Sigilo absoluto

A senhora dos Messies barrou-me o caminho, rua abaixo, obrigou-me a parar, a tirar os óculos de sol, a dar a última sacudidela ao sono, e a ouvir-lhe a suspeita:

-Esta chave… Devem ter andado a roubar…

Na sua mão reluzia uma chave que ela encontrara no chão enquanto passeava os Messies. Esperava em silêncio que eu lhe completasse a história, mas eu fui sempre lenta para enredos policiais, ainda que tanto os aprecie.

-Eles têm andado a roubar… e deixaram cair esta chave… Os ladrões daqui do bairro, sabe?

Estávamos frente à porta de um edifício em ruínas, com um cadeado na porta carunchosa e já sem pingo de tinta, e um cartaz da imobiliária a ponto de cair. Os Messies, resignados, sentaram-se no chão. [Read more…]

Fátima minha

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      Um caso de James Marlowe, Chico Nelo para os inimigos.

O meu nome é James Marlowe, embora toda a gente me chame Chico Nelo, porque fui baptizado Francisco Manuel. As pessoas não percebem que isso me pode retirar credibilidade como detective privado, mas velhos hábitos são difíceis de matar.

Aquele era um dia igual aos outros, talvez um bocado mais quente. O sol estava abrasador e, apesar do meu esforço por passar despercebido, as pessoas riam-se, quando passavam por mim, e algumas chegavam a inventar piadas sobre o facto de caminhar pela rua de gabardina apertada, como se fosse possível ser-se um verdadeiro detective privado de t-shirt e calções.

Quando cheguei ao prédio onde ficava o meu escritório, acendi mais um cigarro, a fim de estar preparado para subir quatro andares pelas escadas. Antes de entrar, olhei para o edifício onde era obrigado a conviver com a pior escumalha à face da terra: havia ali vários escritórios de advogados e duas sedes de partidos políticos. Iniciei a subida, sempre preparado para o pior, sentindo, ainda, um calafrio na espinha, ao lembrar-me de que me tinha cruzado com dois ministros na semana anterior, o que me fez ficar dois dias com vontade de fazer promessas e quebrá-las, porque apanho doenças com muita facilidade. [Read more…]

aquele que sabe que vai morrer

Quando se olha um homem que sabe que vai morrer – não num qualquer dia incerto, mas em breve e inexoravelmente – não é a morte que contemplamos, mas a vida que nele resiste, essa vida que nos desconcerta porque a achávamos impossível quando o futuro, a redentora ideia de futuro, desaparece. Um homem que sabe que vai morrer já só tem o presente e tudo o que a ele conduziu, tem o tempo – contado, escasso, precioso –, tem um corpo que talvez já não domine, tem fé ou não a tem, tem gente à sua volta ou está sozinho, tem-se a si mesmo – inteiro, desmascarado, definitivo. [Read more…]

Os mistérios do Natal

Como já tive ocasião de aqui escrever a minha vida de criança foi de saltibanco. Nasci a Norte, cresci no Interior e acabei a estudar e a trabalhar em Lisboa. Para quem teve a felicidade de criar raízes, não sabe o que deve a Deus ou ao destino, ou aos pais que pensaram a tempo e horas, enfim, agradeçam.

Quando vim para Lisboa aos dezoito anos, andei um ano com uma dor de barriga e chorava baba e ranho nas noites solitárias, prenhes de saudade. Da minha rua, do sol da minha rua…

Num sábado cheio de sol, tínhamos um baile em casa de uma colega do ICL, actual ISCGL, e estavamos aprumadinhos como convem, fomos almoçar, bebemos uma cervejinha e toca a ir para a Praça do Chile.

Antes de entrarmos, alguem se lembrou de beber um “eduardinho” e cá o jovem foi na cantiga, fazia frio, estavamos próximo do Natal e havia que fazer “lastro”. Passada meia hora, dizem os meus amigos, eu estava com a maior bebedeira de que tinham memória, a ponto de teram pensado em levarem-me ao hospital.

A verdade é que eu era um puto num corpo grande, nunca tinha bebido e o “eduardinho” foi fulminante. Lá me deitaram numa cama num quarto escuro, lembro-me de ouvir as vozes do meu irmão e outras que não reconhecia e passei a tarde numa enorme lástima.

Quando comecei a acordar e os vapores do alcool se começaram a evaporar, dei comigo com a cabeça no colo de uma mulher que não conhecia de lado nenhum, e que com todo o carinho e grande perícia (depois contou-me a que se devia…) me dava pequenos goles de “Água das Pedras “.

Ainda atordoado, os meus amigos arrastaram-me com eles para a residência que partilhavamos e deixamos a conversa para o dia seguinte. A minha curiosidade ia toda para aquela mulher que me havia ajudado e queria agradecer-lhe. Passados uns tempos encontramo-nos. Era uma mulher de meia idade com duas filhas que tinham estado no baile e que eu não conhecia.

Essa mulher tornou-se avó do meu filho ! E nunca, mas mesmo nunca, me falou no assunto da “azia”. O Natal está cheio de mistérios, assim tenhamos a alma aberta para os encontrar…

O mistério de um inocente convite

O mistério de um inocente convite (suspense final)

 -Em conclusão: creio que o melhor é marimbarmo-nos contra os mandamentos da santa madre igreja e fazer a mesma merda que eles, qual fidelidade qual gaita, qual adultério qual carapuça, qual até que a morte nos separe! Encontros secretos só de mulherio, ou então uma greve geral, uma nega geral, como manda a força revolucionária tão característica do nosso povo.

 -Ouça lá ó senhora…senhora presidiária, a senhora nem parece que é deste mundo! A senhora nem parece mulher de marido, ou lá o que é! O que funciona para o homem não funciona para a mulher. E o que funciona para a mulher não funciona para o homem. Nunca ouviu falar dessas coisas…essa da nega geral…já viu?! Até faz rir! Eles vão esfregar as mãos de contentes, e facilmente vão virar o feitiço contra o feiticeiro!

 -Para além de ficarem sem as suas estritas e já estreitas obrigações, então é que não lhes vão faltar pretextos para outros encontros com o paradigma da modernidade! Nesta altura da natural e feminina ausência das regras, a ausência de regra faz a desregra e atira-os inevitavelmente para onde eles ainda vejam regras.

 A minha amiga presidiária que está atrás das grades por ter chamado filho da puta, de caras, a um grande político e gestor, que tem dois Bentley, tês vivendas e quatro apartamentos, quatro piscinas, cinco saunas, e uma filha muito feia, e que se abotoou com largos milhões de euros do erário público, aprendeu algumas coisas comigo. [Read more…]

O mistério de um inocente convite

O mistério de um inocente convite (suspense 6)

 Uma outra esposa, que até aqui só tem estado a ouvir, de dentes cerrados e com a raiva a escorrer-lhe até muito abaixo do umbigo, comenta:

 -A única frase meio filosófica que tenho ouvido ao meu homem nos últimos tempos é, quando ele vai mijar, pela manhã e diz sistematicamente: O que a gente era e o que a gente é! Fico lixada!

 -Imaginem que quando o interroguei sobre o inusitado encontro, só entre gajos, ainda para mais, velhos e incapazes de sobreviveram sozinhos para além de um raio de dois quilómetros, ele me respondeu com ar meio freudiano, que se tratava, possivelmente, de uma espécie de simpósio, em que se faria o levantamento do velho conceito, já gasto, e se tentaria a sua penetração dentro do paradigma da modernidade, muito mais interessante do ponto de vista, digamos, sensorial e estético, do que o paradigma dos nossos tempos.

 -Estão a topar?… O levantamento…a penetração…no paradigma…muito mais interessante…só lhe faltou dizer, a esse filho da puta, muito mais depiladinho! [Read more…]

O mistério de um inocente convite

O mistério de um inocente convite (suspense 5)

 Numa outra mulheral achega para o secreto desenvolvimento da estratégia a adoptar nos subterrâneos neuronais da líder de Custóias, dizia aquela senhora de cigarro sempre na boca, que já teve um cancro do pulmão, ao qual sobreviveu após a cirurgia, que já teve um cancro da laringe ao qual sobreviveu após a cirurgia, mas nunca deixou de fumar:

 -Quando a minha avó era viva dizia-me sempre: ainda que velho, não o deixes pôr o pé em ramo verde. Sei lá se é verde se é maduro, eu penso que é mais pró vermelho esse ramo onde ele vai pôr o pén…, salvo seja, o pé!

 -O irmão do meu cunhado, que é da informática, diz que há um chip quase microscópico, que se aplica, sem ele saber, no relógio de pulso, objecto que nenhum homem tira nessas desavergonhadas funções, cujos movimentos anormais e descoordenados reproduzem um gráfico característico, durante a realização do acto sexual clandestino.

 -Mas tem de ser clandestino, porque com a própria mulher parece que dá uma linha isoeléctrica. Há quem o prenda nas peúgas, dado que é quase imperceptível, peça que o homem também nunca tira, e que dá o mesmo tipo de gráfico, mas invertido.

 -Também resulta a análise do PH da língua, mas é muito difícil convencê-lo a fazer a análise. Já não é tão difícil cortar-lhe as unhas quando ele regressa e tentar obter a partir daí um Papanicolau. No entanto, já corri todas as lojas de informática e dizem-me que o tal chip está esgotado, tem tido muita procura.. Apenas têm chips para a contagem de gases, muito frequentes na subida do Tourmalet, que é como quem diz na subida para o difícil e almejado clímax. Embora muito menos específico, e potencialmente enganador -os gases podem ser da comezaina e não da líbido-, este teste não deixa de ser denunciador. (Continua)

O mistério de um inocente convite

O mistério de um inocente convite (suspense 4)

 Uma nova denúncia, começando já a engrossar o processo, dizia respeito a uma cunhada, que é ajudante de farmácia, e que teria dito à recíproca cunhada que o irmão comprara uma embalagem de viagra. Não, não, não fora de viagra mas de cialis de 20 mg, logo de 20 mg! Parece que faz mais efeito e mais prolongado. Tem uma duração de acção de 24 horas. Contando com altos e baixos, claro, como a bolsa.

 -Pudera! Não se trata, muito provavelmente, de uma traulitada de coelho, mas de um bacanal de uma tarde inteira, quem sabe, se de um forrobodó a entrar pela noite dentro!

 Lamentava-se uma outra esposa, sorumbática, enfiada na concavidade depressiva de um velho sofá, cuja actividade sexual se resumia aos dias santos. Não porque o marido respeitasse essas datas festivas mas porque a fé a levava a essa graça por invocação de um santo secreto que lhe falava em sonhos, assim de uma forma meio atrevida.

 -Sete plásticas, número mágico ligado às sete cordas da lira e às sete cores do arco-íris, mágicas o tanas, de nada valeram. Basta um estranho e insólito convite, sem mulheres legítimas à perna, para ver o meu querido amor a rastejar, a rejeitar-me desde o Natal ao pentecostes e ainda por cima justificar:

 -Coitado do meu amigo, como não tem mulher, não pode estar, sozinho, a aturar as mulheres dos outros. Além disso não pode convidar toda a gente, é um homem só, pau para toda a colher, é certo, mas do corpo lhe sai!

 -Isso, isso, agora é que disseste tudo, pau para toda a colher.

 -Mas foi uma compreensível opção, mulher, tens de aceitar.

 -Aceito, eu aceito, mas como explicas que há dois meses, com dias santos pelo meio, não cumpres a tua obrigação da meia-noite, dizendo que estás muito cansado. Tens de te poupar, é? Tens de armazenar, é? Bruxo!. (Continua)

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