Carta do Canadá – Essa coisa dos subsídios


Aquase seis quilómetros de Portugal, sigo com desgosto as manifestações e contra-manifestações que se desenrolam à roda da decisão governamental de cortar os subsídios às escolas privadas nos locais onde existem escolas públicas aptas a prestar educação às crianças e jovens. Desgosta-me ver multidões de crianças vestidas de amarelo, manipuladas e mentalizadas por pais e professores, a brincarem aos contestatários  de cartaz em punho. Desgosta-me que se queira atribuir ao caso uma conotação ideológica quando, na verdade, apenas se trata de dinheiro. Tudo isso soa a falso.

Portugal é um estado laico que respeita a liberdade religiosa. Pessoalmente, acho saudável que os países não sejam governados por autoridades religiosas, sempre inclinadas a cair na intolerância. No passado e no presente abundam os exemplos. Assim sendo, se houver um módico de decência por parte de quem hoje reclama, o estado português teria de sustentar escolas protestantes, hindus, muçulmanas e por aí fora, ao mesmo que garantiria o funcionamento completo das escolas públicas. Não creio que haja países com capacidade para tanto e Portugal, depois da política de empobrecimento (e rebaixamento) levada a cabo pelo governo anterior, é hoje um país com grandes dificuldades.

Clama-se pela liberdade de escolha do lado católico, e clama-se muito bem. Mas esquece-se que a religião e sua prática não é dever das escolas mas, sim, da família. A família, além dos bons exemplos e das boas maneiras, tem o dever de passar aos mais novos a educação religiosa. E esta não é minimamente beliscada pelo facto de a criança andar na escola pública onde não se reza ao abrir das aulas. Pelo contrário, o espírito cristão da criança será fortalecido pela lição diária de amor ao próximo a quem a vida não bafejou de abundância.  A criança, que em casa foi ensinada a amar Cristo, na escola aprenderá a solidariedade, isto é, o amor pelo outro que é diferente. Porque ser cristão não é uma casta, é um sentido de dever muito apurado.

Qualquer pessoa, apesar do arrazoado confuso da comunicação social, percebe que os contratos agora em discussão eram transitórios, eram a prazo, só existiam para os lugares onde não existisse escola pública. Havendo escola pública, o contrato acaba e o subsídio chega ao fim.  Resulta absolutamente chocante – espantoso – que empresários, alguns de verdadeiros impérios escolares, venham agora choramingar que sem os subsídios têm de fechar cursos ou mesmo escolas!!!! Que espécie de empresários são estes que não garantem uma qualidade tal que lhes permita manter o normal funcionamento das escolas apenas com as mensalidades pagas pelos pais? São empresários ou videirinhos que vivem à custa dos impostos de todos os portugueses por não terem competência para mais? De que vale agitarem a bandeira de nas suas escolas haver grandes piscinas, aulas de equitação e outras mordomias? Estou eu contra essa prática? Não estou, desde que ela seja paga pelos pais. E muito me alegraria que todas as crianças a tivessem, desde o menino vivendo em palácio até ao menino vivendo em casebre. Então porque é que os impostos dos pais vivendo em casebre têm de pagar esses privilégios?

E tinha de aparecer a arrogante e intolerante Assunção Cristas a berrar que a “escola pública também tem de ser sacrificada”…  Ainda mais, cristianíssima criatura que foi ministra dum governo que pôs Portugal na miséria?

E, infelizmente, a hierarquia da Igreja não soube tomar a atitude certa. Duplo erro, sabendo nós que o grande afastamento do povo que deu em escassez de padres e muitas igrejas vazias se deveu principalmente à desconfiança pela colagem verificada ao regime anterior.  Assumo o meu desacordo precisamente porque sou católica, apostólica, romana. Tenho  o dever de respeitar a herança espiritual de Cristo e de ser solidária com o Papa Francisco, o Papa dos pobres, dos carenciados.

Ia esquecer-me de informar que estudei num colégio privado, os meus pais pagaram as mensalidades e o colégio não recebia subsídios.

Comments

  1. Afonso Valverde says:

    Gostei do texto: Racional, sem subterfúgios e afectivo.

  2. Palavras para quê?
    Um texto marcado pela seriedade e pela lucidez.

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