O dia em que o polvo autárquico tremeu

via Expresso

Durante a manhã de ontem, a PJ efectuou cerca de 70 buscas na zona de Lisboa, tendo por alvos a sede concelhia do PS, a sede nacional do PSD, a sede da comissão distrital do PSD, os serviços centrais de Urbanismo da CML e três freguesias governadas pelo PSD: Areeiro, Santo António e Estrela. Outras buscas, que se estenderam a outras geografias, visaram ainda instalações partidárias e escritórios de advogados.

Em causa estão suspeitas de crimes de corrupção passiva, tráfico de influência, participação económica em negócio e financiamento proibido. Segundo o MP, citado pelo Expresso, “Um grupo de indivíduos ligados às estruturas de partido político, desenvolveram entre si influências destinadas a alcançar a celebração de contratos públicos, incluindo avenças com pessoas singulares e outras posições estratégicas”.

No centro do furacão parece estar Carlos Eduardo Reis, conselheiro nacional do PSD e ex-presidente da JSD de Braga, que segundo a revista Sábadocontrola várias empresas que ganharam inúmeras adjudicações directas de autarquias controladas pelo PSD e também pelo PS.” E não é a primeira vez que ouvimos falar destas três freguesias laranjas, que muitos milhares de euros têm dado a ganhar a empresários com cartão de militante do PSD.

No final da tarde, o Expresso citou um despacho do Ministério Público que “aponta para teia de corrupção autárquica no PSD“:

Os magistrados do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa do caso “Tutti-Frutti”, que levou a buscas a sedes partidárias e autarquias esta quarta-feira, estão a investigar a atuação de um grupo de dirigentes e militantes, todos ligados a estruturas sociais-democratas desde os tempos da JSD.

Entre eles está Luís Newton, presidente da junta de freguesia da Estrela e do grupo parlamentar do PSD na Assembleia Municipal de Lisboa; Carlos Reis, conselheiro nacional do PSD e ex-líder da JSD de Braga, que se tornou empresário e fornecedor de muitas autarquias, sobretudo do PSD.

Desengane-se, porém, quem acredita que este é um fenómeno circunscrito à capital ou à São Caetano à Lapa. A corrupção autárquica, uma realidade que muitos teimam não ver ou, pior, encarar com naturalidade, é feita de recursos públicos, que são de todos, mas que alguns autarcas, indignos da função que ocupam, insistem em colocar nas mãos dos seus amigos e colegas de partido, independentemente das consequências que tais decisões possam imputar ao erário público e aos mais elementares valores democráticos. O fenómeno não é novo, é transversal a praticamente todo o mapa autárquico nacional, e os ajustes directos apenas vieram facilitar o processo. Um cancro que corrói o país por dentro.

São muitos milhões de euros, que deveriam ter como beneficiária a população de cada autarquia, mas que são literalmente redireccionados para pagar favores de campanha, garantir empregos para o futuro pós-político, pagar lealdades com tachos e avenças e favorecer determinados interesses como decisões que terão o devido retorno no médio prazo. Quem sabe na eleição seguinte, para minimizar o impacto da factura das bandeiras e dos blocos de notas, que todos sabemos que as contas dos grandes partidos tendem para andar no vermelho. O PS que o diga!

Sonho – dificilmente poderei almejar a mais – com o dia em que TODO este lixo político-partidário estará atrás das grades. Corruptores, corrompidos e colaboracionistas. TODOS. Sem penas suspensas. O caso de Lisboa, que ontem marcou a actualidade política nacional, deve ser escrupulosamente investigado e esclarecido. Caso se comprovem as suspeitas do MP, não podem haver contemplações. E é tempo de dar o necessário poder à Justiça e às várias forças policiais, para que possam trabalhar sem interferências, pressões ou medo de represálias das máfias que operam no interior de alguns partidos e outros grupos de interesse. Não só em Lisboa, mas em cada um dos 308 municípios portugueses, para estancar de uma vez por todas a sangria de dinheiros públicos para os bolsos das clientelas partidárias. De outra forma estaremos a abrir (ainda mais) o caminho para a tão em voga ascensão de populistas. E já é tempo de colocar um ponto final no financiamento de parasitas.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Na realidade PSD e PS “construíram” cada um deles per si, e os dois em conjunto, ao longo dos últimos 44 de democracia, um verdadeiro Polvo, no qual as autarquias são um dos braços com as suas ventosas a puxar o alimento para a sua boca faminta. Quando a coisa começa a ficar confusa e parece que vai dar para o torto, ambos lançam aquele liquido escuro sobre a espuma dos dias, ficando tudo turvo, confuso, sem que nos apercebamos da verdadeira dimensão da tragédia. Entretanto a Justiça, pela mão do MP vai agitando mais as águas, num permanente remoinho de águas turvas, fingindo andar à caça ao Polvo com arpão em vez de gaiolas, que é assim que se caça o dito molusco. Eu chama a isto fingidores, mas nunca por nunca pescadores. Até porque no final, o arpão não traz nada.
    Só quando somos resgatados e nos vão ao bolso de forma agressiva e despudorada, é que nos apercebemos que fomos engolidos pelo Polvo.
    Aí, já é tarde!

    • César Sousa says:

      O MP lança os “cofos” no mar e depois vai recolher os polvos.
      Acontece que depois, na lota , aparecem por lá uns “IVOS” cravos,rosas ,malmequeres ,etc.que sabotam o trabalho da investigação.

  2. É uma seca. says:

    Não !!
    Não pode ser !
    A rapaziada do PSD e do PS são corruptos? Não!
    Nas Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia!?
    Pode lá ser…!


  3. ” … é que nos apercebemos que fomos engolidos pelo Polvo ”

    / pois que a mim nunca me enganaram, que NUNCA votei nessa gente PS/PSD !!….só que tb me valeu de pouco !

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