impacto ambiental – destruindo habitats e reduzindo a biodiversidade (esta floresta abriga cerca de 5 mil milhões de aves migratórias e algumas das maiores populações remanescentes de alces, ursos, lobos e caribus) são peanuts, efeitos secundários negligenciáveis.

Desde 2009, a UE tem à espera em banho-maria uma directiva sobre combustíveis que iria implicar a proibição da importação de petróleo canadense produzido a partir de areias betuminosas. Mas (que grande surpresa!) os lobbies do petróleo lá estão, a zelar para que a decisão sobre o CETA ocorra antes da entrada em vigor da directiva sobre combustíveis. É que quando o CETA entrar em vigor, a Exxon, a Chevron & Co. podem facilmente, através do ISDS/ICS, interpor uma acção contra os regulamentos para protecção do clima, e, assim, continuar a vender, também na Europa, o mais sujo petróleo do mundo.

Assine a petição Pelo debate e decisão sobre a ratificação do CETA na Assembleia da República

Comments

  1. fleitao says:

    Excelente este texto que é um apelo urgente a todos quantos amam a natureza e a querem salvar antes que seja tarde demais. Há que pôr um travão ao capitalismo selvagem e criminoso. Se todos assinarmos, se todos nos juntarmos, seremos uma força.

Trackbacks

  1. […] Conseguimos muito, mas falta conseguir o principal, a saber, que os acordos de livre comércio: 1. não incluam cláusulas que atribuem direitos especiais aos investidores para processarem estados soberanos; somos nós que pagamos os custos desses direitos especiais deles; 2. não incluam uma “cooperação regulatória” que vai poder influenciar a legislação dos estados e vai poder fazer alterações ao próprio acordo de forma autónoma; 3. salvaguardem, de facto, os serviços públicos, os direitos laborais e dos consumidores, bem como a sustentabilidade do planeta. […]

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