A guerra começa aqui

O dia em que Ignacio Robles disse “não” parecia igual aos outros todos. A corporação foi chamada ao porto de Biscaia para uma operação de rotina: verificar as condições de segurança no carregamento de mercadorias perigosas. Os bombeiros não são pagos para fazer perguntas, mas Ignacio, num daqueles momentos que parecem banais, mas que se ampliarão na memória por muitos anos, perguntou o que havia nas caixas que iam ser transportadas para a Arábia Saudita. E responderam-lhe. Eram bombas. As que provavelmente cairiam sobre o Iémen daí a umas semanas.

Ignacio disse que não era capaz. Lembrou que, como bombeiro, a sua missão era proteger a vida e que não podia ser chamado a participar num acto que conduziria à morte de civis. Pediu que o dispensassem do trabalho. Não houve problemas. Um mês depois soube, pelo jornal, que lhe tinha sido instaurado um processo disciplinar que, no limite, poderia levar a uma suspensão de 3 a 6 anos, sem remuneração. E caiu-lhe o mundo aos pés.  

Um ano depois, o processo está em tribunal e Ignacio, o “bombeiro insubmisso”, ainda não sabe que vai acontecer. Tem recebido o apoio de muitas pessoas, é aplaudido à porta do tribunal, e a sua história chamou a atenção para a indústria do armamento no País Basco, mas não está claro qual será o preço pessoal que ele e a família terão de pagar pelo seu gesto.

Ignacio Robles não impediu o carregamento, a sua pequena força de homem não foi suficiente para impedir que as bombas zarpassem para a Arábia, mas a sua desobediência lançou um feixe de luz sobre esses contentores que até então nunca haviam saída da sombra.

Vários grupos antimilitaristas juntaram-se, entretanto, na comissão “La guerra empieza aquí” que pretende realizar um documentário sobre a indústria da guerra no País Basco (financiada por dinheiros públicos e pela banca) e que está, nesta fase, a reunir apoios de voluntários que ajudem a financiar o projecto.

A morte que lamentamos a cada noite frente aos telejornais sai das nossas fábricas, contribui para o nosso PIB, enriquece alguns dos nossos mais respeitáveis empreendedores. Acontece lá longe, contra a nossa vontade, apesar da nossa vergonha e do nosso lamento, e nada podemos fazer contra ela porque somos únicos, ínfimos, impotentes.

Ignacio Robles, minúsculo elo, libertou-se da engrenagem.

Comments

  1. Bento Caeiro says:

    O grande problema que sempre se pôs ao homem, é que é um ser que logo que tomou consciência de si, abriu uma guerra em duas frentes: contra si próprio e contra o ambiente. E, o mais surpreendente é que, neste momento, já tem plena consciência que são guerras que não vai ganhar; porque, por paradoxal que nos pareça, se ganhasse também perdia. Contudo, pouco ou nada faz para resolver este dilema – como se vê por esta corrida ao armamento e pela destruição, pelo seu modo de vida, do meio ambiente onde vive. Encurralado pela sua estupidez – avidez, corrupção, poder – corre sofregamente em direcção ao abismo e, como tudo indica, apesar dos avisos, não vai parar a tempo.

    • Nuono Bacelo says:

      O pior disto tudo, é que a humanidade anda a gastar rios de dinheiro para descobrir planetas com a semelhança do planeta terra. Não seria mais inteligente gastar muito menos dinheiro a preservar o NOSSO PLANETA PRIMEIRO?

  2. Antonio Medeiros says:

    Agradeço a fineza de publicar esta acção imunda dos grandes homens da nossa era. Mentes criminosas que adoram culpar uns e admirar outros envolvidos na Segunda Guerra e,às escondidas,praticam estes crimes horripilantes.Admiro muito a coragem deste homem que ainda tem coração, pai mãe,filhos e irmãos espalhados por este mundo.

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