Crónicas do Rochedo 30º – Turismo: Uma catástrofe à vista

Turismo de Portugal

Já não escrevia uma crónica há muito tempo. Ora, tempo é o que mais temos nestes últimos dias. Tempo para pensar e tempo para escrever. Perante a pandemia que estamos a viver existem vários sectores da nossa sociedade que enfrentam várias ameaças. Um deles é o turismo. Por ser dos sectores que melhor conheço profissionalmente, deixo aqui a minha análise baseada em factos e fontes e na experiência profissional. Podia escrever o mesmo sobre o turismo em Espanha e, sobretudo, na realidade que melhor conheço, as Baleares. Contudo, para já, prefiro analisar o problema português (aqui não será muito diferente).

Vamos começar pelos números:

O Turismo em Portugal representa 14,6% do PIB (dados de 2018) e 9% do emprego (dados de 2018) e 13,3% do total das nossas exportações (dados de 2018).

Tentando tornar a coisa mais simples de entender: 

Existem 6.868 alojamentos turísticos em Portugal* (Hotéis, pensões, estalagens, pousadas, motéis, apartamentos, aldeamentos turísticos, estabelecimentos de turismo de habitação, de turismo rural ou alojamento local) – uma vez mais, dados de 2018.

Em 24 de Abril do ano passado, a Secretária do Turismo (Ana Mendes Godinho) afirmava que Portugal tinha, pela primeira vez, ultrapassado os 400 mil trabalhadores no sector do turismo (notícia do Jornal de Negócios). Ou seja, dados anteriores a Abril de 2019.

Em 2017 representou mais de 26 mil milhões de euros para a economia portuguesa.

Olhando para os números (que são de 2018, sublinho), facilmente se percebe que estamos perante uma verdadeira catástrofe de consequências totalmente imprevisíveis a curto e médio prazo. A pandemia do COVID 19 (Corona Vírus) atingiu o turismo de forma devastadora. Por exemplo, aqui em Espanha, no dia em que escrevo esta crónica (20 de Março de 2020) o Estado espanhol ordenou o encerramento de todos os hotéis e similares dando uma semana para desocuparem as instalações (incluindo os Parques de Campismo). Em Portugal ainda não foi decretado semelhante mas vai ser – embora seja uma medida um pouco redundante pois já quase todos se encontram vazios e sem receitas. 

Agora vamos fazer um exercício simples: vamos acrescentar a todos estes dados os restaurantes, bares e similares que abriram ou cresceram fruto do aumento incrível do turismo nos últimos cinco anos em Portugal. E não pensem apenas no Algarve, na Madeira e em Lisboa e Porto (os principais destinos turísticos nacionais – sendo o Algarve e a Madeira dois exemplos de verdadeira catástrofe perante semelhante realidade). É que essa realidade não está presente nos números acima descritos. São sectores diferentes. Não será preciso ser grande adivinho para afirmar que aos 400 mil trabalhadores do sector do turismo teremos de acrescentar uns 300 mil (estou a ser conservador) neste outro sector (restauração e similares) cujos postos de trabalho dependem e muito do turismo. Cuja esmagadora maioria, mais de 90%, são micro e pequenas e medias empresas. Sem esquecer lojas de roupa, de lembranças e outras cujas receitas graças ao turismo aumentaram fortemente.

Lembrem-se de todos aqueles restaurantes e bares que abriram ou se transformaram ao longo destes últimos cinco anos, sobretudo na Grande Lisboa, Área Metropolitana do Porto, Braga, Guimarães, Aveiro, Viseu, Vila Real, Viana do Castelo, Évora, Beja, nos Açores, Sintra, Douro, Alentejo, etc. E, já agora, pensem nos senhorios de boa parte desses estabelecimentos.

Neste momento em que escrevo esta crónica, não existem receitas. Não existem turistas. Não existe mercado. Consequentemente, não existe forma de pagar as rendas, os salários, as dívidas à banca e ao Estado ou até as dívidas a fornecedores. E existindo, nalguns casos, talvez aguentem Março (que está a terminar), Abril e, com alguma sorte, Maio. Mas, e depois de Maio???

Alguém acredita que em Junho, Julho, Agosto ou Setembro de 2020 vamos voltar a ter turistas? Olhem para o que se passa nos principais mercados emissores: Espanha, França, Reino Unido, Alemanha, países nórdicos, Rússia (está agora a começar), Ásia, Canadá, Estados Unidos ou Brasil? Olhem para o que se passa com as companhias de aviação. Olhem o que se passa com os chamados Tour Operadores. E aqui chegados, dou o exemplo das Ilhas Baleares espanholas (Maiorca, Ibiza, Menorca e Formentera). Dependem em mais de 85% da sua economia (estou a ser simpático, pois na realidade a dependência é ainda maior) do turismo. Os principais países emissores são a Alemanha/Áustria e o Reino Unido. Sem esquecer a França e a Itália. Os Tour Operadores informaram ontem que cancelaram toda a sua actividade na ilha “sine die” ou seja, a temporada de 2020 foi ao ar. Dou este exemplo porque não tenho dúvidas que é o que vai acontecer em Portugal. Perante este cenário, como vai Portugal resolver este problema a curto e médio prazo?

A curto prazo acredito que o Estado consiga “deitar uma mão”. Mas não vejo como o consiga fazer a médio prazo. É que não se enganem, sem as receitas de Julho, Agosto e Setembro é impossível, de todo, que as empresas se salvem e sem elas não há como salvar os postos de trabalho.

Como não sou economista, deixo a pergunta a quem o seja ou saiba: como se vai salvar o sector do turismo em Portugal?

Porque sem isso, não vejo luz ao fundo do túnel para a economia portuguesa. E, já agora, pensem um bocadinho: no passado, quando a crise apertava em Portugal, muitos trabalhadores (e não só) rumavam a outras paragens. Agora essas paragens estão como nós. Nalguns casos ficarão piores que nós. E vão querer resolver o problema dos seus…

  • Segundo ESTA notícia do Expresso, o número é bem maior (carece de confirmação)

Fontes: Jornal de Negócios, Turismo de Portugal, Pordata, Travelbi Turismo de Portugal e Expresso.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Mais bom artigo.
    Não sei como sairemos disto, caso este cenário se prolongue no tempo, mas vai ser muito doloroso. E desta vez o número dos que passarão pelos pingos da chuva será exíguo.
    Sem uma economia a funcionar não há receitas. Sem receitas não há impostos. Sem impostos não há dinheiro para uma multiplicidade de serviços.
    Mas, voltemos atrás.
    Quando os nossos iluminados políticos europeus deixaram que a globalização seguisse este rumo; sim, eles quiseram, nunca puseram qualquer condicionalismo à deslocalização de grande parte do tecido industrial europeu para a Ásia, encaminhando grande parte da manufacturação de bens de consumo e até de investimento, para o extremo oriente, apenas e só, porque aí a mão de obra era ao preço da “uva mijona”, mesmo sabendo que ali nada era respeitado, dos direitos sociais e laborais, à preservação do meio ambiente, entre outros factores, puseram-se a jeito, para numa crise pandémica como esta, onde as sociedades europeias, com excepção da Alemanha, a viver do consumo, sector dos serviços, na qual o turismo representa em muitos casos 1/6 do seu PIB.
    A Alemanha, na Europa, e as economias do extremo Oriente , China, Coreia do Sul e Japão, serão os primeiros a emergir da catástrofe. O resto da Europa, em especial Itália, Espanha, Grécia e Portugal, vai ser uma lenta agonia.
    A ver vamos.


  2. Vários erros de cálculo, talvez… Afinal eram precisas fábricas de material de protecção para o pessoal da saúde… Os ovos quase todos no mesmo cesto, caiu-partiram-se.

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