A despropósito de professores e de outros injustiçados

Na Assembleia da República, uma estranha maioria, constituída por PS, CDS, PCP e PEV, aprovou “uma norma do Estatuto dos Magistrados Judiciais que permitirá aos juízes conselheiros um vencimento superior ao do primeiro-ministro.”

Aos professores foi recusada a reposição integral do tempo de serviço, em nome das boas contas. Não tenho informação suficiente para saber se a medida é justa ou não e não defendo a sua reversão em nome de uma inveja profissional, mas não posso deixar de notar que parece que há cidadãos que são juízes e outros que são enteados.

Lateralmente a esta questão, alguns deputados afirmaram que votaram a favor da medida porque lhes tinha sido imposta disciplina de voto, essa perversão da representatividade parlamentar. Os deputados que invocaram esta desculpa não passam de hipócritas, gentinha obediente ao partido.

A propósito ainda desta questão, sabe-se que Fernando Anastácio, deputado do PS que negociou este aumento, é casado com uma juíza. O dito deputado declarou que não vê esse facto como impedimento. De qualquer modo, imagino que deva ser agradável intervir num processo que possa contribuir para o aumento do orçamento familiar.

Foi notícia o facto de mais de metade dos professores do superior ter tido avaliação de “excelente”. Note-se que mais de metade, neste caso, corresponde a 53,8% , o que quer dizer que o título poderia ser “cerca de metade” ou “praticamente metade”. Algumas reacções tendem a ver nisto um escândalo, porque não pode haver tanta gente excelente. Não sendo eu professor universitário, não sendo um maníaco da avaliação de desempenho (ao ponto de não estar preocupado em saber como se distingue um Excelente de um Muito Bom ou um Muito Bom de um Bom), estou à vontade para dizer que chego a considerar um escândalo que a percentagem de professores universitários excelentes não seja superior.

Mais uma vez, não tenho informação suficiente para saber se o sistema de avaliação em causa é bom, mau ou antes pelo contrário. Limito-me a notar que os professores universitários não estão sujeitos, salvo erro, a quotas de avaliação, ao contrário dos professores do Básico e do Secundário, que estão, na sua larga maioria, impedidos de aceder aos quinto e ao sétimo escalões, devido a um sistema que perverte a avaliação. É claro que o objectivo não é – nunca foi – avaliar o trabalho dos professores, mas apenas impedir que possam chegar ao topo da carreira.

Repito: não defendo que seja retirado aos outros aquilo que a minha classe não tem, mas, mais uma vez, os professores do Básico e do Secundário, mais do que enteados, são enjeitados.

Finalmente, prevê-se que, em menos de dez anos, haja falta de professores. É estranho, não é? É mesmo bué da estranho!

Comments


  1. Depois de ter visto um primeiro-ministro ter cortado algumas regalias absurdas que esses senhores juízes tinham, e ter visto o lindo enterro que ele teve, só um tolo que não tivesse memória é que iria querer irritar a classe profissional mais poderosa do país.

    • António Fernando Nabais says:

      Já ouvi dizer tantas vezes que os professores é que mandam no Ministério da Educação e que são poderosos e que até houve ministros que foram embora por causa dos professores. Já não percebo nada!


      • É preciso fazer um desenho? Os professores, como todas as classes, defendem a sua quintazinha, a sua é que é interessa, os outros que se lixem, e podem originar o despedimento de alguém com responsabilidades.
        Mas não têm o poder completamente arbitrário de poder enfiar uma pessoa, mesmo sem nenhuma prova (e indícios não são provas) com os costados na cadeia.

        • António Fernando Nabais says:

          Ah, então os professores, para além de não terem poder, não deveriam preocupar-se com a sua quintazinha.

    • Luís Lavoura says:

      Exatamente.

  2. Julio Rolo Santos says:

    A medida é escandalosa, própria de partidos sem vergonha e, espera-se que não tragam como moeda de troca, a suavização, por exemplo, do Processo Marquez. Com a mudança de Juiz natural e a ameaça á anulação de peças processuais importantes, adivinha-se o que poderá vir por aí. Esperemos para ver é que ninguém dá ponto sem nó.

    • António Fernando Nabais says:

      Pelo menos, os professores continuam a ser desprezados e maltratados. É o que nos vale!

  3. Luís Lavoura says:

    os professores universitários não estão sujeitos, salvo erro, a quotas de avaliação

    Os professores universitários são muito diferentes dos professores liceais noutro respeito: só podem ser promovidos se e quando é aberto concurso para acesso à categoria superior. Ou seja, não são promovidos à categoria superior automaticamente, por terem direito a isso, mas somente se e quando o seu patrão (= a Universidade em questão) decide permitir promover algum deles.

    Portanto, nem vale a pena comparar os professores universitários com os outros. São mundos à parte.

    • António Fernando Nabais says:

      E o que me diz ao facto de “mais de metade” ser avaliada como Excelente?


      • Que, a menos que sejam seis em anos consecutivos (que por lei resultam numa progressão horizontal com um pequeno aumento de salário), esses excelentes valem menos do que uma palmadinha nas costas. Acha que se tivessem alguma consequência orçamental havia tantos?

      • Luís Lavoura says:

        Não digo nada, porque nem sei exatamente, com precisão, em que consiste essa avaliação.

        Eu só dei aulas na universidade poucos semestres. Tenho conhecimento de que fui avaliado pelos estudantes que tive – eles depois de terem completado a cadeira são convidados a fazer uma avaliação do professor. Não tenho conhecimento de ter sido avaliado por mais ninguém.

        De qualquer forma, tal como digo, sejam avaliados como “Excelentes” ou não sejam, é quase igual ao litro – não podem aceder à posição superior na carreira a não ser que a sua Universidade abra concurso para isso. E, mesmo que abra, geralmente são “muitos cães a um osso” – há muitos candidatos para uma só promoção.

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