Por muito menos se desenharam grandes teorias da conspiração


Foto: Hélio Madeiras@Diário de Notícias

No passado Domingo, e agradeço que alguma alma caridosa me corrija se estiver a proferir alguma alarvidade, Portugal bateu o recorde do Guiness de ignições num único dia, com 523 incêndios a deflagrar um pouco por todo o país.

O número é impressionante, o resultado devastador, e as mortes que daí resultaram aprofundaram ainda mais o revoltante luto em que vivemos mergulhados desde o início deste Verão, que não parece ter fim. Amanhã, prevê-se nova subida nos termómetros nacionais e o risco volta a ser elevadíssimo.

Recuso-me a acreditar, como li por aí, que esta quantidade inexplicável de fogos num só dia resulta de uma acção de terrorismo concertada, com o propósito de forçar a chegada do Belzebu que teima em não aparecer. Não obstante, não tenho qualquer tipo de dúvida que muitos destes fogos foram encomendados, como é recorrente por cá e em qualquer parte do mundo, que a falta de escrúpulos aliada à ganância de certos lobbies e sectores económicos é maquiavélica e assassina. Como não tenho dúvidas de que estamos perante a ocorrência de vários atentados terroristas, condimentados com o sadismo e a impunidade que se exigem aos mais experienciados jihadistas.

Mas que dá pano para mangas conspirativas, ai isso dá! No Domingo o fogo reacende, em formato catástrofe bíblica, prolongando-se pelos dias seguintes, na Quarta-feira de manhã a ministra da Administração Interna apresenta a sua demissão e, poucas horas depois, as armas roubadas do paiol de Tancos são encontradas na Chamusca, a 20km do complexo militar. Se fosse nos States, a Netflix já tinha alguém a escrever o guião.

 

Comments

  1. Não foi no domingo, foi no sábado, 14 de Outubro.
    Qualquer bom cristão sabe que o dia de botar o fogo é ao sábado. Porque no domingo é dia de vestir a roupa fina, ir à missa e passear no shope.

    Pedrógão Grande 17 de Junho – Sábado

    Outubro é sempre o mês que os trouxas se põem a queimar tudo que têm em casa. Não podem ver umas ervinhas (que deixadas a apodrecer até fertilizam a terra) mas o fascínio de ver a arder é muito. Aqui onde vivo já temos contentores do lixo e ecopontos há muito anos. A câmara municipal até recolhe os restos de jardim de borla, mas é muito mais fixe ficar a ver arder, e fazer fumo, e juntar todos os plásticos que se tenha em casa. Como se não houvessem contentores do lixo. E ecopontos. E como se a queima de plásticos não fosse extremamente perigosa para a saúde. Mas antes de Outubro é proibido, a GNR até vem logo a casa ver o que se passa e pode-se pagar boa multa. Já cá vieram só por causa…. dum churrasco no fogareiro. Não dá muito jeito. Então ao longo do mês de Outubro, é ver dezenas e dezenas de colunas de fumo e não se pode respirar na aldeia. Fazer fogueiras, num ano em que quase não choveu e está tudo seco (vi este ano os rios que nascem na Serra da Estrela secos) então, se calhar fazer queimadas à vontade talvez não deva ser boa ideia. Digo eu.

    • JgMenos says:

      É ver as multas da GNR -ouvi dizer que só em Braga foram 60.
      A publicidade contra esse costume foi nenhuma como foi nenhuma a mudança do fim da proibição de 30 de Setembro para 15 de Outubro.
      E anunciou-se a chuva que iria inviabilizar a queima…

      • As pessoas também só não ouvem o que não querem. Por exemplo, a proibição de lançamento de balões de São João foi mais do que difundida nos meios de comunicação social , e no dia 23 de Junho era vê-los no céus do Porto a voar, para depois irem causar incêndios à volta da área metropolitana. E a mim muito me admira que tenham passado décadas e décadas dessa tradição completamente estúpida, sem que ninguém tenha feito nada. E foi este ano que vi alguém fazer algo.
        Mas o problema do nosso país nunca foi a falta de leis, aliás, temos leis espetaculares de prevenções de incêndios, como as faixas de dez metros que devem estar limpas junto às estradas, ou os cinquenta metros em torno das habitações. O problema é que ninguém fiscaliza, ninguém se preocupa, e mais, conheço casos de pessoas que estão há quatro anos em litígio com a câmara municipal por terem eucalitpos a um metro das suas casas e ninguém os deita abaixo, porque infelizmente no nosso país ainda impera o caciquismo e se os eucaliptos forem de alguém importante na terra, ninguém ousa fazer o que quer que seja. Eu ainda por ruas que nem conhecia em Lever (Gaia) e Canedo (Feira) e vi grandes explorações de eucaliptos mesmo junto de áreas industriais! Pergunto-me como é que isso é possível? E depois vêm pedir apoios para empresas que arderem! E quem é que permitiu aquilo? O que é que os presidentes de câmara andam a fazer?

        • …”O problema é que ninguém fiscaliza” e a lei não se cumpre, nesta e em tantas outras circunstâncias com a “conivência” e caciquismos, sim, a nível de autarcas por esse país além, e falta de formação/informação e competência de responsáveis e proprietários.
          ! é isso mesmo, e já é tempo de todos o sabermos e o denunciarmos e interagirmos !

  2. Rui Naldinho says:

    Imaginemos que o Governo face às informações meteorológicas que lhe chegavam às mãos, tinha antecipado o período crítico do Sistema de Defesa da Floresta para o início do mês de Junho, e não a 1 de Julho deste ano, como estava programado?
    Imaginemos que mesmo depois do incêndio em meados de Junho, com o mesmo número de mortos, ou não(?), e face à constatação da desorientação das populações perante o pânico, com fogos por todo o lado, o governo tinha decidido enviar a todas as autarquias, uns prospectos no género do que as companhias de aviação têm nas cadeiras das aeronaves onde s sentam os passageiros, com os procedimentos de segurança a tomar em caso de incêndio, estilo banda desenhado, com pouca escrita e muitos bonecos, uma vez que no interior ainda há algum analfabetismo, e juntado um pequeno kit com aqueles máscaras respiratórias, do género das que os hospitais distribuem aos funcionários e utentes? Tudo isto distribuído à porta da igreja no domingo à hora da missa. Ou nos dias de festa em honra do Santo padroeiro lá da terra. Como por exemplo a Senhora das Dores, na Trofa. Sim, que nas aldeias ir à missa ao domingo é mais do que um ato religioso. Ou ainda no dia das eleições autárquicas, ainda que aí já fosse um pouco tarde.
    Imaginemos que o governo só abandonaria a fase Charlie, no momento em que as chuvas começassem com bastante evidência a dar de si, nos solos, e o tempo atmosférico a arrefecer, em vez de ter um programa rígido que termina a 30 de Setembro. E em fase da informação se tinha pré posicionado naquele fatídico domingo de dia 15 de Outubro.
    Tudo isto não necessita de grandes planeamentos. Um flyer faz-se em meia dúzia de horas. Imagino até que já haja alguma coisa feita. Era imprimir e divulgar.
    Quanto aos bombeiros, aviões e helicópteros de combate, GNR, militares, os meios existem. Estavam no terreno. Era apenas necessário mantê-los. Isso é decisão política. Não técnica.
    Poderiam morrer na mesma, as mesmas pessoas em número e em género?
    “Poder podiam, mas não era a mesma coisa!”

    • Rui Naldinho says:

      Corrijo-me:
      … e juntasse um pequeno kit…
      … e em face da informação recebida, se tinha pré posicionado naquele fatídico Domingo.

      E não como está erradamente escrito.

    • Rui Naldinho says:

      Esta tragédia dos incêndios, neste Verão que se antecipou e que tarda em partir, faz-me lembrar o médico cirurgião que na sala de operações com a sua equipa tenta desesperadamente salvar um doente de risco, utilizando todas as técnicas possíveis que a ciência conhece, todos os fármacos disponíveis para casos semelhantes, sem olhar a meios para salvar aquela vida.
      O doente acaba ainda assim por morrer.
      O médico e a equipa, desolados, sentem uma enorme frustração, à saída da sala de operações e questionam-se sobre a injustiça desta morte, depois de tanto sacrifício e empenho daqueles profissionais de saúde, na salvação daquela “alma”.
      Mas alguém os conforta, dizendo-lhes:
      – Fizeram tudo o que estava ao vosso alcance, meus heróis!
      – Agora há que seguir em frente, companheiros. A vida continua, e já a seguir há mais vidas para salvar.

      • Miguel bessa says:

        Excepto que não foram utilizadas todas as técnicas. Senão não haveria nada a mudar.
        Excepto que não foram utilizados todos os meios. Pois foram dispensados.
        Ou seja, faz lembrar mas não tem nada a haver.

  3. Miguel bessa says:

    Como pode algo que é foi o 22o dia com mais ignições ser record? Se é o 22o com mais significa que existiram 21 com ainda mais!

    Malandros dos lobbys que apareceram em 2017 e que nunca antes tinham existido. O lobby dos helicópteros que foram dispensados porque 2a ia chover? Ou o lobby dos licenciados da protecção civil? Ou o lobby das cativações? É que madeireiros e pastores e aldeões a fazer queimadas e etc, esses já cá andam há muito tempo.

    O focus group desta semana que resultados deu?

    • JgMenos says:

      Ouvi um prof da U. de Coimbra dizer na tv que em 2013, nas mesmas circunstância – anuncio de chuva e cerca do fim da proibição de queimas – houve mais de 500 ignições.

      • ZE LOPES says:

        A minha tese é que a culpa é (indiretamente) dos burocratas da justiça. Aquilo não era dia de queimar as escutas feitas ao Sócrates!

        • JgMenos says:

          Parece não teres percebido que o tempo de antena do ‘humorista’ expirou.

          • ZE LOPES says:

            V. Exa. estava era mal habituado. Pensava que ninguém lhe dava troco, ó direitolho?

        • Zé Lopes …” Aquilo não era dia de queimar as escutas feitas ao Sócrates!, ” … : )
          e Konigvs,
          ” Não foi no domingo, foi no sábado, 14 de Outubro.
          Qualquer bom cristão sabe que o dia de botar o fogo é ao sábado. Porque no domingo é dia de vestir a roupa fina, ir à missa e passear no shope.
          Pedrógão Grande 17 de Junho – Sábado…” : )

          Quando argumentos válidos já não fazem efeito, o humor certeiro acode ao nosso sufoco da indignação e rir faz bem !

      • Miguel bessa says:

        E quantos morreram?

      • E esse professor saiu de Coimbra e da universidade, brutal

  4. Além dos hábitos e tradições, que neste país só morrem com as pessoas porque estas nunca mudam, é essa a definição portuguesa de ter caracter e personalidade em Portugal, quem muda é fraco, como dizem os americanos, é só seguir o dinheiro. E aí podemos ter proprietários que querem ganhar uns euros rápidos, possivelmente para investir em imobiliáro na segunda casa (porque o expresso está a propagandear que está a dar) plantando uns eucaliptos, as próprias celuloses pois pelo que sei estão a importar matéria prima, ou boys/girls laranjas a pensar no tacho fabuloso que terão depois da vinda do diabo… e mais não digo

  5. atento às cenas says:

    500 ignições num dia e grande parte delas durante a noite ? deixemos a ingenuidade de lado,
    só pode ser coisa do diabo.

  6. Fernando says:

    Paraquedas incendiários, quem os anda a atirar?

  7. Manobras de diversão à parte, obra de gente a soldo na politica.
    Não há maior cego do que o que não quer ver…

  8. O diagnóstico está feiro e sempre em actualização.
    Falta a acção e as atitudes “verdadeiramente cívicas dos quais algumas delas já por aqui (Aventar e comentadores) foram mencionadas.
    Cá por mim vou participar mais nos diversos associativismo sobre a floresta, flora, fauna, rios.
    Vou também ser mais activo na denúncia de comportamentos irregulares ou criminosos.
    E também na formação sobre protecção civil.
    Recordo que nos Açores, após o grande sismo que derrubou quase por completo a cidade de Angra do Heroísmo, em todos os actos públicos de formação era obrigatório transmitir (diapositivos, videos) as regras de protecção para o cidadão em caso de sismo.
    Aqui o que se faz? Aqui afasta-se o cidadão do processo de protecção civil como fossem dispensáveis… As primeiras acções de combate devem ser dos cidadãos comuns, porque muitas vezes o socorro está a Km de distância. Esta é a minha primeira preocupação neste momento. Tenho prática de combate a fogos porque sempre vivi em meio rural. Tenho treino militar que me dá competências em termos de metodologias de combate e ocupação de um território.
    Já comecei a interpelar pessoalmente os autarcas da minha região e não lhe vou dar sossego quanto a esta matéria.
    Bom Domingo para Todos. Sempre em frente portugueses…

  9. Quando David Dinis disse que, se os incêndios, como os de Pedrógão se repetissem, o governo não sobreviveria, isto deixa-me seriamente a pensar se na política vale mesmo tudo…
    Parece-me que sim.

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