A incompatibilidade de Maria Hortense Martins


A coisa começa logo mal por vivermos neste sistema exótico onde um deputado com investimentos e interesses pessoais numa determinada área pode integrar comissões parlamentares ou grupos de trabalho que sobre ela exerçam influência. Isso por si só é tão incompreensível e revoltante, pelo menos para mim, que é impossível não ficar indignado. Depois queixam-se quando a malta diz que eles não estão lá a fazer nada. Como é que algo tão básico, tão senso-comum, não está já rectificado e devidamente regulado? Enfim, como diria o Capitão, é o estado a que chegamos.

Não faltam exemplos destas “pequenas” incompatibilidades. Uns dividem-se entre a tarefa de legislar no Parlamento e a de fazer leis no escritório, outros entre a comissão de saúde e a consultoria em empresas de equipamento médico, outros ainda que começam a dar cartas, sei lá, na comissão de obras públicas, seja lá qual for o nome que lhe dão agora, e daí seguem para um ministério, onde depois de um (ou dois) mandatos sensatos e rigorosos, lá descobrem o caminho para o conselho de administração de uma grande construtora, tão-quase sempre a mesma que nem vale a pena escrever o seu nome. Sim, é essa mesma em que estão a pensar.

Isto para dizer o quê? Para dizer que o Parlamento, como toda a gente sabe, é uma central de negócios para muito “boa” gente. E nem assim há a decência de regular devidamente a actividade dos deputados para acabar de vez com casos como o da deputada Maria Hortense Martins (PS). A forma como me deparei com este caso foi engraçada. Abro o Expresso, deparo-me com o título “Alojamento local: deputada do PS com interesses na hotelaria coordenou proposta”, e penso para mim: carago, Mendes isto é grave. E fui espreitar.

Lá dentro, como de resto aconteceu de seguida no jornal online ECO, descubro uma referência ao Jornal Económico, com um link que dá o resultado que podem ver em baixo. Dois jornais (fui tirar as teimas, e as duas únicas outras notícias que encontrei, na SIC Notícias e no Observador, têm a mesma fonte), a mesma matéria, uma fonte que já não existe. Estou sim? Um minuto. Truques, é para ti!

Mas este truque, que até é fraquinho, não tem grande influência nesta história. Terá servido para sacar uma reacção ao PS, que ainda se conseguiu enterrar mais, mas não traz grandes novidades, na medida em que a senhora é efectivamente coordenadora do Grupo de Trabalho sobre o Turismo e tem efectivamente uma participação na empresa Investel – Investimentos Hoteleiros, tendo mesmo chegado a integrar a direcção da Associação de Hotelaria de Portugal. Por si só levanta questões. Tem que levantar, caso contrário estamos todos a dormir. Principalmente se a proposta de que se fala beneficiar directamente a sua actividade no sector. E mesmo que não tenha participado na sua elaboração, como argumenta o PS, mesmo que a dita proposta não a beneficie directamente, coordenar um grupo de trabalho que faz recomendações ao governo para uma área onde se tem investimento considerável é uma incompatibilidade gritante, eticamente duvidosa, diga o que disser a lei. Fun fact: a deputada socialista é membro suplente da Comissão Eventual para o Reforço da Transparência no Exercício de Funções Públicas.

Imagem via Ephemera

Comments

  1. O Passos Coelho deixou isto tudo minado. Até o Cavaco voltou a publicar um artigo; vamos a deslizar para uma situação perigosa. Temos que voltar a carga do diabo.

  2. Ana A. says:

    Ora vejamos: a Democracia não é o regime político em que a soberania é exercida pelo povo?!
    Então?! Começamos pelos “associados” dos Partidos Políticos (o que será assim a modos que uma Oligarquia) e que, obviamente, vão acautelando os seus interesses imediatos, e depois, com tempo e paciência, lá chegaremos: às bases=Povo!
    E como diz o provérbio – “Roma e Pavia não se fizeram num dia.”

  3. JgMenos says:

    O mais extraordinário argumento é o do ‘desgaste, ruído e insegurança’.
    Compare-se como uma família com os putos a ir e vir;
    As discussões, choros, músicas e cães.
    Insegurança é movimento de portas e gente não identificada.

    Mas onde a coerência tem lugar na política?
    E sendo a propriedade um roubo….

  4. Rui Naldinho says:

    “Gato escondido com o rabo de fora!”

  5. José Peralta says:

    E a juntar a este caso, outro que me parece bem mais grave : O proposto futuro “chefe das secretas”…e as contradições e mentiras de que o acusam !

  6. A questão do alojamento local é um exemplo da manipulação, diria quase criminosa, que transparece da nossa imprensa e das redes sociais.
    Até fazem parecer que os condóminos deste país estão eufóricos com a possibilidade de verem os seus prédios invadidos a toda a hora por desconhecidos que ali permanecem umas horas, geralmente sem a mínima preocupação com os que lá residem, que depois ainda têm de pagar os seus estragos.
    Eu já tive uma experiência com a aluguer de quartos pelo vizinho do lado que se mudou para outro lado e do inferno que foi a minha vida durante esse período.
    Chegou a um ponto, em que só havia uma forma de resolver o problema: ou ele acabava com esse negócio ou acabava eu, fosse de que forma fosse.
    Felizmente, que ele acabou e arrendou a casa a uma família normal porque, senão, só poderia estar a escrever isto numa cela duma prisão.

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