Como fazer um deserto em três tempos.

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[Paulo Arantes Barbosa]

Esta filha-da-putice vai dar estrilho.
A GNR anda a medir as copas das árvores dos carvalhos e sobreiros.
Se a distância for inferior a 4 metros, entre copas, multa certa.
Agora vejamos, as copas das quercineas em geral são redondas, e podem ter uma envergadura (largura)na idade adulta de una bons 12 metros. Mesmos se afastadas as árvores uns bons 10 metros na base, tipo deserto alentejano, é impossível ter uma distância entre copas de 4 metros (6 metros para cada lado de copa normal).
Agora vejam bem o que as pessoas vão fazer para não apanhar multas.
Corte radical de Carvalhos e Sobreiros (estes de forma igualmente ilegal).

A estupidez humana é uma grandessíssima puta.

A Máfia do Pinhal

Ver esta reportagem causa das maiores dores de alma que se possa imaginar. A frieza calculista do incêndio planeado, o negócio da madeira de boa qualidade vendida a um terço do preço normal, a inacção do Estado versus o que uma reportagem televisiva mostrou – tudo sinais de impunidade, talvez por a possibilidade de os crimes resultarem em condenações não ser chão que dá uvas neste país.

Querida Autoridade Tributária

Parece que a Autoridade Tributária decidiu enviar um email aos contribuintes portugueses, em o qual os ameaça com processos de contra-ordenação e coimas que podem ir até aos 60.000 euros, caso esses contribuintes não limpem o mato nem cortem as árvores que existam num raio de 50 metros à volta das suas casas – presume-se que as ainda não ardidas. Esta ameaçadora polícia tributária informa ademais na sua epístola digital que “é obrigatório também limpar as copas das árvores quatro metros acima do solo e mantê-las afastadas [presume-se que puxadas por trelas] pelo menos quatro metros umas das outras e cortar todas as árvores e arbustos a menos de cinco metros das casas e impedir que os ramos cresçam sobre o telhado”.

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Graçolas

O deputado João Galamba decidiu fazer graça com os incêndios que assolam a Califórnia, onde já foram evacuadas, segundo as notícias, cerca de duzentas mil pessoas. Infelizmente, o sentido de humor do senhor deputado não chega para esclarecer por que razão foram quarenta e sete portugueses queimados vivos numa estrada de Pedrógão Grande, nem por que motivo o Relatório que alegadamente o explica está reservado aos seus olhos.

Que ao menos mantenha a boa disposição.

Santa Chuva

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© Fernando Lucas

A eficácia do Estado

Fosse o Estado português tão eficaz a proteger o território e a vida dos cidadãos como é a cobrar-lhes impostos e ninguém estaria chocado com ninguém.

Os pórticos da auto-estrada 25

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João Coutinhas

Ontem percorri muitos quilómetros de desolação da A25, mandatado pela solidariedade de muitos amigos. De ambos os lados, terra queimada a perder de vista. Percebe-se bem que as pessoas não tiveram meios para salvar mais nada que as suas casas. E destas, nem todas. De incólume, só mesmo o asfalto e os pórticos do sugadouro automático.
Mas é quando se troca a estrada grande pelas pequenas vias (essas que de quatro em quatro anos beneficiam da oportunista manutenção) que “bate” em pleno a dimensão da tragédia. Sente-se a tristeza, não o desânimo!
As pessoas não precisam que lhes digam que têm que ser resilientes.
Nem conhecem este figurado. Mas conhecem bem o significado de abandono, que trespassa todas as conversas.
Por todo o lado, cada um tenta limpar e reconstruir o que pode. Aqui e ali os madeireiros em actividade. Das “autoridades”… nada. As operadoras de comunicações móveis foram rapidíssimas a reparar as antenas. Rede fixa, continua avariada. Aquele vizinho ouviu falar de apoios a fundo perdido, mas não sabe como se candidatar. O primo foi à Junta declarar que ficou sem casa: pediram-lhe os “papéis” que arderam.
O fogo pôs à mostra também a debilidade das estruturas locais. Os slogans de alguns cartazes de campanha sobreviventes, que falam de futuro e de competência, parecem agora obscenos.

 

Jogos de bastidores

As areias movem-se. O cenário não é o ponto importante. Tem como pano de fundo os incêndios, mas poderia ser o défice, o Schäuble ou que estivesse a correr mal. Que não haja ilusões, é o poder que alimenta este jogo. Assistimos à política de bastidores, e não é uma coisa linda de se ver.

400 milhões de razões para nos preocuparmos

Com que então, o governo decidiu num sábado, e talvez até lhe tenha ocupado a tarde toda, gastar 400 milhões na indústria dos incêndios. Não faço ideia se chega ou não, apesar da Cristas ter vindo dizer que não chega. Quem foi  Ministra da Agricultura e do Mar poderá ter uma ideia sobre o assunto, se bem que a floresta não é propriamente uma subdivisão da agricultura. Excepto se for para se plantarem eucaliptos nos terrenos agrícolas, área onde Cristas tem cartas para dar.

Adiante. Decidiu-se gastar uma pipa de massa com base em quê? No combate aos incêndios? Na prevenção? Qual é o plano? Muito dificilmente as boas decisões acontecem em momentos de pressão e o Governo encontra-se entre a espada e a parede. Uma pressa destas só nos pode criar preocupações sobre estarmos a fazer as melhores escolhas. Acossado pela oposição, pelo Presidente e refém da sua própria incúria, Costa precisou de mostrar serviço.

E mostrou. Mas começou logo pelo lado errado ao nomear Tiago Oliveira, que trabalhava há vários anos com a Navigator, para unidade de missão dos incêndios. É uma decisão tão má como foi a do anterior governo ao ter nomeado Sérgio Monteiro para secretário de estado dos transportes. As razões são as mesmas. Não se metem raposas a guardar galinheiros.

Arte de Furtar

Ao fim de uma longa maratona-sprint de onze horas para presidente ver, o Conselho de Ministros do Governo de Portugal, SARL, subtraído já dos membros que, exaustos, tiveram que ser retirados pelos bombeiros, de helicóptero, para um SPA em Chamonix, decidiu que é preciso despejar quatrocentos milhões de euros nas zonas ardidas.

O PSD veio imediatamente prestar a sua solidariedade e concordância com tão generoso bodo.

O PCP pergunta de onde vem o dinheiro.

O português médio, com a quarta classe antiga, deve levar desde já as mãos à carteira e tentar descobrir se as notas já começaram a escorrer, identificando aqueles que afiam o dente e vertem baba.

Começou a gatunagem.

O Presidente disto

 

Imagem: TVI

 

“Uma coisa é um isto”
Heidegger

Na escala do grotesco, só o Presidente disto alcançou resultados superiores aos do Governo. Letrado como ninguém na filosofia dos malditos, de Maquiavel a Napoleão, passando por Átila, Nero ou Himmler, cujas vidas certamente conhece como as palmas das suas mãos, o senhor Presidente disto ofereceu, sobre as brasas de um país extinto, um espectáculo único de cinismo e uma lição de baixa política como há muito não se via.

O senhor Presidente disto instrumentalizou de modo rasteiro, grotesco e sumamente hipócrita os últimos homens e mulheres de Portugal onde morou a dignidade humana, eremitas de um país morto e risível, vivendo entre cabras e montes onde aguardam com paciência infinita a chamada do Altíssimo. Antes que essa trombeta soasse, os bichos urbanos decidiram extinguir-lhes a alma pelo fogo, fazendo nele também arder os seus últimos trastes terrenos – o casebre, o cão, a sachola, as ovelhas, a macieira antiga. Até as panelas.

Esta gente não merecia a falta de respeito e o canibalismo político-mediático do mais alto magistrado desta espelunca astral, prestidigitador exímio das emoções, especialista reconhecido no abraço do urso.

As minhas desculpas

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Pedro Prostes da Fonseca

Já que estamos num campeonato de desculpas, também tenho as minhas a apresentar.
Peço desculpa por ter trabalhado num tabloide chamado Sol, onde a verdade era feita à medida das conveniências.
Peço desculpa por não ter tido a coragem de me ter demitido a tempo e horas desse tabloide – apesar de ter pedido para sair em duas ocasiões.
Peço desculpa por não ter tido a coragem de enfrentar ainda com mais garra o diretor do pasquim, o “arquiteto” José António Saraiva, um extraterrestre que não faz a menor ideia do que seja jornalismo.
Peço desculpa por não ter feito o mesmo com o seu adjunto, o jornalista José António Lima, jogador das sombras, que me deixou sozinho depois de ter feito uma manchete de um texto meu e contra a minha vontade, “obrigando-me” a ir a tribunal defender a minha honra – e claro que às minhas expensas.
Peço desculpa por todos os “jornalistas” que nunca deveriam exercer a profissão, porque nem percebem o que ela é – como se nota pela capa que a revista Sábado fez hoje.
Peço desculpa pelo risco de generalização – pois há “jornalistas” e jornalistas.
Peço desculpa por me abster de participar nos órgãos representativos da classe, por pura descrença e egoísmo.
Desculpas apresentadas, volto costas ao assunto incêndios – que já me fritou a moleirinha que chegue. O oportunismo de se venderem mais uns exemplares de jornais e revistas, à custa de manchar a imagem de terceiros de forma gratuita e cobarde, para mim nunca teve nem terá perdão.

Miséria de estratégia

Desde ontem – pelas intermináveis declarações de Passos Coelho, ouvido em particular e por tudo o que se disse no debate (?) parlamentar – começam a desenhar-se as cartilhas e as obscenidades que a direita deve usar para pontuar os seus ataques. Podiam os partidos de direita atacar, na AR e nas suas metástases televisivas, com argumentos e ideias duras, até violentas, mas sérias e, até, procedentes, porque há matéria para tal, mas isso tinha um preço – eles fizeram sempre o mesmo e geralmente pior nestas matérias. Mas não. Não é isso que colhe e o deserto argumentativo parlamentar não surpreende. Por isso, tratam de promover e repetir curtas e simplórias grosserias.

Não há limites. Mas há concertação. Exemplo? Ontem, na TVI24, uma jornalista (??) promovida a comentadora, uma tal Judite de Freitas arengava: “o PCP e o BE eram outra coisa, agora são… não sei… uma espécie…não sei…uma coisa…estão mascarados de partidos que apoiam governos que permitem 100 mortos…”. Horas depois, Nuno Magalhães, com a elegância oratória que lhe é reconhecida, bolsava: ” cabe ao PCP e ao BE avaliarem se a morte de 100 pessoas não é grave”. Esta imitação de ideia vai fazendo o seu caminho ao ritmo da obediência dos vários servidores da causa. [Read more…]

O terrorismo anónimo

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António Alves

Em Portugal surgiu um novo tipo de terrorismo: o terrorismo anónimo.
Ao contrário do que estamos habituados, com os vários terrorismos europeus ao longo de décadas – Brigadas Vermelhas, Baader Meinhof, ETA, IRA e, hoje, o terrorismo islâmico -, que sempre foram reivindicativos, sempre fizeram questão que se soubesse que eram os autores de atentados e chacinas, o terrorismo português não reivindica, não se assume, é anónimo. Nos alvos está mais perto da metodologia do terrorismo islâmico do que dos outros citados. Não tem o cuidado de atacar preferencialmente alvos militares, policiais e políticos. Ataca civis inocentes. Anonimamente. É ainda mais cobarde que o jiadismo. É a suprema cobardia.

Incêndios: António Costa tem as mãos sujas de sangue


António Costa que nos poupe as lágrimas de crocodilo.
Nesta tragédia dos incêndios, em que todo um país deixa andar durante décadas, ele é o principal responsável. Porque é o primeiro-ministro. Mas não só.
Foi ele, enquanto Ministro da Administração Interna, que extinguiu a carreira de guardas florestais – a mesma carreira que, já como primeiro-ministro, se recusou a reactivar. Foi ele, naquele mesmo ano, que recusou a implementação de um ambicioso Plano de Protecção da Floresta que apostava sobretudo na prevenção dos incêndios – a tal prevenção que 10 anos depois lhe enche a boca diariamente. Agora é que vai ser.
Já como primeiro-ministro, escolheu para a Administração Interna uma ministra sem qualquer peso (de falta de peso, valha a verdade, não podem acusar o futuro titular da pasta) e cuja imagem de marca, comentava-se nos circuitos socialistas antes ainda da tomada de posse, era a incompetência.
Escolheu-a e manteve-a, mesmo que após Pedrógão não tivesse quaisquer condições políticas para continuar. Graças à sua cobertura, os meios de combate aos incêndios foram reduzidos de forma drástica quando vinham aí condições meteorológicas extraordinárias. O sangue de mais de 100 portugueses está nas suas mãos e nenhuma das suas lágrimas o conseguirá limpar.
Relativamente à Esquerda, sempre tão gulosa a aproveitar as crises, [Read more…]

Um gesto vergonhoso

O Tondela anunciou hoje que o pedido que dirigiu à Belenenses SAD para adiar o jogo marcado para o próximo domingo num dos concelhos mais fustigados pelos incêndios foi recusado. Fico a torcer por uma vitória não apenas moral do Tondela, mas com muitos golos na baliza adversária.

A ministra que saiu depois das primeiras chuvas

Foram precisos mais de 100 mortos para que se reconhecesse que o Estado está em cacos. Todos os que ao longo dos anos foram cortando nas bases do Estado e que foram metendo boys de confiança política nos cargos, em vez de gente escolhida pela competência técnica, mostram-se agora escandalizados pela situação que criaram. Todos os que puderam fazer e não fizeram, desde a oposição até ao governo, tiveram o poder para mudar, mas procrastinaram. E, alguns, como Assunção Cristas, que se faz de esquecida, até pioraram o que existia. Nem rezar para que chova, tal como disse uma vez Cristas perante os incêndios no seu mandato, chega, nem manobrar politicamente sem agir, como fez Costa, nada resolver e, pior, deixa espaço aberto para a desgraça.

O governo de Costa teve sorte com o crescimento do turismo, que lhe permitiu expulsar os demónios económicos, e teve azar com o clima, que catalisou os incêndios. Se fosse outro governo que estivesse no seu lugar, nomeadamente o anterior, teria tido a mesma sorte e o mesmo azar. Teria tido o banho de crescimento económico, permitindo-lhe vangloriar-se do sucesso das suas políticas, quando em causa está a conjuntura internacional, e estaria agora em cheque devido aos incêndios, com a oposição a reclamar razão face ao efeito dos cortes. Mas a situação é outra e é este governo que está a responder.

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A eucaliptización de Galicia

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Rafa Quintía

A eucaliptización de Galicia acontecida dende os anos 50 é unha das maiores catástrofes ecolóxicas que ten sufrido Europa nos último século, comparable á desecación do Mar de Aral, á deforestación de Madagascar ou á destrución da Amazônia. A completa transformación da nosa paisaxe e xeografía, a destrución dos noso hábitats naturais e dos nosos ecosistemas é unha perda de incalculable valor para a Humanidade.

Hoxe dicía, nunha entrevista que me fixeron no programa Diario Cultural da Radio Galega, que para os aborixes australianos a súa paisaxe e os seus bosques de eucaliptos formaban parte da súa cosmovisión e dos seus mitos de creación no Tempo dos Sonos. Pero para os aborixes galegos os matos de eucaliptos pertencen ao Tempo dos Pesadelos e da destrución do noso patrimonio e dos hábitats naturais e culturais sobre os que construímos a nosa cosmovisión como pobo.

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E Marcelo disse…

MARCELO REBELO DE SOUSA 2012“Abrir um novo ciclo obrigará o Governo a ponderar o quê, quem, quando e como melhor serve este ciclo” – Professor Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República.

O Presidente da República disse aquilo que qualquer um de nós queria dizer. E isso significa que Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, está dotado de algo cada vez mais raro na nossa política: bom senso.

 

Vai-te embora, cabrão.

Disse-o há 2 anos e repito-o hoje e as vezes que forem precisas: Costa é bem mais desonesto que Sócrates. Pode “não meter para a blusa” como o Engenheiro, mas, politicamente, é muito mais mentiroso, falso e trapaceiro. É o rei do embuste.

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Os portugueses e o fogo

Excerto de um livro do holandês Gerrit Komrij (que viveu em Portugal). Em 1996, escreveu: “A cada Verão que passa, os políticos prometem fazer finalmente alguma coisa e, cada Verão, a coisa arde com violência acrescida.” 1996!

Mapas e desinformação

_incendiosNelson Zagalo

Para compreender o descalabro da desinformação que acontece quando não há Sistemas de Informação e Comunicação no terreno e com equipas preparadas para triar rapidamente o que vai sendo veiculado, fica aqui uma imagem que foi massivamente partilhada, chegando a surgir em vários orgãos nacionais de comunicação social.

A imagem de cima não é falsa, o problema é que não diz respeito a Incêndios ativos na Europa. Inicialmente tinham-me passado a informação de que seria um mapa de Previsão (forecast) de zonas de incêndio, mas essa informação não se confirmou. Não consegui ainda confirmar o local de extração do mapa, contudo ele parece surgir a partir da simulação dos últimos 7 dias passados no EFFIS, tendo depois sido tratada em termos contraste de cor para garantir melhor visualização das manchas de fogo.

Mas, abaixo têm a imagem dos fogos verdadeiramente ativos na Europa, entre 15 e 16, e pode ver-se a diferença abismal do que aconteceu realmente na Europa e em Portugal e na Galiza.
Falta sistemas de Comunicação efetiva às populações que possam garantir informação triada, segura, e evitem os alarmismos como os que foram acontecendo um pouco toda a noite.

PS2: Entretanto adicionei um novo mapa nos comentários com o cruzamento das informações do EFFIS com as Notícias de Incêndios veículadas pela comunicação social europeia, e o mapa reforça o enfoque no Centro e Norte de Portugal assim como Galiza (link direto: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10155063977618602&set=p.10155063977618602&type=3&theater).

FONTES:

O primeiro mapa anda a circular na rede, não se conhece a origem em concreto, mas acredita-se poder ser também do EFFIS mas relativo aos 7 dias passados, depois alterado em cor e contraste para tornar mais visível os focos de fogo durante 7 dias.
O segundo mapa, do EFFIS, diz respeito apenas a 15/16 Outubro 2017.

Texto politicamente incorrecto

Na SICn o tema da noite é a “falha do Estado”. O que é curioso é que esta gentinha confunde Estado com Governo de um modo que está longe de ser inocente. Chegaram ao ponto de tentar que Pacheco Pereira afirmasse que Portugal era um “Estado falhado”! Claro que o sr. José – dotado de mais neurónios que o par de entrevistadores juntos – não foi na conversa e deu-lhes uma palmada no ego. Mas o tema atravessa a noite. Os convidados especiais estão, na sua maioria, na onda. O presidente da Câmara de Viseu bradava contra a falha do Estado, como se o Estado fosse uma entidade longínqua e com a qual ele próprio nada tivesse. Tem! Ele é Estado também e tem obrigações. Ele e todos os autarcas. E, por muito que isso seja doloroso, é bom que alguém, tarde ou cedo, dê um murro na mesa e pergunte pelas responsabilidades dos que, nas suas terras, têm obrigações a que muitos se furtam sistematicamente para não perder a popularidade e os votos. Essas obrigações estão claras na lei e são, em tantos lugares, sistematicamente incumpridas por acção ou omissão. Elas são descritas no famoso relatório da comissão independente, mas não se fala nelas para que não se pense que se está a culpar as vítimas de que alguns autarcas se fazem lídimos representantes, tentando esconder a sua parte da responsabilidade. Compreendo, mas não aceito. Como compreendo o embaraço dos partidos e governantes em tocarem neste assunto. Por isso aqui deixo esta palavra. Por ela só eu respondo. Sim, os governantes têm mais responsabilidade – eu não digo culpa – do que afirmam os seus representantes. Mas quem autorizou o fogo de artifício dos srs. padres não deve ter sido nenhum ministro. Para citar um micro-exemplo…

A antiga casa do guarda florestal ainda não ardeu este ano

Há muitos anos, ainda Vila Real de Santo António tinha um parque de campismo onde era possível passar uma semana agradável no Verão, ardia outro parque de campismo no Algarve, que isto de incêndios não é de agora, apesar de ter piorado. Um cavalheiro com idade para ter netos tinha deitado à minha frente uma beata de cigarro para o chão, ainda acesa, ali mesmo no meio do parque, abundante de caruma e pronto para um belo incêndio. Chamei-o à atenção, até porque se aquilo ardesse seria a minha preciosa tenda canadiana que se perderia. O que eu fui fazer. Só não houve porrada porque o cavalheiro, ao contrário de mim, era pessoa educada. 
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“Os políticos não se educam, pressionam-se”

Fotografia LUSA/Paulo Novais

Uma expressão como “época de incêndios” poderia ser cómica, não fosse enorme a tragédia. Faz tanto sentido como “época de inundações”, como se houvesse uma obrigatoriedade de haver fogo e água por toda a terra, dentro dos períodos respectivos, como se tudo, no fundo, fizesse parte de um planeamento. São expressões que transformam probabilidades em inevitabilidades e que são o retrato de um país ou de um mundo por civilizar.

O professor Jorge Paiva, um especialista em floresta, ao contrário de gente mais mediática e sem vergonha, anda, há anos, a chamar a atenção para vários problemas que poderão estar na origem dos fogos, nomeadamente a falta de guardas florestais. [Read more…]

“As comunidades têm de se mostrar mais resilientes”

Não sei se está a decorrer algum concurso que tenha por objectivo premiar a frase mais idiota do Ministério da Administração Interna. Se sim, o campeonato está renhido. Depois do secretário de Estado, e colocando a hipótese de o contexto poder dar outro sentido à declaração, esta frase da ministra reúne condições para alcançar uma belíssima classificação.

Passos Coelho e Luís Montenegro sentem o (des)prestígio, alcançado a duras penas, a ser posto em causa. Há gente que, calada, poderia chegar a poeta ou mesmo gravar um disco.

“Não podemos ficar à espera dos bombeiros para nos resolverem os problemas”

E não podemos ficar à espera do Secretário de Estado da Administração Interna para ajudar a prevenir os incêndios, nem para os apagar. Por isso, mais vale libertá-lo das suas obrigações e usar o dinheiro que se poupa no seu salário para arranjar mais guardas florestais e mais bombeiros. Estes sim, ajudam perante o problema dos incêndios.

Num dia de pandemónio e de incapacidade de resposta é preciso ter lata para sacudir a água do capote desta forma. Encontre a porta de saída, sr. Jorge Gomes, e se tiver dificuldade​em a achar, que lhe seja indicado onde é que ela fica.

[Recorte]

E a Espanha ali ao lado


E entanto, Espanha, mais quente do Portugal, arde menos.
Adenda: parece que a informação divulgada pelo jornal i, aqui citado, não está correcta.

Floresta?

É um pedaço da estrada Nacional 103, ali para os lados de Forjães, Vila Cova e Feitos, entre Viana do Castelo e Barcelos.
Há cerca de quatro anos, um grande incêndio libertou o terreno de muitos dos seus eucaliptos e outras árvores deixando para o incêndio do Verão passado a tarefa de aniquilar totalmente qualquer árvore remanescente.
No terreno assim purgado de quaisquer outras formas de vida, e à vista de todos, floresce agora um viçoso e perenifólio eucaliptal, palavra que em Portugal quer dizer “floresta”.
À falta de melhor, é o que temos. É isto uma floresta?

Mapa de incêndios – Protecção Civil

Página da Protecção Civil: www.prociv.pt/pt-pt/SITUACAOOPERACIONAL

É um panorama desolador. À hora de escrita deste post, existem 90 incêndios, envolvendo 3999 operacionais, 1164 meios terrestres e 23 meios aéreos. É o calor? A ausência de prevenção? Operacionais pouco preparados? Os eucaliptos e os pinheiros? Crime? De tudo um pouco será, certamente. Mas algo de muito errado se passa no país. Basta um ar quente para tudo arder. Um dia sobrarão as cinzas e, então, teremos um Verão calmo.