Demasiadas letras


Há uma deliciosa cena do filme Amadeus na qual o Príncipe, querendo fazer uma crítica sobre a peça que acabara de ouvir, diz que esta tem demasiadas notas.

Um reparo maliciosamente sugerido pelos invejosos críticos de Mozart. O Príncipe, condescendentemente, sublinha que a peça é genial e que bastará ao autor retirar algumas notas. Ao que Mozart terá perguntado quais notas, em particular, tinha sua alteza em mente.

Vem esta história a propósito do acordo ortográfico, o tal AO90. Aparentemente, também existem palavras com demasiadas letras e foi preciso cortar algumas delas. Dizem que eram mudas, e logo se passou ao genocídio de certas consoantes sem voz.

O que me assombra é porque raio havemos de ser modestos. Avancemos. Livremo-nos  do Q que pode ser trocado por um K com economia, especialmente nesses casos do QU. E para quê insistir no Ç se podemos usar dois S, ou melhor, apenas um. E o U? Francamente, precisamos deste preciosismo quando o O serve bem?

Precisamos de ser competitivos, é o que ouvimos repetidamente. E deve haver razão no comentário. Veja-se, por exemplo, como é que agradecemos. Precisamos de 8 letras para um “obrigado”, quando a um alemão ou um francês lhes bastam 5. Estamos quase tão mal como os espanhóis, tal como seria de esperar de um PIIG, e um bocado pior do que os anglo-saxónicos.

Obrigado
Merci
Danke
Thanks
Gracias

Gastamos mais letras para agradecer do que nas outras línguas. Fica provado que andamos a viver acima das possibilidades em termos de consumo de letras. Inacreditável. Temos que resolver isto. Que impacto terá na produtividade? E no consumo de pixeis? Temos que fazer algo e o melhor será seguir o velho ditado “não gastes as letras de hoje que poderás precisar amanhã”. Ou referir-se-ão às dos bancos?

Termino com um grande obrigado (com todas as letras) ao Professor Malaca Casteleiro, que viu antes dos outros.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Um dos grandes problemas da nossa elite intelectual é o seu complexo de inferioridade. E há vários casos em que esse padrão de comportamento está bem evidente. Este, o AO90, para mim é um deles.
    Todos os “supra sumos” cá da terra, com honrosas excepções, querem deixar obra feita. Ou no mínimo, o seu nome associado a um evento histórico que perpetue a sua memória para além da morte. Deve ser uma doença de génio, se bem que alguns pareçam mais casmurros. De vez em quando sai asneira, porque o caminho seguido para se alcançar um determinado desiderato, além de errado, é feito contra a própria natureza das coisas.
    Passe o exagero, imaginemos os países que aderiram ao Euro, prometendo fidelidade à moeda única, continuar a usar cada um deles a sua velha moeda, em simultâneo com aquela que convencionaram com outros Estados ser a sua única forma de pagamento ou transação dentro do espaço Euro. Teríamos uma monumental confusão. O que se passa com o AO90, é quase igual. O português convencionado no AO90 é o “euro”, mas cada um continua a usar a sua moeda.
    Quanto a Mozart, vantagem deste em analogia com Malaca Casteleiro, é que se não gostas de Mozart, não o ouves. Tens outros compositores para te deliciares com a sua música. No caso do AO90, comes e calas. E se choras, comes na mesma!

  2. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Uma das “esquisitices” da nossa língua que os “acordeiros” ou “acordistas” não tiveram a ousadia de enfrentar foi o H mudo, como por exemplo na conjugação verba Haver. +arece que ainda houve umas tímidas tentativas de alterar húmido para úmido, mas não foram avante.

    Quanto ao “comer e calar” não é bem assim. Se não “comemos e calamos” em outras coisas, porque motivo nos havemos de vergar na questão da nossa ortografia? Ainda para mais quando o AO90 está pejado de erros e contradições, como tem sido sobejamente mostrado e demonstrado, entre outros, pelo Francisco Miguel Valada, que é um dos autores deste blogue?

    Bastaria para vergar e destruir o AO90 que a comunicação social (que tem sido estranhamente servil nesse capítulo) seguisse toda o exemplo de jornais como o Público, e continuasse a usar a grafia anterior. Num par de anos, o AO seria mandado às urtigas. Mesmo na situação actual, quanto mais presença tivermos na Net escrevendo com a grafia portuguesa tradicional (e sem erros, algo que infelizmente nem sempre acontece), mais contribuímos para a derrota desse famigerado AO.

  3. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Esqueci-me de acrescentar: Bem haja Francisco Miguel Valada e todos os outros que lutam incansavelmente contra o AO90 🙂

  4. JoãoBarroca says:

    O homem só deu cabo de umas consoantes (mudas umas, articuladas, outras).
    O Professor Malaca está muito acima do Terry Gilliam. Essa é que é a verdade!

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