Depois admirem-se!

Foto: pictura alliance/dpa; Merkel, Seehofer e Nahles

O país está parvo. “Inacreditável”, “incompreensível”, “inaceitável”, “fantochada”, “uma farsa”, é o que se ouve sem cessar da maioria dos cidadãos e de grande parte dos seus representantes políticos.

Resumidamente, a inconcebível história (ainda por finalizar) é a seguinte:

26 de Agosto: Em Chemnitz, na Saxónia, (leste da Alemanha) um cidadão alemão de 35 anos é esfaqueado até à morte numa briga ocorrida durante um festival de rua. Os suspeitos, dois refugiados (um sírio e um iraquiano) são detidos.

Foi isto pretexto para a extrema-direita, que nesta região da ex-RDA tem a sua principal sede, desatar a atacar em manifestações violentas pessoas com aparência estrangeira. O número de manifestantes de extrema-direita e a rapidez com que se reuniram contrastou com a suspeita incapacidade da polícia (já pelo insuficiente número) de reagir à altura.

28 de Agosto: Merkel condena publicamente o acontecido: “O que se viu em Chemnitz não tem lugar num país onde prevalece o Estado de Direito. Temos imagens de pessoas a serem perseguidas, de gangues de manifestantes, demonstrações de ódio nas ruas. Não consigo salientar suficientemente que isto é incompatível num Estado de Direito. Referindo-se a um vídeo em que se viam dois homens estrangeiros a fugirem de perseguidores, Merkel classificou as perseguições como “caçadas coletivas”.

1 de Setembro: Quatro manifestações em Chemniz. 8.000 adeptos da extrema-direita/neonazis saem à rua. Protestando contra ela, 3.000 pessoas. A polícia, desta vez, a postos. 18 feridos e 37 detidos. Ataque a jornalistas.

3 de Setembro: “Nós somos mais” – Concerto ao ar livre em Chemniz, contra a extrema-direita e a xenofobia – 65.000 pessoas.

7 de Setembro: Hans-Georg Maaßen, director do serviço de inteligência alemão (Gabinete Federal de Defesa da Constituição, BfV), contradiz Merkel, minimizando os protestos xenófobos e a violência de extrema-direita em Chemniz – afirmando que não tinha “informações fiáveis sobre quaisquer “caçadas” terem acontecido” em Chemnitz e questionando a veracidade dos vídeos que mostravam pessoas a correrem atrás de imigrantes nas ruas da cidade, afirmando que poderiam ser “fake news”. O ministro do Interior, Horst Seehofer (CSU), vem a público defender Maaßen.

Entre 12 e 17 de Setembro: A polémica aumenta. Maaßen volta atrás, afinal as imagens são verdadeiras. Vários partidos da oposição e o SPD, que integra a coligação no governo (CDU, CSU e SPD), exigem a demissão de Maaßen. A tensão na coligação aumenta. Uma reunião de urgência entre Merkel (CDU), Andrea Nahles (líder do SPD) e Seehofer (líder do CSU) acaba sem resultados e uma nova reunião é marcada para 18 de Setembro.

18 de Setembro: Ao fim de várias horas de reunião, um comunicado anuncia o compromisso alcançado: Maaßen é demitido do BfV; mas é destacado para outro posto no ministério do Interior, ficando sob a tutela de Seehofer. Uma vitória política para o ministro. Como secretário de Estado no ministério do Interior, Maaßen acaba assim por ser promovido e o seu salário mensal aumentado em 2.505,30 Euros. Para aquecer mais ainda a situação, Seehofer despede do seu ministério Gunther Adler, do SPD, para possibilitar a entrada de Maaßen.

A consternação e indignação são generalizadas. Comentário do Ex-líder do SPD, Sigmar Gabriel: “Se a deslealdade e a incompetência no cargo passam a ser recompensadas com saltos de carreira, Horst Seehofer tem a chance de se tornar secretário-geral da ONU. Isto é uma loucura.”

Nahles, sob o fogo cerrado do seu partido, vem explicar que Seehofer ameaçou romper a coligação se Maaßen fosse despedido e que não estava disposta a que uma questão ao nível do pessoal impossibilitasse a governação (o fracasso da coligação significaria muito provavelmente a realização de novas eleições).

Pois bem. Este resultado é tão absurdo, que demonstra à evidência o que de mais podre há na política, provocando a descrença até nos cidadãos mais sensatos e empurrando para as garras do AfD (o partido da extrema-direita) os que já tinham tendência para o populismo. Tudo isto porque Seehofer está decidido a atacar Merkel por todos os meios – ele que está em perigo de perder o cargo depois das eleições regionais da Baviera, em 14 de Outubro próximo. Por sua vez, Merkel não quer arriscar uma ruptura com o “partido irmão”, em especial em véspera das eleições regionais. Porém, a falta de uma resposta enérgica é interpretada por muitos como fraqueza da chanceler. Por seu lado, Nahles está sob enorme pressão dentro do partido, devido aos fracos resultados eleitorais e à rejeição, por cerca de 40% dos membros, de participação do SPD na actual coligação. Claro que depois desta fantochada, a última sondagem apresenta resultados ainda mais baixos. O AfD, pelo contrário, passou a segundo maior partido.

Encostada à parede, Nahles escreveu ontem a Merkel e Seehofer apelando a uma reconsideração da decisão: As reacções em larga medida negativas da população mostram que nós nos enganámos. Minámos a confiança, em vez de restabelecê-la. Isso deveria ser para todos nós motivo para fazermos uma pausa e repensarmos o que foi acordado” escreve a líder do SPD”. E declara: “Manifestamente, é incompatível com o sentido de justiça de muitas pessoas que o Sr. Maaßen, embora demitido como resultado de seu trabalho, seja simultaneamente promovido noutro cargo”.

Mas em que planeta vive esta gente que nos governa??? Não entra pelos olhos adentro de qualquer pessoa que isto é inadmissível??? Como é possível que nem sequer se apercebam de que uma promoção não é uma punição e que se alguém não é competente para um cargo, por declarações que o aproximam da extrema-direita, também não o é para outro cargo de alta responsabilidade?

Merkel anunciou ontem que o caso vai ser reconsiderado este fim de semana pelos três líderes, procurando-se uma “solução viável”.

Seja qual for o resultado, a credibilidade da política está de rastos e não admira. E o governo está por um fio. É assim que se reforça a extrema-direita.

 

Comments

  1. JgMenos says:

    Sem dúvida que qualquer ameaça ao politicamente correcto esquerdalho/parvo só pode ser punido com a perda de emprego, à falta de uma justa incineração pública.
    Se há um vídeo de dois tipos a correr atrás de um gajo mais escuro só pode ser xenofobia, racismo, neo-nazismo, e provavelmente algo de muito pior que não me ocorre de momento.

    Quanto aos suspeitos do esfaqueamento, será necessário ponderar se não será a falta de assistência no seu esforço de integração na cultura germânica que os terá levado a transportarem os talheres para uma concentração pública. Coitados!

    • Paulo Marques says:

      Uma mentira descarada é uma “ameaça ao politicamente correcto”?
      Entretanto, palavras dos reaccionários do burgo sobre a violação no Porto são zero, porque esses eram homens brancos e ela estava nitidamente a pedir – para esse politicamente correcto não dou.

    • Ana Moreno says:

      A sua obcessão esquerda/direita, JgMenos, é doentia. Não sabe pensar sem esquemas, livremente?

      • JgMenos says:

        Quando a esquerda deixar de juntar numa molhada de ‘extrema-direita’ tudo o que sejam as legítimas e razoáveis preocupações de gente comum por alterações do seu modo de vida e da sua tranquilidade por idiotas e liberais solidariedades multiculturais, o registo direita/esquerda pode ser revisto.

        • ZE LOPES says:

          Atenção malta! O JgMenos é o novo DDT (Dono da Direita Toda)! Os esquerdalhos, ou lhe beijam a mão ou terão de assumir as consequências!

        • Ana Moreno says:

          JgMenos, não sei a quem se refere com “a esquerda deixar de juntar numa molhada de ‘extrema-direita’ tudo (…)”. Para lhe mostrar as limitações dessa sua grelha “esquerda-direita”, sempre lhe digo que Sahra Wagenknecht, do partido “die Linke”, também chama a atenção para que “as legítimas e razoáveis preocupações de gente comum” têm de ser levadas a sério.

        • Paulo Marques says:

          “Legítimas e razoáveis”? Ainda me pus a ver o Correio da Manha, mas só vi casos de nativos a matar, roubar e violar. Vai-se a ver e se calhar foram os estrangeiros a obrigá-los, tipo a Ferrostal.

    • Luís Neves says:

      No meu entender um (…) que escreve “esquerdalho” merece tão só levar na cara. No mínimo!

  2. Paulo Marques says:

    Se o SPD não está no governo para influenciar a política social-económica nem a segurança interna, continua a pergunta: querem votos para fazer o quê com eles que a CDU e o AfD não façam?

  3. Ana Moreno says:

    O SPD justifica-se com alguma legislação “mais social”, como a recém aprovada lei das creches, que as torna gratuitas para pais mais carenciados e atribui muitos milhões para melhor qualificação e mais pessoal. Mas governar em coligação significa sempre fazer compromissos (e neste caso muitos) e exactamente por essa falta de capacidade de imposição é que uma forte fracção do SPD era contra a entrada do partido nesta coligação. Isto como argumentação oficial, do ponto de vista do partido. No meu ponto de vista, o SPD traíu (o mais tardar com Schröder) e continua a trair os princípios em que se fundamenta e vai continuar a esboroar-se porque pactua com a TINA. Ainda agora o ministro das finanças, Olaf Scholz, SPD, tomou posição na UE contra a taxa digital. É inacreditável.
    Agora o AfD já não se pode colocar no mesmo nível, Paulo Marques.

    • Paulo Marques says:

      Não estou a comparar o AfD com ninguém excepto Maaßen, e quem prefere mantê-lo e à sua retórica a resolver os problemas dos alemães. O que só abrange o SPD à tangência, visto que, tal como o resto dos “socialistas”, não quer questionar nada do neo-liberalismo. Como dizem aos trabalhadores, habituem-se à sua irrelevância.

  4. Soixante-Huitard says:

    Até que apareça um Jeremy Corbyn : 540.000 militantes tem o Labour pela ultima contagem, (e com as quotas em dia…)

  5. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    O caso vertente é geral em toda a Europa, com mais ou menos “rodriguinhos”, mentiras, mediatismo, mais selfie, menos selfie e engloba-se no avanço generalizado do fascismo. Acabei de ler o texto depois de ter ouvido Richard Zimmler na televisão a propósito do lançamento do seu último trabalho, onde se exprimem, rigorosamente, os mesmos raciocínios.
    As preocupações são, pois, exactamente as mesmas e centram-se na caminhada do fascismo que vem sendo empurrado pelo populismo, o propulsor que faz avançar a mensagem.
    O movimento do fascista da Europa Central e de Leste não é diferente do avanço do movimento fascista que países como Portugal experimenta, onde as perseguições políticas são assunto de jornal e os despejos de muitas famílias para a submissão à “bem aventurada” especulação, transforma portuenses e lisboetas, nomeadamente, em migrantes empurrados para a periferia. A única variante, é que portuense e lisboeta vêm-se transformando em migrantes, dentro do próprio país, empurrado para o vazio por pessoas que eles escolherem…
    Em Portugal, o populismo expande-se pela deglutição popular das palavras que os abutres políticos vão usando: desenvolvimento, modernização, abertura, lucro …, ainda que tudo isso se faça à custa dos direitos dos mais fracos.
    Donde me parece que não teremos que ir à Alemanha ou à Polónia ou à Hungria, ou à Itália para perceber o fenómeno e as contradições dos povos, que se justificam com a sua falta de cultura que os abutres políticos, desde há muitos anos, sob a capa da liberdade e da livre escolha, vêm potenciando.

    Uma palavra para uma frase que aparece no texto:
    “A consternação e indignação são generalizadas. Comentário do Ex-líder do SPD, Sigmar Gabriel: “Se a deslealdade e a incompetência no cargo passam a ser recompensadas com saltos de carreira, Horst Seehofer tem a chance de se tornar secretário-geral da ONU. Isto é uma loucura.”
    Primeiro, para dizer que a consternação e a indignação não são generalizadas, a julgar pelo caminho que a política vem levando que se reflecte no avanço do fascismo. A maioria é que vem escolhendo, via eleições e portanto a maioria NÃO PODE estar consternada. E não chega culpar a falta de cultura das pessoas. É preciso ir à causa de raiz, pois a informação existe e a capacidade de pensar é um dom de qualquer humano normal.
    Falta a vontade e o problema é que esta sociedade se abastardou completamente. Para já só paga os juros do seu abastardamento. A dívida, segue dentre de momentos…
    Segundo, que a ONU está muito mal vista, já todos o sabemos e que escolhe capachos para aparar a política americana (o último é Guterres). também o sabemos.
    Agora, que pensamentos como aquele sejam debitados à natureza por parte de políticos … que aparam o jogo da mesma ONU, é mais uma prova que os populistas estão em todo o lado. Mesmo nas esferas ditas democráticas.

    • Ana Moreno says:

      Concordo Ernesto, mas a frase “A consternação e indignação são generalizadas” refere-se especificamente ao caso Maaßen, que de facto deixou a opinião pública siderada e indignada – o que, como exposto no texto, teve já como efeito um deslocamento para a extrema-direita. É trágico, mas é essa a forma como as pessoas acham que podem manifestar a sua descreça total no que os partidos de centro-direita e os “socialistas” andam a fazer há décadas. Convenhamos que o instrumentário democrático é obsoleto. Tudo muda e progride a velocidade vertiginosa e os mecanismos parlamentares e eleitorais são os dos séculos passados. E nem com 60% de abstenções o número de deputados deixa de ser preenchido seja onde for. Por outro lado, “Falta a vontade e o problema é que esta sociedade se abastardou completamente.” 100%; uma pessoa fica doente no confronto anónimo com os seus semelhantes.
      Quanto ao comentário de Gabriel, a ONU foi escolhida ao acaso, mas também concordo que ele faria melhor em estar calado. Aliás, voltou a atacar ontem, reconhecendo que foram feitos erros em 2015, com a entrada descontrolada de refugiados; mesmo podendo ter razão no conteúdo, em termos estratégicos (e um político tem de ter essa dimensão em conta) é a altura mais disparatada para o vir declarar em público. Mais uma vez, depois admirem-se.

  6. Luís Lavoura says:

    Muito obrigado à Ana Moreno pela excelente descrição deste caso verdadeiramente inacreditável.

  7. ZE LOPES says:

    Até a foto condiz! Não é uma versão alemã do “Trio Admiras-te”?

  8. Ana Moreno says:

    É mesmo, Zé Lopes! Não tinha ainda reparado! 🙂 Está tudo explicado!

    • ZE LOPES says:

      Sim, os autores grande sucesso “Verlobungsring” que começa com a célebre entrada “Die Kirche wurde alles beleuchtet(…). Até me vêm lágrimas aos olhos! É tão lindo!

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