O PSD de cabeça perdida, rendido aos métodos da extrema-direita

Tinha este rascunho de molho, e entretanto passou um mês. O PSD anda tão apagado que acabei por me esquecer que existia. Mas ontem lá tropecei numa notícia sobre as internas de amanhã, e a primeira coisa que me veio à cabeça foi esta absoluta imbecilidade de tweet. Existem muitas maneiras de criticar um partido ou governante, bem mais eficazes e inteligentes, e dignas também, mas isto é bater no fundo. É, inclusive, um grande favor que faz ao PS. Um “regime totalitário socialista”? Contrataram os estrategas de marketing do CH, foi?

O PSD é livre para praticar o estilo de propaganda política que bem entender. Vivemos em democracia e somos livres para exprimir as nossas convicções e opiniões sobre a realidade que observamos. O PSD, por exemplo, entende que ficou provado, pelo próprio António Costa, que o que Portugal poderá esperar deste governo é:

um regime totalitário socialista de propaganda e austeridade.

Nem sei por onde começar. Tal como o PSD, também sou livre para exprimir as minhas convicções e opiniões sobre a realidade que observo. E o que observo, neste tweet do PSD, não está sequer qualificado para a categoria de vergonha alheia. Nojo é a primeira coisa que me vem à cabeça.

Até o timing é repulsivo. No momento em que precisamente um regime totalitário leva a cabo uma invasão brutal na Ucrânia, com cidades em escombros e valas comuns, o PSD achou oportuno usar o termo “totalitário” para classificar o governo. Isso, totalitário. Totalitário como a Rússia, que bombardeia a Ucrânia. Totalitário como a Arábia Saudita, que esquarteja jornalistas. Totalitário como a China, que mantém os uigures em campos de concentração e os cidadãos numa distopia orwelliana. Assim se desrespeita o sofrimento daqueles que sofrem às mãos do verdadeiro totalitarismo. E se faz propaganda tirada a papel químico da sebenta usada por partidos de extrema-direita, como o CH. Eis o PPD/PSD, autoproclamado partido moderado e responsável.

Tudo neste tweet é parvo. A insistência na ideia da austeridade, que revela que o PSD ainda não ultrapassou 2015, que ainda tem pesadelos com a Geringonça e com o Diabo que não chegou a vir. A hipocrisia sobre a maioria absoluta, como se Cavaco tivesse negociado os seus orçamentos de Estado com os partidos da oposição. Como se algum governo com maioria absoluta, em qualquer democracia do planeta, perdesse mais do que o tempo protocolar a falar com a oposição.

“A democracia ditatorial do regime socialista”, conclui. E assim, de forma tragicómica, termina aquela que terá sido a pior liderança de sempre do PSD. A mais irrelevante. A mais fraquinha. Com uma sucessão de maus e péssimos resultados. Com mínimos históricos. A macaquear o CH com tweets que poderiam ter sido escritos por um chalupa QAnon.

Houve um tempo em que me era indiferente se o PSD desaparecia do mapa. Estava lá o CDS e o resultado seria o mesmo. Hoje, a trajectória descendente do PSD contribui directamente para o crescimento da extrema-direita. E quando achávamos que a coisa não podia piorar, o PSD levanta-se e diz: hold my beer.

Bater no fundo é isto.

Virá Jorge Moreira da Silva a tempo de salvar o partido?

Comments

  1. Paulo Marques says:

    “Democracia ditatorial do regime socialista” não só é uma salada que nem ideologia tem, e sim inveja, mas é ridículo para quem vai fazer o costume e concordar na especialidade do orçamento.

  2. Rui Naldinho says:

    É verdade que todos gostávamos que os ordenados e as pensões de reforma subissem, eu incluído. Sabemos que há gente com bastantes dificuldades. Sabemos que com excepção do salário mínimo, os rendimentos estagnaram, com excepção de alguns sortudos, mas poucos.
    Também é verdade que o PS com maioria absoluta, nada tem a ver com o PS sem maioria absoluta. Sendo mau, é menos mau apesar de tudo, do que PàF.
    Agora ver partidos como o PSD a reclamar aumentos de salariais, depois de ter feito durante 4 anos o maior corte de rendimentos da nossa história democrática, dá vontade de rir.
    O problema deste PSD é não se libertar do seu passado. Da sua hipocrisia. Claro, o PS explora essa fragilidade como ninguém. Nestas eleições bem se viu, como o PSD se enredou numa teia de contradições, mais parecendo a CIP a falar, do que um partido político inter classista. Não foi por acaso que o PS ganhou as eleições com aqueles números.
    Bem ou mal, vamos levar com esta maioria absoluta por 4, quase 5 anos. Entretanto o PSD vai-se auto suicidando.
    Paciência. A escolha é deles. Como sempre aqui escrevi, o PSD não é mais do que o Chega com luvas de pelica.

  3. POIS! says:

    PSD?

    Confirmou-se. Caminha a passos láparos para um futuro montenegro, onde haverá choro e rangel de dentes.

  4. JgMenos says:

    Descolar do socialismo abrilesco tem suas dificuldades para quem invoca ser social-democrata.
    Veremos se o PPD encontra o seu caminho que o PSD sempre sobrou.

    • POIS! says:

      Pois tem Vosselência toda a razão.

      Ao PPD falta-lhe descolar. Porque não consegue?

      Bem, talvez porque aquela malta esteja um tanto seja avessa a proezas aéreas.

      Não se compreende. Somos um país de pioneiros da aviação. A começar pelo D. Afonso Henriques, que pôs os mouros a voar lá das muralhas do Castelo de Santarém.

    • Paulo Marques says:

      “Descolar do socialismo abrilesco tem suas dificuldades para quem invoca ser social-democrata.”

      É, as contradições do capitalismo têm destas coisas, como demonstrou o alemão.

  5. Joana Quelhas says:

    “No momento em que precisamente um regime totalitário leva a cabo uma invasão brutal na Ucrânia, com cidades em escombros e valas comuns, o PSD achou oportuno usar o termo “totalitário” para classificar o governo. Isso, totalitário. Totalitário como a Rússia, que bombardeia a Ucrânia. Totalitário como a Arábia Saudita, que esquarteja jornalistas. Totalitário como a China, que mantém os uigures em campos de concentração e os cidadãos numa distopia orwelliana. Assim se desrespeita o sofrimento daqueles que sofrem às mãos do verdadeiro totalitarismo.”

    Que bonito !
    Vêm como este comuna apenas quer o bem …
    Este comuna é da pior estirpe que existe. Dissimulado …Não se iludam este comuna das duas uma:
    Ou é um hipócrita da aristocracia ou é tropa rasa que é um idealista que ainda acredita nas boas intenções do esquerdopatismo.
    Como evidentemente é “tropa rasa” seria um dos primeiros a morrer no caso de uma instauração destas ideias ( ver história do Vietname p.e.) , se fosse parte da elite aristocrática esquerdopata e com poder de meios de acção ao seu dispor logo justificaria as seus crescentes atropelos dos direitos mais básicos das pessoas com as vantagens do sistema que estava a instituir. É sempre assim, a esquerda tem “as melhores” intenções quando está a instiuir a “Liberdade a Fraternidade e a Igualdade”.

    Joana Quelhas

    • POIS! says:

      Pois.

      E se a Juanna Qwuelass pusesse um apito na cabeça seria uma panela de pressão.

    • Paulo Marques says:

      Entretanto, temos a tropa rasa a ser carne para canhão, seja a literal a respirar fumo negro antes de ser despachada, seja a que parte a espinha em condições inseguras antes de ser despachada, seja a que nem sequer tenha lugar, a bem da acumulação e da estabilidade financeira, ou a que morre nos desastres naturais da poluição química, obras mal realizadas, e por aí fora.
      Mas temos todos a liberdade de morrer à fome, viva!

  6. Menos, Quelhas & barreiro-Separados à nascença says:

    E depois temos o Menos, o primeiro transgénero do Aventar. Umas vezes Quelhas, outras tantas Minorca.
    Vai-te melga. Para Troll, mais pareces um emplastro.

    • POIS! says:

      Hummmm…

      Uma arara, um camelo e um suíno a viver na mesma jaula?

      Não creio.

      Por razões zoológicas.

  7. estevesayres says:

    Não devemos estar admirados , visto a colagem que o P”S” do Costa, têm feito nos últimos anos ao PS”D”/neoliberais, tudo pode acontecer…
    Tendo já assegurado o PSD, um neoliberal com tique CH!!!

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