Algumas notas sobre a Abstenção:

  •  Estas eleições marcaram a maior taxa de abstenção de sempre em Democracia em eleições legislativas, fixando-se nos 45.5% para os residentes em Portugal (votos no estrangeiro ainda não foram contados, mas irão certamente aumentar a taxa).
  • A abstenção em Legislativas tem vindo gradualmente a subir desde as eleições para a Constituinte em 75. Curiosamente, desde 75 até agora nunca votaram menos de 5 milhões de eleitores. O problema é que o número de recenseados aumentou exponencialmente de 6.220.784 em 1975 para 9.682.552 em 2015.

  •  É possível questionar estes números. Mesmo contando com os que vivem fora de Portugal, será que o número de eleitores é assim tão elevado? Especialmente quando temos em conta que em 2015, a população residente contava com 10.341.330 e que destes cerca de 1,460.832 ocupavam a faixa etária dos 0 aos 14 (fonte).
  • Entre as três eleições regulares que existem em Portugal (Legislativas, Autárquicas e Europeias), a taxa de abstenção em Legislativas foi sempre a mais baixa. 2019 inverte esta norma pois a taxa de abstenção já se encontra 0.5% mais alta do que a taxa de abstenção das autárquicas de 2017.
  • Olhando para o mapa da abstenção das eleições de ontem podemos ver três regiões que se destacam: O interior Norte (Bragança, Vila Real e Guarda), o Algarve e os Açores. Em Bragança a abstenção chegou aos 55.11%, e nos Açores a abstenção chegou aos 63.50%.
  • Contudo: se compararmos com as eleições autárquicas de 2017, no caso de Bragança, Vila Real, Guarda e Açores verificamos uma inversão nos valores. Bragança teve 38.86% de abstenção, Guarda 38.06% e os Açores 46.55%. Continuando a comparação com as autárquicas, o que parece fazer subir a abstenção nas eleições de 2017, foram distritos como Lisboa e Setúbal. Em 2017 (autárquicas), Setúbal teve uma taxa de abstenção de 54.45% ao passo que nas eleições de ontem (legislativas) teve 46.36%. Lisboa teve uma taxa de abstenção em autárquicas (2017) de 51.33% e em legislativas (2019) de 42.67%.
  • No mapa eleitoral português há fenómenos muito interessantes: Braga, por exemplo, tem tido nas últimas autárquicas e legislativas uma taxa de abstenção inferior ao total nacional. Outro importante fenómeno local foi o crescimento em 7% da abstenção em Beja. Em 2015, Beja tinha tido 40% de abstenção, subindo agora para os 47.74%. Já o Algarve, seja em legislativas ou em autárquicas, tem sempre uma abstenção altíssima.
  • Assim podemos gerar algumas questões: deve a abstenção ser abordada como um problema regional ou nacional? Á primeira vista, parece ser uma questão regional. Os eleitores que não votam nas legislativas parecem ir votar nas autárquicas o que sugere uma preferência pelo poder local, e um desligamento do poder central. Os conselhos que mais se abstiveram nas legislativas de ontem são precisamente os conselhos de fronteira com Espanha onde historicamente o Estado central chega de uma maneira difusa e onde a proximidade com outro país e língua dilui esta mesma influência. Faz assim sentido que estes eleitores prefiram votar nas autárquicas porque é a forma de poder político mais próxima, e aquela que, provavelmente, não é tão ditada por lógicas partidárias, mas sim pela pessoa do candidato autárquico. No mesmo sentido, Lisboa e Setúbal estando tão próximas do Estado, não sentem tanta necessidade de votar nas autárquicas, tornando-se estas num teste de popularidade partidária. Por outro lado, é possível que votem nas legislativas com a convicção de que estas são as eleições que “interessam”, e com as quais os eleitores destes centros urbanos contactam com mais intensidade (arruadas em Lisboa, cartazes por toda a cidade).
  • Ainda assim, tratar a abstenção como um problema estritamente regional pode não ser suficiente. Falta olhar para a velha questão da desertificação do interior, para as condições socioeconómicas dos eleitores, assim como as variações na escolaridade para compreender se estes factores influenciam ou não a ida ás urnas. Falta sobretudo compreender se estes factores, como por exemplo o nível de escolaridade, a afluência económica, têm ou não uma correlação com a cultura política. Ao olhar para os casos de Avis em Portalegre onde a abstenção foi de 37.01% e o caso de Oeiras em Lisboa com 37.08% rapidamente compreendemos que não podemos limitar a análise a condições binárias, e que a cultura e vivência da política é muito importante.

Fontes:

https://www.publico.pt/legislativas-2019/resultados?fbclid=IwAR29UcfrgG0GzQ5eiCCW0Luc6gH_mrfYQf3GsFUuQf6reN0vgTG6dB3i0hI
https://observador.pt/interativo/legislativas-ao-segundo/#/distrito/080000 http://www.rtp.pt/noticias/eleicoes/autarquicas/2017/distrito-faro/eleicao-CM/080000#resultados
https://www.pordata.pt/Portugal/Taxa+de+abstenção+nas+eleições+para+as+Autarquias+Locais-2210 https://www.pordata.pt/Portugal/Eleitores+nas+eleições+para+a+Assembleia+da+República+total++votantes+e+abstenção-2181

Comments

  1. Luis says:

    Os abstencionistas não estão disponíveis para legitimar quem luta pelos “bens de alguns” em prejuízo do “bem comum”.


  2. Os motivos da abstenção dariam matéria de conversa para os próximos 50 anos. Ainda existe a liberdade de não querer votar, o que poderá vir a favorecer alguns poderes representativos. Podem levar para debate a maior coloração representativa, mas a política de como votar continua a afastar-se das tecnologias, tornando a classe política acinzentada.

    Espero que seja desnecessário convocar uma vasta equipa de técnicos para fazer mais um dispendioso estudo sobre a abstenção, para juntar ao rol de estudos engavetados.

  3. Paulo Marques says:

    Outro número: 1500 clientes para aviar em 11 horas por pessoas em quase voluntariado (ou de graça, no caso de militantes do PCP), levando pessoas a desistir nalgumas secções de voto.

  4. Luís Lavoura says:

    Francamente, não entendo porque se debate, como neste post, a abstenção em Portugal, quando é mais que sabido que os cadernos eleitorais portugueses são completamente irrealistas.

    Aquilo que se deve debater não é se a abstenção é maior ou menor no lugar A do que no lugar B, ou se a abstenção foi maior ou menor no ano X do que no ano Y, mas sim se os cadernos eleitorais são mais falsos no lugar A do que no lugar B, e se tinham mais mortos no ano X do que no ano Y.


  5. “O problema é que o número de recenseados aumentou exponencialmente de 6.220.784 em 1975 para 9.682.552 em 2015.”

    Como é possível que num pais com 10 milhões de habitantes 9.682.552 sejam cidadãos maiores de idade?

  6. Paulo Marques says:

    Mais uma nota sobre abstenção: alguém que não seja eleitor do PS ou do PSD não tem razões para ir votar em várias zonas do país.

    http://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2019/10/houston-we-really-have-problem.html

    • Carlos Almeida says:

      Tem toda a razão Paulo Marques

      Ando a pensar nisso há muitos anos, porque o meu voto nunca vai para o chamado bloco “social democrata” isto é para o PS, partido Social Democrata com origem na 2ª Internacional e o PPD/PSD, que se intitula de “Social Democrata”.
      O meu voto foi para o lixo e como eu muitos assim pensam.
      A solução do post do “ladrão de bicicletas”, pode ser uma boa opção, mas seja como for isso tem que ser resolvido de modo a diminuir a abstenção.

      Novamente o link do post do Paulo Marques

      vale a pena ir lá

      http://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2019/10/houston-we-really-have-problem.html

Trackbacks


  1. […] tudo noutro lado, mas de seguida fica…o risco da “merda […]

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.