Com o Garrett ninguém se mete

Stefano Martignano, Padova_01 (https://bit.ly/2FB6X96)

Tenho estado tanto tempo à espera da tua voz
Para receitar-te campo e umas águas com gás
Conversas monolexicais deixam-nos sós
A ver insectos no banco de trás
—Johnny Garrett, Patient’s sunrise

***

E lá vou eu a caminho do gabinete do meteorologista, no quinto esquerdo do edifício cinzento. Fica ali para as bandas do cemitério, perto das antigas casernas, ao pé do velódromo. Não preciso do weather man para saber do que lado sopra o vento, já dizia o Bob Dylan, mas no emprego pediram-me um atestado a comprovar a minha depressão sazonal crónica, por isso, neste preciso momento, um meteorologista dá-me imenso jeito e faz-me muita falta. Encontrei este, por acaso, nas páginas amarelas cá do sítio. Chego ao edifício cinzento. Não há vivalma nas redondezas. Apanho o elevador com mau aspecto, chego ao quinto esquerdo e dou de caras com uma magricela um bocado pespineta. “Diga”, rosna-me ela. “Tenho consulta com o técnico, o meteorologista, sff”. Ela franze o sobrolho e tira-me as medidas. “O senhor doutor está ocupado com um poema. Mas pode atendê-lo. É só um bocadinho”. A pespinetazeca de tamanho meia-dose dá dois macérrimos murrinhos na porta, abre-a, troca o olhar cúmplice da praxe visto em tantos filmes de domingo à tarde e dá a ordem: “pode entrar”, diz-me ela, com um sorriso forçado, naquela cara de Helga Geerhart das casernas ali ao lado do velódromo. O senhor doutor do quinto esquerdo do edifício cinzento põe os óculos na ponta do nariz e dá-me as boas-vindas. “Bem-vindo. Estou aqui a acabar o poema, já o atendo”. Devolve os óculos à posição anterior e deixa-me dois minutos especado a distrair-me com os mapas, globos e barómetros do enorme consultório e intrigado a decifrar através dos vidros embaciados a vida que continuou lá fora na minha ausência. Aparentemente acabado o poema, volta a dar-me atenção e pede-me opinião: “veja se gosta”.

Vícios
E pressa em chegar ao fim
Visse-os
Eu à volta de mim
“A conversar com Garrett!”

Peixe e pães
Em denso “true cream”
Plasmeis pelas mães
Ei, dessoutra em que cri:
“a irmã de Luís XVI, Madame Elisabeth”.

“Espero que seja um bom meteorologista”, atiro-lhe com sinceridade, coçando a cabeça, depois de analisado o poema de todos os pontos de vista possíveis. “Terei sido pouco claro”, responde-me ele, “e o objectivo do texto passou-lhe ao lado”. “Além de alguma piada na homofonia, no jogo vogais nasais/vogais orais, nas alusões com aspas ao Eça – e também ao Antero – (só lhe faltava citar o testamento do Fialho de Almeida, benza-o dEUS) e na brincadeira grafémica da rima dos versos finais, francamente, como lhe disse, espero do fundo do coração que tenha êxito na meteorologia”. “O que falta ao poema?”, pergunta-me ele, fazendo-me sentir o George Steiner lá do consultório. “Além do essencial, falta-lhe também um erro ortográfico”. “Erro ortográfico? Mas qual, por exemplo?” “Experimente metereologista. É um erro bastante disseminado e há alguma ironia subjacente, por causa do reconhecido talento do autor deste poema, que, como muito bem sabemos, não é a poesia”, respondo-lhe, ensaiando uma pose de Harold Bloom com depressão sazonal crónica. “Obrigado”, agradece-me o meteorologista, armado em Allen Ginsberg da consulta meteorológica e a fazer-se de certeza à Helga Geerhart: o “cream” em vez de “crime” do poema pode parecer-vos, distraídos como sois, um contraste nasalado que não nasal com “cri”, e uma piscadela de olho ao Sam Shepard, mas aquele animal pode enganar-vos a vocês mas a mim não me engana ele — eu bem sei do que a casa gasta, conheço bem estes patifes armados em artistas, em escritores, em ensaístas, em pintores, em performers, eu bem sei porque já fui assim, assim como ele, metido num gabinete e a fazer-me com poemas e quadros e desenhos e esboços e musiquinhas e mais um porradão de mariquices e o raio que me parta às Helgas e às Marlènes que trabalharam comigo nos quintos esquerdos da minha vida. Eu bem sei do que falo. E ainda por cima… “Meteria o lojista”. “Meteria quem? O quê?”. “O quê? A ideia foi sua. Então e agora? O que acha?”:

Vícios
E pressa em chegar ao fim
Visse-os
Eu à volta de mim
“A conversar com Garrett!”

Peixe e pães
Em denso “true cream”
Plasmeis pelas mães
Ei, dessoutra em que cri:
“a irmã de Luís XVI, Madame Elisabeth”.

Som? Um. Lindo:
Metereologista
Sou-o, lido.
Meteria o lojista
“Aonde o bom Deus se mete”.

“Portanto, você tem depressão sazonal crónica”, resmunga-me, de mãos enfiadas nos bolsos, o Mário Cesariny dali do andar-não-sei-das-quantas-direito-ou-esquerdo-já-me-perdi-e-eu-não-tarda-nada-garanto-vos-eu-vou-lhe-às-ventas, como se aquela caricatura de poema nada tivesse a ver com ele, enquanto olho pasmado para esta última quintilha, apetecendo-me retorquir: “Portanto, você tem  mania crónica de ser poeta”. No entanto, “Sim. Pode ajudar-me?”, peço-lhe, enquanto a minha fiel molin vai rabiscando num bloco A-B-A-B-C-D-B1-D-B2-C-E1-F-E2-F-C e eu vou debitando palavrões mentais, uns atrás dos outros. “Vou passar-lhe um atestado de céu muito nublado”, anuncia-me ele, pegando numa bic laranja, “Pode ser que o seu chefe aceite. Não sei é dos meus carimbos. À saída, peça à nossa querida Helga para carimbar isto. Deixe estar. Peço-lhe eu”, e pisca-me o olho, o bandido, “São 80 euros”. Vou à carteira, enquanto revejo os segundo e quarto versos da segunda estrofe. Nada daquilo bate certo. O palerma meteu água e da grossa. Era gajo para avisá-lo. Que se lixe. Vá piscar o olho à mãezinha dele. Vá gozar com o velhote dele. “Se não aceitarem os termos do atestado, passe por cá e altero para céu negro com trovoada ou outra coisa qualquer que me ocorra naquela ocasião e que os impressione: a gente tem é de impressionar”. Saem quatro notas de vinte para o Cesário Verde armado aos cucos do prédio com elevador chunga e ele entrega-me o recibo. Damos uma cotovelada covidesca, levanto-me, abro a porta do consultório e reencontro a pespineta, a fazer que faz no corredor. Enfio-lhe o papelucho nas mãos esqueléticas. “Gostou da consulta, senhor Sá de Sousa?”, pergunta-me a lorpa, enquanto vai ao balcão da recepção carimbar o atestado, “o senhor doutor é muito divertido. E está a escrever um romance, nas horas vagas. A acção é em Paris. No Quartier Latin. Conhece Paris, senhor Sá de Sousa?”. Espeto um olhar fulminante na atrevida e simulo um sorriso conciliador, pego no atestado, dobro-o à boletim de voto, enfio-o no bolso interior do sobretudo negro como breu, arranco na bicicleta, feito Eddy Merckx da Rechousa, sprinto na chegada ao emprego, deposito o voto na urna da mesa de trabalho do meu chefe e piro-me para casa. Amanhã, pode ser que o vento esteja de feição.

Fim.

Comments

  1. Elvimonte says:

    Quase sempre uma lufada de ar fresco neste blogue. Refiro-me à sua escrita, que por aqui se fazem sentir efeitos de pressões, impressões e outras depressões, nomeadamente a meteorológica que agora impõe uma lógica nublada de aguaceiros.

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