A queda da Casa Golden

 

Sagas familiares são um tema comum na literatura. O declínio de uma família que acompanha o declínio de uma sociedade também não constitui novidade. Dos Maias aos Buddenbrook passando pelos Karamazov, cada geração tem a família que merece – e o respectivo declínio. A nossa, aparentemente, merece os Golden e felizmente fez algo de bom para merecer Salman Rushdie como cronista.

A Casa Golden (The Golden House em inglês) parte da narrativa de um aspirante a cineasta nova iorquino, nascido numa família de humanistas que simbolizam tudo aquilo que de bom havia no mundo pré 11 de Setembro. A tolerância, a fraternidade, o secularismo, a crença no progresso, valores que Rushdie considera basilares e universais. Sendo universais, todavia, são também – e especialmente – americanos. Foi nos Estados Unidos que Rushdie encontrou o apoio necessário na sua batalha contra o fanatismo e o ódio. Como gesto de agradecimento, tornou-se cidadão americano.

A Casa Golden pode ser lida como uma elegia a uns Estados Unidos que apaixonaram Rushdie, que o salvaram, mas que estão agora a desaparecer. O aspirante a cineasta envolve-se com os Golden, uma família originária de Bombaim, cujo pai, uma figura maior do que a própria vida, emigra para os Estados Unidos com os três filhos para se escapar a um difuso e nebuloso passado de crime e negócios obscuros. Os Golden, tanto o pai como os filhos, tão suis generis como o patriarca, são aceites em Nova Iorque como se lá tivessem nascido, e a cidade encontra forma de os enquadrar na sua tragédia – a tragédia da cidade, do país e, finalmente, da família e do indivíduo.

Esta é, portanto, uma história de emigrantes. Ricos e pobres que acabam nos Estados Unidos à procura do elusivo Sonho Americano, alcançável para uns e impossível para outros. Mas este não é o fim da História. Tendo conquistado o Sonho, os Golden acabam por perceber que, afinal, a América não é o que era antes, e que o Novo Mundo não carrega consigo o rejuvenescimento que esperavam. A fuga, neste caso, não resulta. Quase resultou, quase. Mas quando um Joker de cabelo verde aparece a anunciar que a verdade é irrelevante, que os factos já não interessam, quando a tolerância e a fraternidade universalista estão a desaparecer, os Golden também desaparecem. A cidade que os acolheu, que acolhe os bons e os vilões, está a purificar-se e deixou de ter espaço para os inbetween, para a complexidade, para tudo o que é cinzento, tudo o que com orgulho assume posições de moderação. Entrámos numa Nova Era de Extremos.

E é a partir dela que Rushdie constrói uma narrativa que se lê com entusiasmo. Se às vezes é pouco subtil na sua abordagem é somente porque tem muita coisa a dizer, e recusa o silêncio.

Comments


  1. Felicito este seu post, Daniela, obrigada, que me deixou com vontade de procurar e ler este livro do S. Rushdie, de tema tão premente e actual, sim.