O 69 das reformas

A notícia aparece com declinações diversas. De facto, a encomenda do estudo sobre a sustentabilidade da Segurança Social que propõe que a reformas passem a ser aos 69 anos é da prestimosa Fundação Francisco Manuel dos Santos e não do Instituto de Ciências Sociais, como rezam algumas notícias. O coordenador do estudo pertence, de facto, àquela instituição, mas isso é tudo. De resto, faz aquilo para que lhe pagam, servindo os interesses do encomendante do estudo: criar insegurança e as condições subjectivas que sirvam a gula de bancos e companhias de seguros. Reconhecemos este tom; era o que dominava o discurso do poder durante o governo anterior. Um espécie de terrorismo social em versão português suave que leve as pessoas a comportar-se como os mandantes querem, canalizando as suas parcas poupanças para produtos de aforro privados – para não falar na sonhada via de privatização da própria Segurança Social. A estratégia das alcateias ao atacar rebanhos.

Como me atrevo a ir tão longe nestas considerações sem ser especialista? Não é difícil. É estar atento ao que o estudo diz – as receitas do costume – e, sobretudo, ao que omite – como seja uma mudança estratégica ao nível fiscal, uma abordagem séria do financiamento da Segurança Social. Até lá, ficamos sujeitos à pressão dos estudos que, no nosso país, tantas vezes substituem a razão ou um simples fundamento de legitimidade democrática. Assim, os famosos estudos sempre aparecem do mesmo modo que as estratégias de publicidade: se é necessário vender produtos, não se lhes demonstra o valor objectivamente mostrando-se as suas qualidades; cria-se nos consumidores a necessidade subjectiva de os possuírem, mesmo que isso não lhes sirva para nada. Se se querem obter certos comportamentos sociais e políticos, um das vias é muito semelhante; mas chama-se-lhes estudos. Sempre é outro nível.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    “Curioso número!”
    Terá dito alguém, um dia, com sotaque das ilhas.
    Mas isso é o que menos interessa.
    Agora, ver o José Gomes Ferreira a insurgir-se contra este estudo, deixa-me atónito.
    Quanto aos estudos e aos pareceres, já dizia o Garcia Pereira:
    “dão sempre razão a quem os encomenda e paga”


    • Diz-se da estatística que frequentemente é usada como um bêbado usa um poste — para se apoiar, e não para obter iluminação.
      Creio que o mesmo é aplicável a estes estudos (normalmente baseados em estatísticas).

      • Rui Naldinho says:

        Muito bem observado.
        Eu também costumo dizer que as estatísticas são como os filmes de guerra. Dão sempre a visão de quem produz e financia a obra. Como normalmente as obras são todas de Hollywood, os Norte americanos “ganham sempre sobre os maus”.

  2. Luís Lavoura says:

    Para avaliar da seriedade e correção deste estudo, basta ver que, segundo ouvi esta manhã na Antena 1, ele afirma que a população portuguesa vai decrescer 20% de agora até daqui a não sei quantos anos.
    Ora bem, a população portuguesa nunca diminuiu nos tempos mais recentes, por que raio de razão haveria de diminuir agora? Como é que a população de um país relativamente rico pode diminuir, se tanta gente de tanto país mais pobre gostaria de migrar para ele? É evidente para quem não seja cego que a população portuguesa, o seu crescimento ou decréscimo, serão sempre dominados pelo saldo migratório, o qual tem uma tendência enorme a ser positivo dada a relativa riqueza de Portugal, pelo que, é um total disparate esta previsão de que a população de Portugal irá decrescer.

    • ZE LOPES says:

      Sim, Lavoura! Apoiado!

      Tem V. Exa. toda a razão, até porque ainda não foi contabilizada, por inferência estatística, a breve ( por decreto franciscal) a liberalização dos casamentos de padres e freiras que irão fazer disparar o número de nascimentos, aumentando assim, decisivamente, a taxa de natalidade. Até o Cardeal Patriarca vai, finalmente, ser pai (a última tentativa foi de Cerejeira, a título experimental,mas não deu frutos por manifesta incongruência no que toca à escolha correta do cônjuge. Como dizia a minha avó, “De Santa Comba, nem marido nem pomba”.Mas isso era a minha avó!

    • Paulo Marques says:

      Tendo em conta a diáspora durante a GFC e que estamos nas vésperas de outra pior, não tem nada de surpresa. Nem sequer faltam exemplos da calamidade na Eurolândia.

  3. Paulo Marques says:

    Resta saber se a privatização volta a estar no programa de governo do PS.
    Estou a brincar, claro que vai estar.

  4. JgMenos says:

    «uma mudança estratégica ao nível fiscal, uma abordagem séria do financiamento da Segurança Social»

    Quem diz séria diz assaltar.

    • abaixoapadralhada says:

      Falaram em padres e freiras.

      Aí está ele, o sacrista diocesano !

    • ZE LOPES says:

      Diz, sim! Porque agora até há, digo-lhe, assaltantes bastante sérios. Até têm Ordem e tudo! V. Exa. deve conhecer: é logo ao lado da sua! Sim, da Ordem dos Contabeleiros! Estão lá para cooperar e ajudar! Afinal, anda tudo ao mesmo!

    • Paulo Marques says:

      Para o Menos, ser sério era deixar as pessoas morrer debaixo da ponte depois de estourarem as poupanças com hospitais privados.

  5. Julio Rolo Santos says:

    Porque é que de volta e meia vem á minha baila a insustentabilidade da Segurança social ou da ADSE, contradizendo afirmações anteriores que dizem que estes dois sistemas/subsistemas estão bem financeiramente e que, por isso garantem a sua sustentabilidade por muitos anos. O que acontece é que os governos de volta e meia vão lá mamar na teta e os responsáveis fazem aplicações dos excedentes que, muitas vezes, acabam por se tornarem ruinosos e não ha consequências. Assim não vamos lá.

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