A queda da Casa Golden

 

Sagas familiares são um tema comum na literatura. O declínio de uma família que acompanha o declínio de uma sociedade também não constitui novidade. Dos Maias aos Buddenbrook passando pelos Karamazov, cada geração tem a família que merece – e o respectivo declínio. A nossa, aparentemente, merece os Golden e felizmente fez algo de bom para merecer Salman Rushdie como cronista.

A Casa Golden (The Golden House em inglês) parte da narrativa de um aspirante a cineasta nova iorquino, nascido numa família de humanistas que simbolizam tudo aquilo que de bom havia no mundo pré 11 de Setembro. A tolerância, a fraternidade, o secularismo, a crença no progresso, valores que Rushdie considera basilares e universais. Sendo universais, todavia, são também – e especialmente – americanos. Foi nos Estados Unidos que Rushdie encontrou o apoio necessário na sua batalha contra o fanatismo e o ódio. Como gesto de agradecimento, tornou-se cidadão americano.

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Salman Rushdie em Óbidos

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Momento alto e totalmente casual de uma visita a Óbidos, onde decorre o Festival Literário Internacional de Óbidos (Folio): o evento com Salman Rushdie (ainda com a cabeça a prémio por 4 milhões de dólares),  para um público de mais de 400 pessoas, maioritariamente jovens (lotação esgotada).

Sem qualquer pretensiosismo e com um notável e saudável humor, Rushdie não falou apenas de literatura, do “maravilhoso” mundo do facebook – esse mundo cor-de-rosa no qual confessar que não se está bem é quase obsceno -, do recrudescimento inesperado da religião e das formas que assume (IS, hinduísmo na Índia…), mas vai dizendo coisas lapidares como: “we are living in a dark age (…) this is the worse time that I remember” e denuncia os “falsos profetas” (Marine Le Pen, Trump, Boris Johnson…), cujo discurso é muito similar aos que foram proferidos  “da última vez”… mas sublinha: “history is not inevitable, history is not running on tram lines”.

Ou seja, o rumo da história depende também de todos nós, juntos.

O blasfemo e o herege

Vamos lá ver se eu percebo isto…

No próximo dia 30, pelos vistos, alguns ou muitos irão reclamar o direito à blasfémia.

Um deles é, seguramente, Salman Rushdie, “homem sem fé, blasfemo aos olhos do Islão, reclama para si o «direito à blasfémia»”. Volta a entrar em cena com o lançamento do seu novo livro, autobiográfico, Joseph Anton.

O blasfemo diz blasfémias. A blasfémia, por seu turno, é “toda a palavra ou atitude injuriosa contra Deus, a Santíssima Trindade ou os Santos; atribuição de defeitos a Deus ou negação de qualquer dos Seus atributos”.

Algumas blasfémias para o Islão: representar o profeta, associar o profeta ao demónio, tornando-o seu emissário, “como acontece em Os Versículos Satânicos“, entre outras.

Ora o herege é “o cristão baptizado que, de modo pertinaz, nega ou põe em dúvida algumas das verdades da fé católica”.

Ora o meu dicionário de Sinónimos diz que blasfemo e herege são sinónimos… Estou a ficar confusa.

Na minha humilde opinião, o herege – teimoso, obstinado, tenaz – parece-me (parece-me) mais confiável. Digo isto pensando em Nicolau Copérnico, por exemplo. [Read more…]