A vírgula que valeu 10 milhões de dólares


É um episódio envolvendo bens alimentares e política e não estamos a falar do queijo limiano.

O caso dos condutores de camiões de leite do estado norte-americano Maine que ganharam, graças a uma vírgula, um recurso contra o seu empregador, aqueceu os corações dos entusiastas da pontuação, escreve Mary Norris na The New Yorker.

Nada, mas nada – profanidade, pronomes transgénero, abuso de apóstrofes –  excita mais a paixão dos “geeks” da gramática do que a vírgula de Oxford.

Rita Carreira publicou um exemplo vívido sobre este elemento estilístico da Oxford University Press.

Em textos escritos na língua inglesa, trata-se de uma vírgula usada após o penúltimo item numa lista de três ou mais itens, antes de ‘e’ ou ‘ou’ (por exemplo: “an Italian painter, sculptor, and architect“). E deu aos condutores de camiões do Maine uma vitória, graças à mesma razão de JFK e Stalin serem ou não serem strippers consoante se use ou não a dita vírgula.

De acordo com a lei do estado do Maine, os trabalhadores não têm direito a horas extras pagas em algumas actividades.

The canning, processing, preserving, freezing, drying, marketing, storing, packing for shipment or distribution of: (1) Agricultural produce; (2) Meat and fish products; and (3) Perishable foods.

(“A conservação, transformação, conservação, congelação, secagem, comercialização, armazenagem, embalagem para expedição ou distribuição de: (1) Produtos agrícolas; (2) Carnes e produtos à base de peixe; e (3) Alimentos perecíveis. “)

A questão é que, sem a vírgula depois de “shipment” a expressão “packing for shipment or distribution” (embalagem para expedição ou distribuição ) refere-se a uma única actividade. Os condutores dos camiões não embalam comida, seja para expedição ou para distribuição. Eles conduzem camiões e entregam-na. Assim sendo, estas isenções não lhes são aplicáveis e a empresa Oakhurst Dairy ficou a dever-lhes cerca de dez milhões de dólares devido a horas extras não pagas.

O caso julgado pelo juiz David J. Barron está repleto de nuances gramaticais, devidamente condimentadas no artigo de Mary Norris, cuja leitura se recomenda, até para se perceber que não é só entre nós que a gramática tem elevado valor económico.

“Quando estou mal disposta/ (e estou-o muitas vezes…)/ mudo o sentido às frases,/ complico tudo…” Os versos de Alexandre O’Neill encaixam na perfeição na insólita comissão parlamentar de inquérito (CPI), aberta em 1993, para apurar se houve ou não um ministro que alegadamente teria alterado uma vírgula numa lei, o que lhe teria valido 120 mil contos, à época. Mas o mistério em redor do valioso sinal de pontuação não foi esclarecido e o caso da vírgula continua com um sinal de interrogação à frente: quando chegou à breve comissão, a jornalista que fez a denúncia, Helena Sanches Osório (1942-2003) recusou-se a revelar a identidade do governante em causa. [Maria João Lopes, Público, 14 de Março de 2017]

No nosso caso da vírgula, tudo ficou em águas de bacalhau. Mas no Maine, não houve almoços grátis.

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