Matar a democracia gota a gota

Vale de Cambra, o meu concelho, é talvez um dos poucos que não cedeu a concessão da sua água a privados. Em 2013 esse risco ainda se colocou face a pressão de uma empresa que por acaso – mas só por acaso – tinha contratado um familiar do autarca social-democrata, uma manobra as quais se juntaram outras como como pressões ameaçadoras ou tentativa de compra de voto.
Ainda assim, Vale de Cambra resistiu e até a data parece ser consensual entre todos os partidos que este cenário é para ser mantido.
Mas como sabemos tal não acontece em muitos outros concelhos. Depois da privatização, os munícipes de Trofa, Santo Tirso, Vila do Conde, Cascais, Carregal do Sal entre outros, viram os preços deste bem disparar em modo bitcoin.

Eu sei existem alguns portugueses muito sensíveizinhos, coitados. Mas perante certas coisas eu não hesito nos nomes e adjectivos, e este negócio não pode ser classificado de outra forma: um roubo descarado.

Porque me importa o juridiquês, se foi ou não votado em assembleia municipal ou se os documentos “tinham para lá umas cláusulas”.
Este foi um roubo que uniu como intervenientes o pior da intervenção pública, através da corrupção de autarcas locais, com o pior do privado que através de empresas, alavancadas sabes lá como, empregaram alguns ex-políticos e trataram de se agarrar a teta do contribuinte visando o clímax de muito empreendedor tuga: rendas chorudas durante décadas.
Não conheço ao pormenor o desenvolvimento destes processos, mas pouco adiantou a revolta das populações e até de alguns autarcas bem como a intervenção do Tribunal de Contas que foi olimpicamente desprezada. Em geral, de nada valeu e mude-se o que se vier a mudar, algumas perdas são já irreparáveis.
E dentro das perdas irreparáveis, falo também da democracia.
Qual é a lógica de pedir confiança no poder local se este, nas costas dos munícipes, leva a cabo um assalto desta envergadura? Bem sei que existem negociatas piores mas para muito português médio os dinheiros públicos é “coisa lá deles, dos que mandam”.
E este assalto no sector da água atingiu a sangue frio a carteira de muitas famílias.
Eu sei que muita gente não gosta desta tese mas para mim ela é cristalina: Negociatas como esta arriscam matar a democracia e no mínimo enfraquecem-na até níveis difíceis de aguentar.
Perante isto, costumo deparar-me com dois tipos de reacções, a dos extremistas e a dos relativistas.
Os extremados não me interessam, porque um extremado necessitará sempre que a outra trincheira esteja bem atafulhada.
Quanto aos relativistas, lamento por vezes a análise simplista e redutora. O ranger de dentes que dá banda sonora a crescente raiva contra o sistema não é todo de gente extremista. Porque um agregado familiar de classe média que hoje sofre assaltos destes, não estará amanhã disponível para celebrar este tipo de democracia. E a culpa não é deles.
Negócios como os das águas, várias portagens sem lógica (a coberto da treta que Rui Rio chamou de pagador/utilizador), taxas incompreensíveis e tudo em simultâneo com o degradar de alguns serviços públicos, não pode continuar a passar sem que mais tarde ou mais cedo chegue a factura. Porque não se pode continuar a servir as comunidades, retirando-lhes cada vez mais, um dia chamando-os de cidadãos mas escravizando-os no outro. E por norma o ser humano não gosta de se sentir escravo. Nem roubado.

Comments

  1. Tuga says:

    Outra vez, Inês ?

  2. JgMenos says:

    Não duvido que assim possa ocorrer algumas ou todas as vezes.
    O estranho é que toda a gente aplauda quem quer muita função pública – sem cuidar que sejam competentes, admitidos e promovidos por concurso, sujeitos a inspecção por orgãos independentes – com tribunais que não funcionam e todo o vigarista pode esperar tranquilamente anos a fio até `à próxima amnistia.
    E sim, todas essas empresas são pequenas e locais, que se fossem grandes ou multinacionais, ainda que mais eficientes e com melhores preços, quem visse os lucros agregados estaria capaz de pegar em armas para salvar o país da exploração capitalista.

    Assim são roubados pelas falperras locais e gritam baixinho….

    • Filipe Bastos says:

      E sim, todas essas empresas são pequenas e locais, que se fossem grandes ou multinacionais, ainda que mais eficientes e com melhores preços, quem visse os lucros agregados estaria capaz de pegar em armas para salvar o país da exploração capitalista.

      Caramba, Jg: encher o cu a mamões está-lhe mesmo no sangue, não está? E que acha que acontece quando as “eficientes” multinacionais tiverem o inevitável oligopólio ou monopólio da coisa? O que acha que acontece sempre?

      • JgMenos says:

        As grandes empresas são maioritáriamente feitas com soma de pequenos capitais fundos de pensões e fundos de outras somas de capitais.

        Mas a cambada miserável de posses e soberba de inveja, quando vê números grandes fica em brasa e erguem a mãozinha fechada a clamar por pastores que lhes escondam os números.

      • Filipe Bastos says:

        Mas a cambada miserável de posses e soberba de inveja…

        Já cá faltava a ‘inveja’. Posso também assumir que além de encher o rabo a mamões, gosta de o lamber?

        Como o joseliveira já lhe explicou abaixo, os seus “pequenos capitais” são mamões de médio a grande calibre. Falar em fundos de pensões só ilustra a loucura deste capitalismo de casino; quem assim os usa devia ser preso.

        A ironia na sua obsessão por “números grandes” é o quanto isso o assemelha à esquerda: também esta adora grandes empresas e monopólios, como na URSS ou na China.

        Só mudam os mamões que tudo controlam e mamam; no resto o mesmo fascínio infantil e imbecil pelo ‘grande’.

    • Paulo Franzini says:

      isto é pior e mais vasto que público ou privado. Eu acompanhei de perto a tentativa de privatização no meu concelho e foi um lamaçal autêntico.
      Quanto as empresas, elas são todas de dimensão regional e algumas com capital estrangeiro.
      Não sou contra privatizações mas privatizar a água em Portugal não tem lógica nenhuma. Muitas destas concessões foram crimes autênticos.

    • Paulo Marques says:

      Mesmo que fosse verdade, ao menos o dinheiro não ia para o Panamá. O que te chateia mesmo era teres menos negócio.

  3. Filipe Bastos says:

    Até concordava, Franzini, se ainda cá houvesse democracia para matar. Creio que morreu e que fede há muitos anos.

    Como vêm aí as eleições autárquicas, nos últimos tempos tornou-se moda louvar o poder local: que é mui puro, mui democrático, mui próximo das pessoas. Ainda no Eixo do Mal ouvi o Cabeça de Porco (Marques Lopes) grunhir algo do género.

    Ora nem todo o Tide do mundo consegue lavar a imensa montanha de caciquismo, corrupção e podridão que é o nosso poder local. A suja negociata da água é só mais uma, embora particularmente repugnante, da corja a que chamamos autarcas.

    Pensando no país de norte a sul, passando pelas ilhas, só se vê um caminho: todos os contratos investigados, quase todos rasgados; todos os autarcas, vereadores e afins investigados ao cêntimo; todos sob escuta permanente; todas as futuras decisões auditadas.

    Em cada cem autarcas, talvez não fossem de cana quatro ou cinco. Com sorte. Mesmo muita sorte.

    • Paulo Franzini says:

      para mim a democracia não está morta, simplesmente vai andando num lamaçal sem lei. Quanto aos elogios pífios ao poder local, não é nada de novo. É tipíco elogiar-se o “pequenino” e o PML sempre foi especialista nesses discursos de miss Universo.

  4. Paulo Marques says:

    “E por norma o ser humano não gosta de se sentir escravo. Nem roubado.”

    Gosta, gosta, tem é que não perceber que é a ele (ou que também é). E quando é transparente, não se importam que alguém venha tapar, desde que venha pôr ordem. Nem precisa de mudar mais nada.
    E, sim, privatizar a água é daquelas coisas que dão sempre para o torto, é do pouco que resta, e “não há dinheiro”. Ficar mais caro depois (de várias formas) é para quem vier a seguir.

  5. POIS! says:

    O negócio das águas para consumo doméstico sempre atraiu a malta liberalesca por três razões muito liberais: é um monopólio, tem rendas garantidas e é uma vaca leiteira, porque quase não tem riscos associados.

    Cá dentro avulta o caso de Barcelos onde um contrato super-ruinoso, depois de um folhetim interminável, está na parte em que a câmara foi condenada a pagar 172 milhões de euros ás “Águas de Barcelos”. Com os juros a coisa vai para 200 milhões. Mas nada de pânico: são só três orçamentos anuais da câmara, mais coisa pouca menos coisa pouca.

    Um caso paradigmático, mas em sentido contrário, é o do resgate e renacionalização das águas em Paris. Durante a concessão, que durou, entre 1985 e 2009 o preço aumentou mais de 265%, enquanto a inflação durante o mesmo período foi apenas de 70,5!

    O que se seguiu? O valor da tarifa baixou 8% desde quando foi feita a municipalização. O valor das tarifas, depois de 10 anos, ficou 20% mais barato do que o das tarifas praticadas pelos operadores privados.

    Deve notar-se que a política não é tanto a constante baixa de tarifas, mas sim a limitação das subidas ao mínimo e a garantia de que todos os excedentes – vulgo lucros- serão reinvestidos no sistema e não desviados para atividades especulativas.

    Pode ler-se aqui:

    https://www.observatoriodasmetropoles.net.br/em-paris-remunicipalizacao-do-saneamento-possibilitou-investimentos-e-controle-social/

    Para outras experiências de renacionalização em todo o Mundo (de Portugal está lá o caso de Paredes):

    http://remunicipalisation.org/front/page/home#case_Paris

    Por cá, Mafra também conseguiu resgatar a concessão, mas pagando 21 milhões à “Be Water”, conseguidos através de um empréstimo, o que também tem os seus custos. De qualquer modo, nos 19 anos que durou, estima-se que os os cidadãos tenham sido prejudicados em 60 milhões de euros. Coisa pouca.

    • JgMenos says:

      Sempre que o accionista, para além de tarifas cobra impostos ao consumidor pode sempre fazer ‘milagres’.

      • POIS! says:

        Pois não se incomode, ó Menos.

        A justificar o saque. Só falta dizer que o “acionista” se chama Robin dos Bosques.

    • Paulo Franzini says:

      Obrigado POIS! . Conhecia o caso de Barcelos e até o devia ter mencionado, mas não o de Paris, agradeço que o tenha partilhado. Quanto a Mafra, é como você diz:
      ” De qualquer modo, nos 19 anos que durou, estima-se que os os cidadãos tenham sido prejudicados em 60 milhões de euro”

      60 milhões de euros mantinham um bom centro de formação profissional, centro cultural ou algo do género. Ou simplesmente, mantinham-se no bolso dos munícipes.
      São as tais perdas irreparáveis que eu falo no artigo. Isto é roubar a descarada.

      • POIS! says:

        Eu não quis maçar nem pretendi ser exaustivo. O caso de Paredes é parecido com o de Mafra. O município pagou, ou está a pagar, a compensação de mais de 20 milhões de euros.

        Paris tornou-se um “case study” de sucesso, mas o movimento é global. Além dos links que coloquei, há uma publicação já de 2014 que contava 180 casos em todo o mundo.

        Está aqui:

        https://www.tni.org/files/download/heretostay-pt.pdf

        Casos mais recentes, como o de Bordéus e outros municípios em França, alguns em Espanha, para falar do que está mais perto, podem ser vistos num link que já citei:

        http://remunicipalisation.org/front/page/home#case_Bordeaux

        Mas temos de reconhecer que muitas destas negociatas se realizam porque as pessoas não estão atentas e só se interessam quando a conta lhes aparece em casa. Por vezes, nem nessa altura.

        E o aumento pode ser motivado pelas melhores ou pelas piores razões. Veja-se o que aconteceu em Penacova onde a água é administrada por uma empresa intermunicipal, a APIN, cujos acionistas são apenas municípios (eram 11 no início).

        Habituados a pagar um preço muito baixo, os munícipes protestaram ruidosamente pelo aumento de preços cobrados pela APIN.

        E o poder político fez-lhes a vontade. A Assembleia Municipal votou a saída do município da APIN. Eu não sei se os aumentos estariam ou não justificados. Os habitantes dos outros dez concelhos não se revoltaram. Resta agora saber quem irá fazer os investimentos necessários e quanto será preciso.

        Embora nada tenha a ver com esse concelho, cheirou-me a demagogia e medo de perder eleições esta saída. Parece que não é caso único no país. Veremos o que aí vem.


  6. O Menos, com a sua incansável sanha superprivatizadora tem o descaramento de afirmar em sua defesa que as grandes empresas são formadas por conjuntos de pequenos capitais (como se isso fosse uma coisa boa. Boa para quem??). Julgo que deve estar a pensar em gigantescos oligopólios do tipo Vanguard ou BlackRock, as quais controlam, segundo a Bloomberg, investimentos combinados superiores a $ 20 triliões, o que quer dizer que são praticamente donos de quase tudo, desde o Big Pharma aos gigantes tecnológicos digitais. Entre os seus pequenos accionistas contam algumas familiazinhas algo famosas como os Rotchild, os Orsini, os Bush, Du Pont, famíla real britânica, os Morgans, os Vanderbuilts e claro os Rockefellers, entre outros. Sem supresa, ambos os gigantes são os maiores accionistas da Pfizer, da GlaxoSmithKline, da TimeWarner, Disney, NY Times, News Corp., etc. Acho que nem preciso de continuar. E é este mundo maravilhoso que desperta um tão grande entusiasmo a seres como o Menos. Porque será??????


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    • POIS! says:

      Pois mas…onde?

      Onde é que V. Exa. está á disposição para satisfazer os clientes?

      E é um de cada vez, ou tudo á molhada?

      Só pessoas graves? E as esdrúxulas, coitadinhas? Não têm direito a nada?

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