As várias faces de uma “justiça” injusta

ISDS, ICS ou MIC, são apenas várias faces de uma prepotente arma exclusiva para os super milionários que representam 1% da população mundial assegurarem os seus lucros contra os povos e o planeta.

Praticamente ignorada pela comunicação social, decorreu na passada semana, de 1 a 5 de Abril, em Nova Iorque, a 37.a sessão do Grupo de Trabalho III da Comissão das Nações Unidas para o Direito Comercial Internacional (UNCITRAL), cuja tarefa é avançar com a reforma do mecanismo de resolução de litígios investidor-Estado (ISDS).

O ISDS é um recurso exclusivo e superior à jurisdição nacional, à disposição de investidores estrangeiros para processarem e intimidarem Estados através de obscuros tribunais arbitrais – em que três árbitros privados escolhidos pelas partes decidem em sessões secretas e sem possibilidade de recurso –, quando consideram que nova legislação dos Estados é passível de diminuir os seus lucros reais ou expectáveis. Isso inclui desde regulamentação ambiental, até à privatização dos serviços públicos. E a relação é sempre unívoca: nunca um Estado pode recorrer ao ISDS para processar uma multinacional, por maior que tenha sido o dano causado.As profusas e generalizadas críticas a este sistema, tanto por parte da sociedade civil, como de instituições e académicos, acabaram por encontrar eco no Parlamento Europeu (PE), consubstanciado na resolução de 8 de Julho de 2015, em que o PE exigiu – no âmbito do jamais realizado acordo de comércio e investimento com os EUA (Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento, TTIP) – a substituição do ISDS por um novo sistema de protecção do investimento.

Razão que explica porque o acordo UE/Canadá (CETA) já não prevê o ISDS na sua forma “pura”, mas sim um tribunal exclusivo com juízes permanentes (Investment Court System, ICS), sessões públicas e uma instância de recurso. Note-se que aos cidadãos passa a caber, pelo menos em parte, o financiamento do funcionamento de um tal tribunal ao serviço exclusivo de empresas transnacionais, além das custas de defesa e, em caso de condenação, o pagamento de indemnizações multimilionárias às transnacionais. Ou seja, embora com algumas melhorias processuais, na essência, os governos submetem assim os povos a um rombo na sua soberania que ainda está por ser declarado compatível com o direito europeu. Até 30 de Abril deste ano, o Tribunal Europeu (TJCE) pronunciar-se-á sobre essa compatibilidade, a pedido da Bélgica.

Mas a União Europeia quer ir mais longe na expansão e consolidação de um sistema que, com base em direitos exclusivos e de flexível interpretação como a “expropriação indirecta”, “legítima expectativa de lucro” ou “tratamento justo e equitativo”, coloca as multinacionais acima dos Estados soberanos, sobrepondo-se aos sistemas jurídicos dos mesmos e obrigando-os a modificar o seu Direito ou impedirem os Estados de o modificarem.

Munida de um mandato de negociação dos Estados-membros e já com o apoio do PE, a Comissão empenha-se agora na criação do MIC (sigla em inglês do Tribunal Multilateral de Investimento), um tribunal multilateral ao serviço das multinacionais, institucionalizando assim a subordinação do interesse público ao dos investidores privados estrangeiros.

Paralelamente a um trabalho de lobby subterrâneo junto dos países, é precisamente nas sessões do Grupo de Trabalho III da UNCITRAL que a UE trabalha afincadamente para estabelecer essa nova ordem global, em que os povos ficariam, definitivamente, agrilhoados num sistema que atribui privilégios exclusivos e superiores às mais poderosas empresas transnacionais.

ISDS, ICS ou MIC, são apenas várias faces de uma prepotente arma exclusiva para os super milionários que representam 1% da população mundial assegurarem os seus lucros contra os povos e o planeta.

Está em curso a recolha de subscrições para uma petição europeia [1] já com meio milhão de apoiantes, exigindo o fim deste inconcebível privilégio.

[1] Direitos para as pessoas, Regras para as multinacionais: https://stopisds.org/pt

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Não se esqueçam, sair da UE é que é uma irresponsabilidade e só se pode combater o capital dentro da não-federação.
    Mas, no fundo, isso já se passa, qualquer intervenção pública já tem que passar por Bruxelas para não ser “anti-competitiva”.

  2. JgMenos says:

    Não ao investimento estrangeiro!
    Queremos liberdade para regular, atrapalhar, falsear, abocanhar.

    • ZE LOPES says:

      JgMenos! Estou surpreendido! V. Exa. agora é…americano! Que inveja! isto de ser português, oiça. é…hó rrível! Simplasmente hó rrível!

    • Paulo Marques says:

      Vindo de quem quer liberdade para receber residuais de rendas permanentes do estado, parece um elogio.


  3. Ana, sendo assim tão evidente que a UE

    “munida de um mandato de negociação dos Estados-membros e já com o apoio do PE, a Comissão Europeia empenha-se agora na criação do MIC (sigla em inglês do Tribunal Multilateral de Investimento), um tribunal multilateral ao serviço das multinacionais, institucionalizando assim a subordinação do interesse público ao dos investidores privados estrangeiros….”

    eu faço ainda esta pergunta básica e ingénua como se acabasse de chegar de outro planeta :

    ! afinal qual a razão porque a UE teima em proteger com este inconcebível privilégio os interesse das multinacionais e os super milionários que representam 1% da população mundial contra os povos e o planeta. e afinal CONTRA nós os cidadãos europeus ?
    …e a apoiar e reconhecer os juans guaidós deste mundo ?

    Foi para ser assim e em nome de quê que foi criada esta bizarra e absurda união europeia cúmplice com os nossos inimigos ??

    …dá que pensar e dar razão mesmo ao PCP !

    • Nuno M. P. Abreu says:

      Cara Isabela:
      Sinceramente a impressão que formei de si foi de uma pessoa intelectualmente honesta. Mas por vezes a ideologia que me parece professar tolda-lhe um pouco o raciocínio.
      Diga-me lá: como pode uma pergunta básica e ingénua feita por alguém que acaba de chegar de outro planeta falar em teimar, inconcebível, ou juans guaidós? No planeta donde veio só lá chega o Avante? E no Avante não se dá conta da existência de um maduro Maduro ?


      • Sr Nuno Abreu, lamento profundamente o seu comentário inadmissível em alguém que cheguei a considerar de certa maturidade/ cultura/formação, em que levianamente manifesta a sua opinião aqui publicamente sobre a minha honestidade ( ou não ?? ! ) intelectual baseada em suposta ideologia ( para si demoníaca assassina de criancinhas ao p. almoço, não ??? ! ) que supostamente lhe pareço professar como se de uma lepra maléfica se tratasse .
        Comentários destes em tom pessoal não os admito, não caem bem e são incorrectos .
        Em todos os sentidos errou !
        Ainda por cima baseados em conclusões mal elaboradas intelectualmente sobre alguém que não conhece.

        (!!…?? ) . NÃO professo nem NUNCA defendi partidariamente nenhuma ideologia politica tuga, muito menos admito ou tolero rótulos colados a quem as professa .

        Os princípios que defendo são basicamente os de uma boa formação cívica de valores familiares/culturais e sociais de justiça igualdade e liberdade, fruto de quem os detém em sua circunstância genética de tempo e de espaço e de estória de vida .
        Valores universais alguns em retrocesso civilizacional, lamentavelmente.

        Admiro e tenho grande consideração e amizade bonita por pessoas de quem não faço questão de cor partidária e até que, veja só, ” leem o Avante” ! ( sim, e eu por acaso tb gosto de ler ás vezes !! ), pessoas de grande inteligência, honestidade, solidariedade e cultura geral e profissional …. que pertencem a uma elite em vias de extinção !
        Insinuar errada e malevolamente que só no Avante se sabe quem é o “maduro” vendido do gauidó… e outras malfeitorias .. é de rir
        e lamentar !

        ….assim vão ficando pegadas várias e diferentes nestes caminhos do Aventar…..
        que por curiosidade ostenta nome bem parecido com AVANTE !
        )
        Saudações cordiais, avante camaradas, aqui virei até que mais alguém me canse e aborreça de vez de vir até aqui !!!

        • Nuno M. P. Abreu says:

          Cara Isabela:
          Em primeiro lugar, mil perdões. Jamais colocaria um comentário deliberadamente para a diminuir intelectualmente e, sobretudo, como ser humano. Por outro lado tenho uma díivida de gratidão para consigo. Entrei neste blogue por simples acaso. Na procura de uma informação um algoritmo qualquer aqui me conduziu. Por não ser propriamente um expert informático, carreguei numa tecla qualquer que fez chover no meu email todos os artigos publicados no Aventar. Achei piada e comentei. A partir dai estraguei a minha vida. Acabo por ter uma vida ocupada na medida em que dirijo uma revista mensal local que me obriga a contacto semanal com pessoas fazendo entrevistas para além da elaboração de artigos sobre diversas áreas. Naturalmente estes comentários desviam-me desse objectivo. Mas desde logo apareceu a Isabel a interceder por mim junto de Ana Moreno e fiquei sensibilizado.
          Eventualmente sou por vezes dialecticamente duro e estou talvez viciado em acentuar contradições. E foi o que fiz no meu post A Isabela diz fazer uma pergunta, na pele de uma pessoa ingénua, vinda de outro planeta e consequentemente virgem de intoxicação ideológica. E os termos da pergunta revelam tudo menos isso .
          Se afirma que a EU teima é porque conhece a historia e não chegou agora ao planeta
          Se fala em inconcebível privilégio tem opinião já formada e não é virgem de informação.
          Se fala em super milionários que representam 1% da população tem conhecimentos e opinião formada
          Se fala em Juan Guaido que nem sequer integra o contexto do artigo, aparenta ter uma raiva persecutória contra um homem que, bem ou mal ,combate outro homem que para mim é uma figura sinistra dentro do panorama internacional.
          Cara Isabela por mim não se vá embora. Não estarei aqui por muito mais tempo. Mas tenho para mim que é pessoa séria e digna. Limitar-me-ei a lê-la.. Durma Bem.
          PS. Neste mês na revista a página 7 já está formatada. É dedicada ao 25 de Abril que tento que a gente da minha freguesia não esqueça. Conto a historia dos Cravos. Faço uma pequena biografia de Salgueiro Maia. Lembro Zeca Afonso e a Grândola Vila Morena. Dou imagens da chegada de comboio de Mário Soares e de aviao de Alvora Cunhal . Dou uma imagem do primeiro 1º de Maio.
          Não. não gosto de ter rótulo. Mas odeio tudo que é extrema. Com a minha mãe me ensinou: no meio é que está a virtude.


          • Caro Sr. Nuno Abreu,
            Reconheço a sua seriedade.

            E agora avante, camarada !
            Que ” o dia vindo depois da noite, esse o motivo dos passarinhos ” /in Grande Sertão_Veredas / J, Guimarães Rosa

            ….ainda :
            eu gosto muito de falar(escrever) em sentido simbólico, figurado . Mantenho a simplicidade de convívios antigos e fraternais e irreverentemente saudáveis, feitos de uma realidade que não é a mesma complexidade destes nossos dias sombrios….ou nós dela não teríamos verdadeira consciência, crescíamos mais devagar, alegres,felizes, românticos e mais “protegidos” por uma educação rígida e conservadora com seu lado positivo de ingenuidade e manutenção de valores.
            Essa maneira de ser e comunicar ficou em mim, alegria e tb humor sarcástico “montyphyton ” irreverente, nonsense e impiedoso qb, e simplicidade de expor verdades que só algumas pessoas e por ex. as crianças e alguns jovens partilham facilmente .
            Tudo para lhe dizer que qd eu escrevi que vou fazer uma pergunta “como se tivesse aterrado vinda de outro planeta”, era no sentido de querer salientar a crua evidência e absurdo da questão/ pergunta em causa!!

            Não era no sentido de a fazer como se não tivesse conhecimento de nada, compreende ?!

            Não se precipite a tirar conclusões erradas, que já dei conta que não sincronizou inteiramente no que eu quis dizer em outras ocasiões, assim como quando escreve “não gosto de ter rótulo” quando eu não lho coloco, só afirmo que :

            “. NÃO professo nem NUNCA defendi partidariamente nenhuma ideologia politica tuga, muito menos admito ou tolero rótulos colados a quem as professa .”

            e porque nas suas palavras estava a insinuação de conotação com comu….comu…..comunistas …zzzzzzzz….
            qd insinua a minha possível ( e interessante, quantas vezes ! ) leitura do Avante !!
            aonde se insinuava essa suposta rotulagem de “perigosos comunistas” que por aí anda em abondo !

            …… por isso aí lhe enviei o Diácono Remédios como seu possível companheiro de folguedos …e enredos.

            / inté, fique bem, que foi bom ter havido feedback positivo

          • Nuno M. P. Abreu says:

            Cara Isabela:
            A primeira coisa que hoje fiz foi um telefonema a adiar uma entrevista com um jovem de trinta anos que foi despedido injustamente e deu a volta, criando o seu próprio posto de trabalho. A revista tem uma página intitulada cidadania e aí relato histórias deste tipo que me parecem interessantes. E isto porque sinceramente contava que me respondesse e estava um pouco preocupado porque, acima de tudo, respeito os sentimentos genuínos das pessoas, como me parece ser o seu caso.
            Também eu nasci protegido por uma educação rígida, conservadora mas que mantinha valores. Quando tinha quinze anos éramos vinte e um em casa. Onze irmãos, dois pais, dois avós, uma tia avó e cinco tios direitos. Entre eles um padre . Tinha mais uma tia freira que viva num colégio de freiras e um tio “santo” que morrera quando estava mesmo para ser ordenado padre. Era o “ai jesus” da família, aquele que lá no céu cuidava de todos nós. Aquilo era de tal ordem que aos dezoito anos fugi de casa e fui viver para o bairro da lata da quinta da Musgueira que estava a iniciar a sua construção. Hoje tenho uma ligação grande com toda a minha família que, descendentes directos dos meus pais, são mais de cento e vinte e que ainda há dois anos reunimos todos em minha casa aquando do lançamento que levamos a cabo de um livro dos cem anos de minha mãe, já falecida.
            Mas deixemo-nos de lamechices e enfrentemos aquilo que percepcionamos como realidade.
            Cara Isabela:
            Na escrita o importante não é o que queremos dizer com as palavras que usamos. O importante é o que quem as lê veja nelas aquilo que queremos transmitir.
            No seu texto assumiu um papel: o de uma ingénua vinda de outro planeta. A figura da ingénua, uma figura inocente e crédula, era uma figura que me era muita cara quando nos anos sessenta era um viciado em cinema. Amava a Romy Schneider e detestava a Marilyne Monroe.
            Escreve agora : ”Ingénua era no sentido de querer salientar a crua evidência e absurdo da questão/ pergunta em causa Não era no sentido de a fazer como se não tivesse conhecimento de nada, compreende”
            Ou seja, usou o estratagema não para colocar uma questão, não para esclarecer, mas para tornar a sua opinião tão evidente que ela poderia ser subscrita até por uma ingénua. Mas depois o texto que atribuiu à ingénua é um texto mais própria para uma sabidona que conhece os truques para levar a sua avante.
            Foi isso apenas que quis salientar na minha resposta. E dado o tempo em que vivi com grupos dinamizadores de ideologias marxistas-leninistas reconheci-a como prática comum daqueles grupos e limitei-me a fazer a analogia. Sempre no âmbito da “Critica da Razão Pura” de Kant e não do amesquinhamento de qualquer personalidade.

    • Paulo Marques says:

      «! afinal qual a razão porque a UE teima em proteger com este inconcebível privilégio os interesse das multinacionais»

      É a ética protestante do trabalho libertador, o mito dos criadores de emprego e que o estado não pode intervir na economia sem criar hiper-inflação.
      Todas as regras surgiram daí e continuarão, porque as pessoas continuam a não acreditar que chegue.

  4. Ana Moreno says:

    Olá Isabela, “afinal qual a razão porque a UE teima em proteger com este inconcebível privilégio os interesse das multinacionais e os super milionários que representam 1% da população mundial contra os povos e o planeta. e afinal CONTRA nós os cidadãos europeus ?”
    – eu sei que é dificílimo de acreditar, mas pode crer que não há mais nenhuma razão senão a de servir os interesses dos mega lobbies. Nem sequer há prova nenhuma de que a adesão de países a tratados que incluem estes mecanismos contribuam para aumentar o investimento directo estrangeiro nesses países. Mesmo que houvesse, isso não legitimaria a sobreposição dos interesses das multis aos dos estados. Mas é que nem sequer esse é um argumento que possam invocar; é PURA e SIMPLESMENTE quererem vergar-se/vergar-nos a interesses mais poderosos. É inacreditável, também acho. E repare que a grande maioria nunca de tal ouviu falar. É como diz, absurdo.

  5. Nuno M. P. Abreu says:

    Cara Ana:
    Hoje fiquei a saber um pouco mais de si. Gostei do do que ouvi. Tem um ar desempoeirado e uma voz bonita. E fiquei com a sensação que a sua cara me não era estranha. Estou somente a ser sincero porque, nesta idade e nesta fase da vida os únicos likes que valorizo são os dos meus netos.
    Ouvi a entrevista do TROCA de 17 minutos e concordei fundamentalmente com o que ali foi dito. Anotei uma critica do entrevistador dizendo que em Portugal muita gente que nem sequer tem o cuidado de aprofundar o assunto tem sempre dele opinião. Coincide com a minha..
    Naturalmente assinei a petição. É uma coisa com que concordo. Só uma coisa me intriga . Se “são os Estados a outorgar esses direitos e meios especiais, limitando o seu próprio poder legislativo”, como escreve num artigo de 18 de janeiro, porque o fazem? Porque não correm os cidadãos com esses governos?

    PS. A janela do meu gabinete na Mac-Mahon ficava mesmo em frente à entrada para a estação.

    • Paulo Marques says:

      «Porque não correm os cidadãos com esses governos?»
      Europeísmo oblige. Os centristas foram corrompidos com fundos europeus, portas giratórias e, para os que ainda tinham consciência, promessas de reformas ao virar da esquina. Quando muito fazem referendos repetidos. A esquerda é “irresponsável”. Sobrou a extrema-direita com um discurso (de treta) a favor dos cidadãos. Se a começar a fazer algo depois da vitória em Maio, outros países se seguirão a correr os primeiros.

      • Nuno M. P. Abreu says:

        Há mais de cinquenta anos, li Jean Paul Sartre pela primeira vez.. Ia muito comodamente instalado com outro alferes num camarote do Vera Cruz a caminho da guerra, em Moçambique. O livro chamava-se Náusea e, na altura, escolhi-o porque simbolicamente era um antídoto para as náuseas que me diziam ir sentir com os balanços do mar. E na verdade apenas senti uns ligeiros sintomas ao dobrar o cabo que anunciavam ser de esperança, e foi.
        O livro marcou-me. Era o primeiro romance daquele escritor e seguia o realismo de Maupassant em “Bel Ami”. Fala da liberdade de escolha. Se somos inteiramente livres. O livro retrata a época de 1938 quando se preparava a guerra. O personagem principal, Roquentin, tem dúvidas, se deve ou não participar nela. Não sabe se deve abandonar a família para defender a pátria, ou abandonar a pátria e cuidar da família. Quer ser honesto e isento. E como não sabe vai aconselhar-lhe. Com quem? Com o padre ou com o regedor? Mas ao escolher um já estava a escolher a resposta. Se ao padre escolhe a família. Se ao regedor, escolhe a guerra.
        Caro Paulo: Por mais que pareça que quer ser isento, já fez uma escolha. Quando fala em esquerda coloca entre aspas “irresponsável”. Quando fala em discurso da direita classifica-o logo (da treta). Perante isto argumentos para quê! Como refere Damásio, o seu cérebro já esta tão condicionado por marcadores somáticos que qualquer argumento que possa contradizer a ideologia interiorizada é curto-circuitado pelos seus neurónios, sem que disso dê conta.
        Respeito-o e por meu lado tento – apenas tento – evitar adquirir marcadores somáticos que condicionem o meu pensamento.,

        • Paulo Marques says:

          Sumarizo porque não vou descrever os pormenores em cada resposta, uma vez que demoro demasiado tempo a travar o meu cérebro de fugir para o fim.
          Já de outras vezes me expandi mais, penso que é normal no meio. E não acho que perante a audiência do blogue seja preciso explicar o que quero dizer com esses termos (mas note que disse extrema-direita).
          Se quer que exponha, as medidas geralmente propostas (com algumas falhas notórias), e não a retórica eleitoral, não passam de soluções que já foram implementadas com sucesso em alturas em que o capital não era tudo. Repare que até o FMI hoje em dia fala nos problemas da austeridade, falta de controlo financeiro e falta de investimento público, e nada disto tem alternativa na Europa.
          A extrema-direita não tem resposta eficaz porque proibir a imigração, cortar apoios sociais ou o UBI em nada alteram as relações de poder de um capital que vive de rendas do estado e a financeirização da economia ao invés da produção. Enquanto for mais rentável criar crédito desregulado do que produzir bens e ter quem os consuma (o que não tem de ser consumismo), os baixos salários e a especulação continuarão a ser a ordem do dia. Há, apesar de tudo, a possibilidade de esta vir a tentar fazer o mesmo que a Alemanha e os EUA e fomentar a produção interna quer directamente, quer com tarifas, mas também não estão muito virados para o confronto enquanto obtiveram resultados à custa da culpabilização do “outro”. Daí que o foco da esquerda e do centro-esquerda nas questões identitárias seja meio passo para a derrota, independentemente da sua importância.

  6. Ana Moreno says:

    Olá Nuno, obrigada! 🙂
    Os cidadãos, na sua grande maioria, nem sabem que os governos andam a vendê-los desta forma vergonhosa. Não é por acaso que o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público e a Associação Sindical dos Juízes Portugueses se posicionaram contra estes mecanismos; até a Associação Europeia de Juízes afirmou que prejudicam a ordem jurídica na UE. Mas a Comissão e os governos dos estados-membros estão apostados numa globalização que entrega de bandeja as rédeas às transnacionais. Um absurdo que nos está a levar para o precipício…


  7. ….mas alguém aqui presente classificou insidiosamente o meu “absurdo” :
    ” bizarra e absurda união europeia cúmplice com os nossos inimigos”
    como de opinião de quem lê o Avante !! e como se :


  8. Ana, este meu anterior comentário/desabafo era dirigido a si, por lapso de cansaço e incomodada, esqueci de mencionar seu nome.

    Abraço solidário para si, bem haja.

    • Ana Moreno says:

      Olá Isabela, um grande abraço para si! Sabemos que estamos do mesmo lado em muitas lutas e espero que continue a dar-nos a sua autenticidade, solidariedade e ideias bem próprias, conscientes e corajosas.
      Muita força, companheira!


  9. …. Sr. Nuno Abreu, não gostei ! de novo ! que pena !
    quando escreve, como quem é infalível e muito complicado e espartilhado e duro no que tem em mente ( tem mau feitio, não tem ? ) e qd afirma :
    “…
    usou o estratagema não para colocar uma questão, não para esclarecer, mas para tornar a sua opinião tão evidente que ela poderia ser subscrita até por uma ingénua. Mas depois o texto que atribuiu à ingénua é um texto mais própria para uma sabidona que conhece os truques para levar a sua avante !

    Foi isso apenas que quis salientar na minha resposta. E dado o tempo em que vivi com grupos dinamizadores de ideologias marxistas-leninistas reconheci-a como prática comum daqueles grupos e limitei-me a fazer a analogia. Sempre no âmbito da “Critica da Razão Pura” de Kant e não do amesquinhamento de qualquer personalidade.. ”

    Mas feriu-me ! por afirmações inadequadas pessoalmente, avaliou-me segundo esses seus “critérios da Razão Pura ” de Kant…
    ……..quando eu prefiro os de Kafka !! : ))

    Estamos a lonjuras de sintonizar sensibilidades, é o que sinto, porém respeito as diferenças .

    .fique na sua, que já me apercebi de “muita areia na sua camioneta” que não me apraz nem diz comigo, queira desculpar, que nestes momentos de vir até aqui eu quero abalar no depois com um sorriso, maroto ou não, no olhar e o coração quieto e quentinho.

    Post scriptum »»
    .apesar de certas afinidades de uma espécie de curriculum vitae que entendeu apontar e que apreciei, …ainda estou a pensar :
    ……… no bairro da lata da quinta da Musgueira ?? !!

    • Nuno M. P. Abreu says:

      Cara Isabela. Tenho muita dificuldade em ser subjectivo. Tenho dificuldade em discutir um tema em abstrato com interlocutor ausente e estar condicionado pensando na sua sensibilidade. Mas contrariamente ao que pensa, penso que não tenho mau feitio. Como lhe disse faço entrevistas a gente da minha terra de quem procuro contar a história. Em Fevereiro contei a história de um rapaz filho de mãe solteira que o pai, um industrial abandonou e teve de emigrar para França para poder sustentar o filho. Fez-se um homem. É técnico informático, tem a sua própria empresa e ainda tem tempo para dar aulas gratuitas na Junta de freguesia. Depois de lhe mandar o rascunho da entrevista para eventuais correções recebi dele um email que dizia Bom dia. Estou admirado por uma simples conversa tenha descrito e captado na perfeição um resumo da minha vida. Desde já o meu apreço. Esta sim é uma opinião que me deixa vaidoso, por me sentir útil.
      Naturalmente quando alguém defende convictamente uma ideia parte do pressuposto que está a defender a verdade e consequentemente é infalível. Em dialética são proibidas as adversativas Não existem mas, existem argumentos que podem ser contrariados por outros argumentos na procura de uma verdade que terá um tempo até que seja destronada por outra verdade. Quando digo que usou um estratagema não estou a atacar a sua mente mas o seu pensamento.
      O que disse é factual: uma ingénua não é maledicente. Não adjectiva malevolamente. Estou a falar da construção de um texto e não de caracter.
      Continua a dizer-lhe até pelo que agora aqui escreveu que penso que é uma mulher de carater. Não penso que é uma sabidona que conhece os truques para levar a sua avante. O que digo é que a imagem que inadvertidamente construiu do personagem o é. Todos nós somos condicionados pelos nossos preconceitos e todos temos de estar atentos para não nos deixarmos inconscientemente condicionar por eles. Invoquei Kant exactamente por querer acentuar que estava apenas no campo da discussão pura da razão. E pelo vistos muito mais nos separa. Detesto a filosofia angustiante de Kafka. Como dizem os manuais resulta de um afastamento familiar com os pais . O significado de termo kafkiano que entrou no léxico, no seu sentido figurado diz tudo.
      PS. – Sim, no bairro da lata da Quinta da Musgueira. Na rua F, nº 1. Ajudei a construir essa barraca, no ano de 1963, num terreno que nos foi cedido pela paróquia do Lumiar, com os restos de uma casa que ia ser demolida e que ocupávamos em Benfica, sem água nem luz, e que transportamos numa carroça que o coadjutor do Lumiar, um diácono, alugou para nós.


  10. Bom, o Aventar vai ralhar connosco por usarmos este espaço que é público para trocas de cromos de nossa coleção pessoal .
    Este espaço de comentários transformado em correio pessoal não será o melhor nem o aconselhável, certo ?

    Foi bom ” conversar ” consigo, apesar de sentir que ficaram mal entendidos pelo caminho, por ex, hoje quando mencionei o Kafka é por pura provocação brincalhona vs a sua análise kantiana racional e fria ,. Porque gosto de desconstruções, não por opção filosófica mas por análise de absurdos e paradoxos construtivos e o seu contrário.
    Conhece aquela frase ” les fous, les pauvres fous et la sagesse qu´ils nous enseignent ” ? é isso !

    Porque a emoção me ocupa e condiciona mais que a razão….sempre assim fui, e apesar de revezes acontecidos é pela emoção que me deixo conduzir …e naquele momento a vida fica mais bonita….ou mais trágica também !!

    Amigos e camaradas ? guardarei consideração por si, que a reconheço e permanece apesar de e depois de tanto respigarmos e aventarmos razões e emoções.
    Com respeito e tolerância pelas diferenças saudáveis, por aqui nos encontraremos….ou não (?) .
    Cordiais saudações !

    • Nuno M. P. Abreu says:

      Amigos e camaradas? Obviamente que sim.
      Pessoal ou Publico? Não vejo motivos para o “ralhanço” do Aventar! Acaso não é o interesse público a mediana dos interesses privados? E não deve mesmo uma sociedade civilizada, ter em contas as franjas que daquela são excluídas?

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