Sondagens e outras coisas que não interessam

No tempo em que havia futebol e, consequentemente, programas em que se discutia corrupção e arbitragens, era vulgar perguntar aos telespectadores, através de inquéritos, quem seria o futuro campeão nacional ou se pensavam que o árbitro teria prejudicado ou beneficiado determinado clube em determinado lance. Confesso que nunca fiquei espantado com os resultados. Mais: nunca estive interessado em conhecer os resultados.

Hoje, fiquei a saber que, de acordo com uma sondagem, os portugueses (é sempre assim que anunciam o resultado de uma sondagem) têm uma opinião positiva acerca da actuação do primeiro-ministro e do presidente da República ou vice-versa. Se fosse ao contrário, também não me admiraria. Mais: não estou interessado.

Mesmo sabendo que é complicadíssimo gerir um país nas circunstâncias em que o mundo se encontra, haveria outras sondagens mais importantes. Por exemplo: quantos profissionais de saúde pensam que António Costa estava enganado (ou que mentiu) quando afirmou que não faltava nada nos hospitais nem era previsível que viesse a faltar?

Há muitos argumentos contra: que devemos estar todos unidos, que o corporativismo pode atrapalhar, que pode haver pessoas do contra. É tudo verdade, mas eu continuo a preferir que as pessoas de cada área falem da área em que trabalham. Na verdade, as sondagens nem sequer fazem muita falta, sobretudo se dependerem de politiquice ou de clubismo, que são mais ou menos a mesma coisa.

Je suis Uderzo

Hoje, morreu-me Uderzo. Esta construção verbal, não sei se uma reminiscência da voz média, é perfeita para exprimir que as mortes de outros nos afectam, que há mortes que nos matam um bocadinho.

Não cheguei ao ponto de chorar ou de ficar depressivo, nem sequer melancólico, até porque, por profundo egoísmo, fico satisfeito por saber que a morte de Uderzo não levou – nem eu deixava – os meus velhos álbuns das aventuras de Astérix, que continuam alinhados, sempre à espera de mais uma releitura ou, até, de uma consulta para recordar um diálogo genial criado pelo Goscinny ou um desenho brilhante do Uderzo. Pegar num desses álbuns (e cheirá-lo, claro) é, também, a garantia de que volto a ter dez anos e estou deitado ou sentado, a rir-me e a comer as raivas feitas pela minha avó ou pela minha mãe (ainda há migalhas arqueológicas espalhadas pelos livros). [Read more…]

A vida em estado de normalidade

Vulcao-areia-tocha-fumo-Costa-Nova

Vulcão de areia e tocha de fumo, Costa Nova, 2019.

[Pedro Guimarães]

Numa sociedade perfeita, medidas de contenção como as actuais não teriam qualquer consequências na Economia e não passariam de um pequeno mal estar fruto do afastamento social necessário. O estado de emergência devia ser o estado normal, porque é apenas no mundo virtual que não vivemos em permanente emergência: climática, social, ambiental, demográfica.
Por isso mesmo, no mundo real, tudo o que é desnecessário, destrutivo e predatório, como o é a mobilidade e o consumo excessivos, deveriam ser questionados criteriosamente, em vez de financiados os postos de trabalho que daí resultam.
Portugal, como tantos outros países, vive uma crise sanitária a que se seguirá um crise de negação. A procura de soluções faz-se recorrendo a mecanismos que não contemplam curas, apenas curadorias, curandices.
A solução, inevitavelmente, virá de fora, de um país socialmente mais flexível e apto à mudança, em que as grandes empresas estratégicas e seus empregados serão públicos, logo afetos à causa comum. Nesses países, o conceito de trabalho será redefinido, nenhuma gripe poderá parar o sistema: uma grande empresa de aviação poderá em poucos meses se transformar num grande prestador de serviços de saúde, uma fábrica de automóveis poderá em pouco tempo produzir equipamentos médicos.
E ninguém irá perder a sua individualidade por causa disso.

Para grandes males, grandes remédios – Rendimento Mínimo Incondicional

Numa petição europeia apela-se à União Europeia, e ao Eurogrupo em particular, no sentido de ser criado um instrumento financeiro que permita aos estados-membros da UE instituirem rapidamente um Rendimento Mínimo Incondicional como medida de emergência que, de forma célere e sem complicações burocráticas, permita aliviar todos os cidadãos da Europa cuja segurança económica e existência se vê ameaçada pela crise provocada pelo coronavírus.

“Desde a última grande crise de 2008, a UE já injectou milhares de milhões de euros no sector financeiro para colmatar as falhas do mesmo. Chegou a hora de apoiar as pessoas.”