25 de Abril com distanciamento social

Adoro o 25 de Abril. Se o 25 de Abril fosse uma pessoa, faria tudo para que me considerasse seu amigo. Todos os anos, comemoro o 25 de Abril, porque o considero um dos meus maiores amigos. A generosidade do 25 de Abril vai ao ponto de ser bom para quem não gosta dele. Às vezes, penso que o 25 de Abril chegou a frequentar a catequese e saiu de lá cheio de amor ao próximo, incluindo os vendilhões do templo. Não que seja perfeito, mas não me lembro de ter amigos perfeitos.

O meu amor ao 25 de Abril não vai ao ponto de gostar das comemorações oficiais. Não preciso delas. Por um lado, irritam-me os que se consideram seus proprietários, censurando os que não gritam as mesmas palavras de ordem; por outro lado, ainda me irritam mais os que nunca lhe perdoaram, os que participam nessas comemorações a contragosto, exibindo, julgando-se superiores, a ausência do cravo na lapela, sempre prontos a descobrir defeitos na democracia e a relativizar a ditadura, a ditadura do Salazar honesto que não metia dinheiro ao bolso, como se isso transformasse um escroque num virtuoso.

Os que querem comemorar o 25 de Abril à força fazem-me lembrar os beatos que só podem orar a Deus em Fátima, numa estranha crença que, como é costume, chega a desprezar a Omnipotência em que, afinal, não acreditam. Não lhes ficaria mal, num tempo em que se recomenda o distanciamento social comemorarem o 25 de Abril à distância.

Os que não querem comemorar o 25 de Abril este ano são os mesmos que nunca quiseram comemorá-lo. A desculpa de que não deixaram as pessoas comemorar a Páscoa é muito fraquinha, porque não há comparação entre um almoço familiar de 20 pessoas em alegre e perigosa proximidade intergeracional e uma cerimónia absolutamente regrada.

Não estou de um lado nem do outro. Gosto de estar sozinho na minha trincheira. A bem dizer, dispenso, até, a trincheira. As minhas memórias e um cravo chegam-me. Não preciso de mostrar o meu 25 de Abril a ninguém, até porque o 25 de Abril é para todos, mesmo para aqueles que dizem mal dele, aqueles que chegam a ter saudades de 24 de Abril, aqueles que até podem, finalmente, decidir não estar presentes numa cerimónia em que nunca gostaram de estar. A partir do momento em que tive poder para decidir, nunca mais fui à missa.

Comments


  1. Este texto é sobre quê? Então os amigos não se reúnem em épocas ou datas festivas, não confraternizam? Ou somos todos bichos do mato, a coçar o umbigo?

  2. Filipe Bastos says:

    Já eu nunca tive pachorra para o 25 Abril.

    E se ao início, talvez até 1980 ou 85, se poderia ainda entender certo fascínio lírico por uma mera golpada corporativa, após 46 anos – 46 anos de bandalheira corrupta, de saque descarado, com três bancarrotas e inúmeros escândalos de uma classe pulhítica chula, trafulha e impune, afinal que estamos a celebrar?

    O fim da ditadura? Já caía de podre desde que o Botas caíra da cadeira. E ele, com todos os defeitos, a começar pelo país beato, analfabeto e miserável que deixou (mas cheio de ouro!, gritam os direitalhas de antanho), era, verdade seja dita, cem vezes mais honesto e capaz do que a corja que lhe sucedeu.

    A liberdade? Teve valor, mas onde isso já vai. Para um país na Europa Ocidental, embora com pseudo-elites sul-americanas, estranho seria não ter liberdade. Usá-la como álibi para a podridão pós-abrileira já não pega. Ter liberdade não chega. Somos livres de viver na partidocracia mais podre a leste da Albânia.

    Os “valores de Abril”? Que valores? Mamar na UE, chular o pagode, vender o país a saldo, encher a Banca e outros mamões, passar os dias acarneirados na bola? Queremos enganar quem?

    Quanto mais podre o regime, mais valoriza os seus rituais de auto-legitimação. Não é por acaso que ainda celebramos, com reverência tão pacóvia, o 25 Abril. É a nossa parada de ilusões, o nosso desfile dos tristes; como diria O’Neill, a nossa feira cabisbaixa.

  3. Socorro says:

    Eles continuam a espumar de raiva !
    Pois que continuem, só lhes faz bem ao sangue envenenado.
    Ide-vos f…….

  4. JgMenos says:

    Acreditei ter o 25 de Abril nascido generoso, porque houve gente boa, idealismo e generosidade na sua formação.

    Mas cedo a canalha raivosa o instrumentalizou ao serviço de patronos e ideologias de inveja e saque.
    Comemorarei nesse dia uma ilusão; e sempre esse dia me mobiliza para manter o combate aos seguidores da sua perversão.

    O santo e senha dessa canalha é dos imbeco«is que lhe adotaram os vómitos, é o insulto a Salazar, que foi nacionalista com valor e obra feita, e que combateu com denodo a ideologia que perverteu Abril e, imperdoável clarividência, sempre lhes adivinhou o fim do império seu patrono.

    • POIS! says:

      Pois está desvendado por Sherlock Menos! Elementar!

      O culpado disto tudo foi o calista!

      Era o único que conseguia levar Sua Excelência a deitar-se de manhã, a Maria à tarde e Cerejeira à noite..Salazar era um homem de hábitos muito regulares, como se sabe.

      O calista, sabe-se hoje, terá sido enganado e levado a deslocar-se a Oeiras por um telefonema falso de um agente do KGB que imitava Salazar tão bem que ainda alguns dos discursos salazarescos que por aí correm se apuraram ser falsos.Entretanto um carpinteiro scretamente comunista, pago por potências estrangeiras, já tinha armadilhado, na origem, a cadeira fatal!

      Sim, realmente Salazar adivinhou o fim do “império” (falhou foi em adivinhar outros fins, como o daquela canção “Angola é nossa..”.). Mas temos de dizer que foi muito bem ajudado na adivinhação. A Irmã Lúcia também já o dito a Crejeira, por confidência de Nossa Senhora que, por sua vez, reproduziu o que lhe foi dito pelo Gonçalo Portocarrero de Almada.

      Aliás foi este mesmo que disse a Passos Coelho que vinha aí o diabo. E, pelos vistos não se enganou. Passos, sabendo que o diabo era chinês, bem o tentou acalmar oferecendo-lhe em sacrifício umas empresasitas, mas nem assim!

      • POIS! says:

        Pois, para além de uns erritos menores…

        no terceiro parágrafo é (…)”A Irmã Lúcia também já o tinha dito a Cerejeira” (…)

  5. Albino manuel says:

    Redacção da antiga escola primária;

    Eu gosto da vaca. A vaca é um animal muito útil. A vaca dá o leite e o couro. Com a carne da vaca podemos fazer bifes. A minha mãe faz guisados de vaca muito gostosos. Eu como muito.

    A vaca pasta no campo. É um animal herbívoro. Tem quatro patas e é guardada pelo cão. As moscas incomodam a vaca. O marido da vaca é o boi. Os dois têm rabo, língua grande e grandes pares de cornos.

  6. Socorro says:

    Essa redacção merece 20 valores pela tabela antiga !!


  7. No outro ouvi um tipo – com quem nem costumo discordar por aí além – dizer que a democracia precisa dos seus simbolismos e que deve comemorar-se sempre publicamente o 25 de Abril.

    Dizer e ouvir isto numa altura em que se impede, por civismo e por ciência, as pessoas de irem aos funerais dos seus familiares e amigos é uma obscenidade (vigilante e bem intencionada, porventura, mas uma obscenidade).

    O que fez com que houvesse o 25 de Abril foi o mesmo que está a impedir a doença de alastrar em Portugal: é ser pragmático, estar consciente, mesmo consciente, de tudo quanto, furtiva e invisivelmente, se passa à nossa volta, deixarmo-nos de lérias e passar à acção contra um vírus que atinge e mata principalmente os mais fracos, como qualquer ditadura. E para isso, então como hoje, a solução passa por unirmos multidões de vontades individuais, livremente solidárias.

    O texto que o António Fernando Nabais escreveu para o aventar é o mais extraordinário texto que li sobre o 25 de Abril nos últimos anos.

    Muito grato.


  8. O que é evidente, é que cada um/a de nós comemora o seu 25 de abril. Também me revejo (em parte) naquilo que é a idiossincracia pessoal da interpretação do fenómeno que constituiu a data. Mas o que hoje está em causa, na sociedade portuguesa, é mais uma tentativa de destruir o símbolo que a data representa. E para qualquer sociedade, ou comunidade, é mesmo essa simbologia que não pode ser destruída, sobretudo se os seus direitos intrínsecos há tempo que o estão sendo. Por isso mesmo a AR deve comemorar o 25 de abril, nas condições que são impostas no país.

    • abaixoapadralhada says:

      Alguns que agora contestam, de certeza eram de opinião contraria se se tratasse de comemorar o 28 de Maio,

  9. Albino manuel says:

    Esqueça esse, isso é para quem ja tem uma certa idade.

    O que se passa é simples: em 2011, com cavaco, passos e maioria no parlamento, a direita autoritária, que por cá não é pequena – afinal de contas não deixa de ser um país atrasado e periférico -, julgou poder realizar o sonho húngaro: uma democracia à Orban. Batiam no peito que eram liberais. Quando Cavaco e Passos finaram atiraram para o lixo a máscara liberal e disseram bem alto ao que vinham.

    Agora é só loas a Trump e Bolsonaro. Estranho é que não elogiem Putin – mas também não o criticam.

    É a extrema-direita de hoje. Autoritaria, vomitando tudo o que é social e defendendo o liberalismo económico – quando lhe convém. Ainda ontem Maria Teixeira Alves defendia no corta-fitas o apoio publicitário governamental ao que eles chamam de comunicação social. Quando a concorrência ou a inovação tecnológica batem à porta atiram com Schumpeter às malvas.
    Imagine a Dona Maria a defender apoios estatais à indústria naval. Não dá, pois não?

    Verdade seja dita que mexem-se muito, intrigam muito, põem o Observador a fazer de muezzin mas não têm grande pensamento. Uns cavalos cansados como Antonio Barreto ou Vitor Bento, uns devotos como Gama filho, uns artigos da fundação manuel dos santos a propor reformas e mais não há.

    Dito isto, à esquerda também

    É um problema das sociedades contemporâneas. Talvez ajudasse uma compreensão de filosofia política, mas essa terá que vir de fora. Nao esqueço que ainda há poucos anos havia nesta terra – não digo qual a universidade pois é uma vergonha para ela – um professor universitário que defendia o nacional-socialismo; com obra publicada, ao que parece, pela Imprensa Nacional. Quando morreu, em vez de o enterrarem pelo meio da noite, ainda teve direito a obituário. Na Alemanha teria sido forçado a debandar como fizeram a Carl Schmitt.

    • JgMenos says:

      Sempre a esquerda agita espantalhos à falta de saber dizer ao que vem, para além do saque que lhe é a própria natureza,

      • POIS! says:

        Pois cada vez se torna mais aflitivo!

        A cabeça de JgMenos continua a estourar e a desintegrar-se! Já se ouvem a quilómetros os soturnos ruídos que por lá ecoam:

        TILT! KLING! PANG! TAPUM! ZIIIIIIII! BONG!

      • abaixoapadralhada says:

        Nazi repugnante

        A esquerda diz sempre ao que vem. Tu e muitos outros que se dizem liberoides é que querem esconder o fascismo que têm dentro, mas o rabo está de fora.
        Verdade seja que o contabilista fraudulento menor (tu), ainda é o mais honesto intelectualmente e assume o seu salazarismo serôdio

      • Albino Manuel says:

        JgMenos?

        O que é que sabe para além de mandar uns insultos? nada. É um labrego de pensamento e provavelmente de hábitos e de condição. Será padre? um desses virgens que comem pelos cantos escuros?

        Esquerdalha… eu nem sou de esquerda…

        Vi o seu post sobre o 25 de abril. Só banalidades. Mas lá chegou onde chegou, ao elogio de Salazar. Não, o bicho não era fascista, não idolatrava o estado. Aproveitou umas coisas e segurou-se no poder, décadas e décadas, à força de muita manobra. Enganou tudo e todos do regime. Os monárquicos que o digam. Mas morreu a sonhar que era o Senhor Presidente do Conselho.

        Não endividou o país? Pudera! desde o ajuste com os credores em 1902, depois da bancarrota, Portugal ficou impedido de ir aos mercados durante 50 anos. Onde é que ele se ia endividar? Quando chegou a hora, passados 50 anos, lá veio a ponte Salazar.

        Desenvolveu o país? então porque é que marcharam todos para França à procura de melhor vida nos anos 60 e 70? ignorantes, analfabetos, foram encher os bairros de lata de Paris. Num dos seus belíssimos romances Céline dizia que a casa da tia, podre podre, era habitada agora por portugueses; ou seja, o rasca do rasca.

        Colónias: bem que o pobre diabo alterou o acto colonial para províncias ultramarinas. Sucedeu o que tinha que suceder. O que é que queria? o Portugal pluricontinental? Eu ainda aprendi na escola: Goa, território ocupado pela União Indiana. Nem dá para acreditar.

        Se passados 47 anos continua a sonhar com um regime que caiu de podre, bem pode sonhar com o regresso de Dom Sebastião num dia de nevoeiro. pode ser que o covid lhe resolva o problema. Lixo e reformas já há a mais neste país.

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