Os pórticos da auto-estrada 25


gustav_klimt
João Coutinhas

Ontem percorri muitos quilómetros de desolação da A25, mandatado pela solidariedade de muitos amigos. De ambos os lados, terra queimada a perder de vista. Percebe-se bem que as pessoas não tiveram meios para salvar mais nada que as suas casas. E destas, nem todas. De incólume, só mesmo o asfalto e os pórticos do sugadouro automático.
Mas é quando se troca a estrada grande pelas pequenas vias (essas que de quatro em quatro anos beneficiam da oportunista manutenção) que “bate” em pleno a dimensão da tragédia. Sente-se a tristeza, não o desânimo!
As pessoas não precisam que lhes digam que têm que ser resilientes.
Nem conhecem este figurado. Mas conhecem bem o significado de abandono, que trespassa todas as conversas.
Por todo o lado, cada um tenta limpar e reconstruir o que pode. Aqui e ali os madeireiros em actividade. Das “autoridades”… nada. As operadoras de comunicações móveis foram rapidíssimas a reparar as antenas. Rede fixa, continua avariada. Aquele vizinho ouviu falar de apoios a fundo perdido, mas não sabe como se candidatar. O primo foi à Junta declarar que ficou sem casa: pediram-lhe os “papéis” que arderam.
O fogo pôs à mostra também a debilidade das estruturas locais. Os slogans de alguns cartazes de campanha sobreviventes, que falam de futuro e de competência, parecem agora obscenos.

 

Comments

  1. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Não é agora que temos de relembrar (mau era se agora não nos lembrássemos, apesar do folclore riodoso que por aí anda para nos distrair).

    Temos que relembrar é em Janeiro, quando começar o novo ano. Nessa altura era bom que todos nós, bem como os média, e os “activistas do Facebook”, tão lestos a criar campanhas de maledicência ou movimentos de solidariedade para o menino que está com doença terminal há 25 anos, se “lembrassem de relembrar” tudo o que aconteceu, as promessas feitas, e as medidas anunciadas, e se fizesse o balanço do que já foi feito e do que falta fazer.

    Mas se calhar isso já é pedir demais.

    • Rui Naldinho says:

      Bom texto. Essa do menino com doença terminal há 25 anos, ainda melhor.
      Estou convencido que as empresas de informática que estão ligadas ao marketing e às vendas, mas até mesmo seitas religiosas, fazem a recolha de moradas digitais através do Facebook, mas não só, daí por vezes sermos confrontados com grupos de amigos que entram de enxurrada na nossa conta de utilizador, ou por publicidade a produtos que nunca nos passaram pela cabeça adquirir.

  2. joão lopes says:

    fala-se muito do abandono do interior,o que em parte é verdade,mas não se fala que se o estado e successivos governos o abandonaram,o interior está “ocupado” por pessoas quem nem no Texas seriam bem vindas.No concelho de Idanha a Nova,por exemplo,a matança de grifos(ave necrofaga,que “limpa”,por assim dizer,os terrenos) foi sistematica,com a cumplicidade de juizes,caçadores,agricultores,tudo para que os caçadores novos ricos de Lisboa,tivessem a sua coutada privada,na zona,para exprimirem o enorme prazer que é andar aos tiros para tudo quanto mexe.Um dos que experimentaram o chumbo quente, foi um amigo que andava no Btt.

    • …é tão verdade que dói reconhecer, é urgente divulgar, interagirmos dentro de todos os modos de o fazer em nosso dever/direito de cidadania, e não deixar esquecer .
      Na esperança de os vencermos, “esses” outros que tomaram conta deste comum património nosso por conta própria como se deles fosse !

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