Crónicas do Rochedo XXIII – Catalunha: É onde dói mais…


Captura de ecrã 2017-10-06, às 22.29.21

No fundo ainda sou um ingénuo. Muito ingénuo. E porquê? Porque pensei que as empresas que nasceram na Catalunha, que a ela muito devem a força e pujança de hoje, iriam resistir. E que seriam elas a mola impulsionadora do diálogo entre as partes em confronto. Sou um ingénuo.

Quando o grupo Banc Sabadell, o grupo Caixa Bank (agora donos do BPI) ou a seguradora Catalana Occidente decidiram desertar atiraram um tiro no “meio dos olhos” da economia da Catalunha. Foi onde dói mais. A força do poder económico catalão era, para mim, a última esperança para colocar as coisas nos eixos, ou seja, obrigar as partes a ceder neste braço de ferro: por um lado, obrigar Castela/Madrid a aceitar a realização de um verdadeiro referendo na Catalunha e, pelo outro lado, obrigar Puigdemont e os seus aliados a aceitar não levar a cabo a DUI (Declaração Unilateral de Independência). Só o poder económico e a Igreja podem conseguir obrigar as partes a negociar. Se a Igreja está, discretamente, a fazer o seu papel de mediador, já o poder económico catalão escolheu um lado, o do velho pragmatismo capitalista sem pátria.

Ironia do destino: um dos mais importantes empregadores e contribuintes para a força do PIB da Catalunha (e de Espanha), os alemães da SEAT (Grupo VW), já desmentiram qualquer tipo de fuga da Catalunha.

Comments

  1. O capital não tem fronteiras nem gosta de sujeições de estranhos ao jogo, ou seja, da chamada instabilidade.
    Quando as regras não agradam ou há tensões estranhas ao jogo, piram-se para outras paragens mais confortáveis.

  2. Rui Naldinho says:

    Olhei para a foto antes de começar a ler o texto, e pareceu-me ver alguns dirigentes do PSD a fugir da São Caetano, agora que o Passos Coelho se resolveu ir embora.
    Só depois percebi a alegoria ao capital!
    Pois, de facto o dinheiro não tem pátria nem ideologia.
    Será coincidência o que se está a passar no PSD e na Catalunha?

    • No PSD não é uma fuga embora seja uma questão de sobrevivência. Todos os putativos candidatos a candidatos estão a fazer uma conta: António Costa vai ganhar as próximas legislativas e com uma forte hipótese de a respectiva vitória ser com maioria absoluta. E sabem, pela história do PSD, que a sobrevivência de uma liderança a uma derrota em legislativas é nula. Já Rui Rio sabe que não podia fugir a este momento. Não podia fugir mais. Resta-lhe a secreta esperança de Costa não ter maioria e precisar dele para reeditar o Bloco Central. Caso contrário, Rio não passa de 2019. A não ser que…não ganhe as directas e aí fica, uma vez mais, na reserva para o pós 2019.
      O problema é que em política seis meses é uma eternidade e quem sabe…
      O grave, em tudo isto (e para o PSD), é que não se vai discutir o futuro do partido, o seu posicionamento ideológico, social, o que quer o PSD para Portugal e para os portugueses. Sem essa discussão, uma quase “re-fundação”, arrisca-se a ser ultrapassado pelo CDS de Cristas no eleitorado de centro-direita e “engolido” pelo PS no eleitorado do “centrão” que é, costuma ser, aquele que realmente decide eleições.
      É a minha opinião. Que vale o que vale.

      • Fernando um heroi ainda por cima do Porto, sempre com a ponta da ola afiada é um adversário temível depois de ser um generoso aliado. faço em paris muita publicidade sua. as damas admiram-no muito pela foto maravilhosos com olhar de matador., e4las pensam

      • Rui Naldinho says:

        Concordo em absoluto com o seu texto. Será muito difícil ao PSD sair deste registo.
        Quanto ao Bloco Central, face à atual conjuntura económica e política, na Europa, dúvido que o PS seja tentado a meter-se nessa união de facto. Saem-se sempre mal.
        Dentro das más notícias para o PSD, aquela que mais os confortará, será sempre uma maioria absoluta do PS. Mas só por uma razão.
        A História tem provado que o PS, não estando atado a uma coligação ou a um acordo parlamentar, tendo sozinho capacidade de decidir sem depender dos outros partidos, acaba por sucumbir nas suas próprias contradições, de também eles não saberem o que são. Isto meu caro é factual, não é invenção minha.
        Foi isso que aconteceu na Europa aos partidos socialistas europeus, e ao nosso em particular, com a agravante de Sócrates, essa monumental figura que eles veneraram como um ser acima de todas as suspeitas, os ter feito estatelar no chão.
        Chamar ao PS, hoje, um partido social democrata ou mesmo socialista é um eufemismo. Quanto ao PSD, então nem se fala.
        António Costa percebeu isso, no dia a seguir às eleições gregas, quando o PASOK ficou reduzido à irrelevância. E percebeu ainda melhor, após as internas do PS, quando derrotou António José Seguro, e lhe rebentou nas mãos a prisão preventiva de José Sócrates. Derrotar o PSD e o CDS coligados seria muito difícil. Ele sabia que dali para a frente nada seria igual ao passado. Geriu meticulosamente todos os estados de alma dentro do PS, tinha já provavelmente um acordo tácito com alguns dirigentes influentes no BE e no próprio PCP, a começar por Jerónimo de Sousa, para inviabilizar qualquer solução à direita, uma vez que a hipótese de uma maioria absoluta era quase inatingível. O resto esta à vista de todos.
        Como é que o PSD vai sair disto. Não sei.
        Mas temo que possa estar algum tempo de jejum, caso António Costa consiga manter cabeça fria, e a capacidade de se antecipar aos problemas. E como somos mesmo muito frágeis, enquanto a Europa não nos pregar mais algum susto!

    • ricardo says:

      curioso, fiz o mesmo exercicio e pareceu-me ver a Ana avoila e sua trupe! nao precebo nada de pintura…

    • JgMenos says:

      Mais um candidato a humorista!

  3. manuel.m says:

    O autor demonstra nobres sentimentos ao defender a negociação entre as partes, só que para isso seria necessário ultrapassar um pequeno obstáculo que é a Constituição, (devidamente referendada antes da sua proclamação), que estabelece ser o Estado Espanhol unitário e indivisivel. Teria portanto que ser alterada e a mudança aprovada por…um primeiro referendo aberto a todos os Cidadãos e cujo resultado se adivinha. O Estado de Direito tem destas chatices.

    • Fernando Antunes says:

      A Constituição da Monarquia Portuguesa até 1910 também outorgava a Soberania Nacional na pessoa do Rei. A História tem dessas chatices…

      As Constituições são sempre passíveis de revisão, alteração, ou de serem substituídas por outras — isso está farto de acontecer.

    • Fernando Antunes says:

      E não vejo como um referendo sobre a possibilidade de independência de um determinado Estado Autonómico possa depender da vontade de populações de outras regiões. Imagine-se o ridículo, recuando uns anos, de estarem a fazer referendos em Madrid relativamente ao direito de auto-determinação das suas colónias na América Latina (a título de exemplo).

    • Paulo Marques says:

      Nos anos da troika as constituições não foram impedimento para ninguém.

  4. jose guerra says:

    Pensei que a esquerda caviar anti-capitalista estivesse a aplaudir a partida do capital da Catalunha. Vem ao de cima a sua hipocrisia. Querem a Catalunha independente para não pagar impostos a Castela. Mas como, se independentes, os impostos das empresas partem, e ficam com menos dinheiro na Catalunha que se lixe a independência, Agora vão negociar. o quê? O montante de transferência.
    Solidários e com princípios e valores humanistas estes independentistas e esquerdistas dependentes..

  5. manuel.m says:

    Fernando Antunes deveria pensar antes de escrever: A Monarquia caiu em 1910 porque foi usada a violencia. As colónias da Espanha, (e de Portugal), tornaram-se independentes da mesma maneira. Não parece ser sério evocar a vontade popular nesses contextos e, no caso dos países da América do Sul, nessa época. E não parece ser sensato esperar que a Catalunha venha a usar os mesmos meios no Sec. XXI.
    O comentador Paulo Marques vem por seu turno afirmar que as Constituições não foram impedimento para ninguém nos anos da Troika. Trata-se de um singular caso de falta de memória quando o Tribunal Constitucional Português chumbou várias medidas propostas pelo Governo anterior com o aplauso provavel dos que hoje criticam as decisões doutro Tribunal Constitucional, desta vez o Espanhol.
    Sol na eira e chuva no nabal ? Lamento mas não é possivel.

    • Fernando Antunes says:

      “A Monarquia caiu em 1910 porque foi usada a violencia. As colónias da Espanha, (e de Portugal), tornaram-se independentes da mesma maneira.”
      Conheça a História antes de escrever. Quantos Estados foram criados ou mudanças de regime verdadeiras aconteceram sem violência? “Não parece ser sério evocar a vontade popular nesses casos”?? What????!!!!!! Acha mesmo que as populações das ex-colónias de Portugal e de Espanha não quiseram ser independentes? Então as guerrilhas de resistência não eram apoiadas pela população, é isso?

      “…não parece ser sensato esperar que a Catalunha venha a usar os mesmos meios no Sec. XXI” — mas é sensato que o Governo Espanhol use do bastão. Compreendido.

  6. manuel.m says:

    Assim de repente lembro-me da Républica Checa e da mudança do Franquismo para a democracia, mas posso estar enganado.
    Quanto às “populações” da América Latina desejarem no Sec. XIX ardentemente a independencia de Espanha, (as populações, não as elites…) gabo o seu fino sentido de humor.

  7. JgMenos says:

    Eu sou todo a favor da independência de Lisboa.
    Duma só vez resolvíamos a questão orçamental e podíamos seguir em frente sem a poluição de um politicamente correcto imbecil e corruptor.
    A Catalunha tornou-se poder económico explorando um império a que outras regiões deram braços e vidas.
    Agora quer, mantendo o mercado de Espanha, mamar sozinha o sucesso a começar pelos seu politiqueiros.

  8. Marta Filipe says:

    Apesar do tudo Franco conseguiu uma coisa boa que foi manter o Comunismo fora de Espanha.

    Marta

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