Graçolas

O deputado João Galamba decidiu fazer graça com os incêndios que assolam a Califórnia, onde já foram evacuadas, segundo as notícias, cerca de duzentas mil pessoas. Infelizmente, o sentido de humor do senhor deputado não chega para esclarecer por que razão foram quarenta e sete portugueses queimados vivos numa estrada de Pedrógão Grande, nem por que motivo o Relatório que alegadamente o explica está reservado aos seus olhos.

Que ao menos mantenha a boa disposição.

Santa Chuva

santa_chuva
© Fernando Lucas

A eficácia do Estado

Fosse o Estado português tão eficaz a proteger o território e a vida dos cidadãos como é a cobrar-lhes impostos e ninguém estaria chocado com ninguém.

Os pórticos da auto-estrada 25

gustav_klimt
João Coutinhas

Ontem percorri muitos quilómetros de desolação da A25, mandatado pela solidariedade de muitos amigos. De ambos os lados, terra queimada a perder de vista. Percebe-se bem que as pessoas não tiveram meios para salvar mais nada que as suas casas. E destas, nem todas. De incólume, só mesmo o asfalto e os pórticos do sugadouro automático.
Mas é quando se troca a estrada grande pelas pequenas vias (essas que de quatro em quatro anos beneficiam da oportunista manutenção) que “bate” em pleno a dimensão da tragédia. Sente-se a tristeza, não o desânimo!
As pessoas não precisam que lhes digam que têm que ser resilientes.
Nem conhecem este figurado. Mas conhecem bem o significado de abandono, que trespassa todas as conversas.
Por todo o lado, cada um tenta limpar e reconstruir o que pode. Aqui e ali os madeireiros em actividade. Das “autoridades”… nada. As operadoras de comunicações móveis foram rapidíssimas a reparar as antenas. Rede fixa, continua avariada. Aquele vizinho ouviu falar de apoios a fundo perdido, mas não sabe como se candidatar. O primo foi à Junta declarar que ficou sem casa: pediram-lhe os “papéis” que arderam.
O fogo pôs à mostra também a debilidade das estruturas locais. Os slogans de alguns cartazes de campanha sobreviventes, que falam de futuro e de competência, parecem agora obscenos.

 

Jogos de bastidores

As areias movem-se. O cenário não é o ponto importante. Tem como pano de fundo os incêndios, mas poderia ser o défice, o Schäuble ou que estivesse a correr mal. Que não haja ilusões, é o poder que alimenta este jogo. Assistimos à política de bastidores, e não é uma coisa linda de se ver.

400 milhões de razões para nos preocuparmos

Com que então, o governo decidiu num sábado, e talvez até lhe tenha ocupado a tarde toda, gastar 400 milhões na indústria dos incêndios. Não faço ideia se chega ou não, apesar da Cristas ter vindo dizer que não chega. Quem foi  Ministra da Agricultura e do Mar poderá ter uma ideia sobre o assunto, se bem que a floresta não é propriamente uma subdivisão da agricultura. Excepto se for para se plantarem eucaliptos nos terrenos agrícolas, área onde Cristas tem cartas para dar.

Adiante. Decidiu-se gastar uma pipa de massa com base em quê? No combate aos incêndios? Na prevenção? Qual é o plano? Muito dificilmente as boas decisões acontecem em momentos de pressão e o Governo encontra-se entre a espada e a parede. Uma pressa destas só nos pode criar preocupações sobre estarmos a fazer as melhores escolhas. Acossado pela oposição, pelo Presidente e refém da sua própria incúria, Costa precisou de mostrar serviço.

E mostrou. Mas começou logo pelo lado errado ao nomear Tiago Oliveira, que trabalhava há vários anos com a Navigator, para unidade de missão dos incêndios. É uma decisão tão má como foi a do anterior governo ao ter nomeado Sérgio Monteiro para secretário de estado dos transportes. As razões são as mesmas. Não se metem raposas a guardar galinheiros.

Arte de Furtar

Ao fim de uma longa maratona-sprint de onze horas para presidente ver, o Conselho de Ministros do Governo de Portugal, SARL, subtraído já dos membros que, exaustos, tiveram que ser retirados pelos bombeiros, de helicóptero, para um SPA em Chamonix, decidiu que é preciso despejar quatrocentos milhões de euros nas zonas ardidas.

O PSD veio imediatamente prestar a sua solidariedade e concordância com tão generoso bodo.

O PCP pergunta de onde vem o dinheiro.

O português médio, com a quarta classe antiga, deve levar desde já as mãos à carteira e tentar descobrir se as notas já começaram a escorrer, identificando aqueles que afiam o dente e vertem baba.

Começou a gatunagem.