A minha Isabel II

Ponto prévio: a primeira de todas as Isabéis é a minha avó, que aparece aqui fotografada num dos seus muitos esplendores.

Não sou insensível a contos de fadas, até porque fazem parte da minha formação, sendo que, a partir de dada altura, tive de fazer um esforço para que não fizessem parte da minha deformação.

Não aceito, de qualquer modo, que esses contos de fadas sejam queimados em autos-de-fé politicamente correctos, porque também não me passa pela cabeça que as pirâmides egípcias sejam arrasadas para que os escravos ou os crentes (outra maneira de se ser escravo) que as construíram sejam compensados pelas vidas que perderam mesmo antes de morrer. É preciso aprender a viver com contos de fadas.

A rainha Isabel II, falecida de fresco, e a sua família fizeram parte de um conto de fadas com pessoas reais, que acompanhei na minha infância, em fotografias de jornais e de revistas cor-de-rosa. Como qualquer romântico incurável, maravilhei-me com casamentos que pareciam ter trazido os filmes da Disney para a realidade.

Depois, cresci devagarinho, descobrindo a humanidade dos divórcios, a inevitável fealdade da política (que não a torna menos necessária) e o parasitismo de mais uma família que era também uma atracção turística.

A minha racionalidade republicana e democrática rejeita necessariamente a ideia de monarquia, desde logo porque é uma ideia que não resiste ao privilégio artificial do nascimento. Por outro lado, a minha infância leva-me a olhar para Isabel II e família com uma simpatia a contragosto, talvez porque ainda me custe matar dentro de mim cinderelas e brancas de neve ou porque mantenho um gosto estranho por artefactos históricos, um fetichismo como qualquer outro.

Entretanto, nos últimos dois dias, através da frequência deliciosamente perniciosa das redes sociais, apercebi-me de que a monarquia inglesa tem uma quantidade de portugueses que a defendem furiosamente, reagindo com indignação sisuda a qualquer piada ou piadola, como fazem todos aqueles que sentem a família atingida, como se fosse uma família real. Nestes casos, o meu espanto é directamente proporcional ao meu divertimento, o que, no fundo, nasce deste meu convencimento de que sou uma pessoa crescida.

Comments

  1. JgMenos says:

    «uma ideia que não resiste ao privilégio artificial do nascimento»
    Para cargos simbólicos de representação, é menos artificial sê-lo por nascimento do que ver gente crescida a fazer fitas para se tomarem por símbolos.
    Nada mais artificial que o teatro sem vocação e tardio.

    Por falar em símbolos; que disse até hoje o nosso simbolo acerca de um qualquer palhaço ir para Moçambique pedir desculpas em nosso nome?

    • António Fernando Nabais says:

      Não vale a pena debater as complexidades da História e do ser humano com alguém que tem os poucos neurónios embotados por um fascismozinho de trazer por casa.

      • Antonio Lourenco says:

        Um Bravo ao seu doto comentário. Efectivamente os neurónios e a psique desse Jg , nem já me irritam, pois tenho de ter em consideração, que fede a fascismo e a uma triste mente cheia de Perturbações, descritas no DSM5.

    • Paulo Marques says:

      O Menos gosta muito de quem não trabalha e vive à custa do estado.

  2. Paulo Marques says:

    Quem gosta de hierarquias gosta de monarcas, a única surpresa é para quem acha que os liberais são republicanos.

    • Rui Naldinho says:

      Um belo comentário, curto e esclarecedor.

    • Anonimo says:

      Aquilo das monarquias deve ter algumas qualidades. Ou os povos atrasados, retrogados e subdesenvolvidos da Dinamarca, Suécia e Países Baixos já tinham posto os reis a andar, a bem do progresso.
      A Isabel II desempenhou bem o seu papel, mas o seu reinado não foram rosas e unicórnios (ainda ontem ouvi umas loas, falaram de tudo mas ninguém disse “Diana”). Realmente, ou vemos as pessoas como boas ou más, não há meio termo ou espaço para a complexidade. Assumir que pessoas cometem erros ou fazem coisas incorrectas ou “incoerentes”, não pode ser, tudo tem que ser defesa intransigente ou ataque implacável.
      Força para o Carlos 3, vai ter de lidar com o william wallace

      • Rui Naldinho says:

        Convinha recordar que as razões para a existência da maior parte dessas monarquias perdurarem tem muito mais a ver com os vários nacionalismos e a multiplicidade de pequenos Estados dentro do próprio Reino. A figura do/a Monarca é muitas vezes consensual em face das lutas políticas e nacionalistas.
        O Reino Unido e a Espanha são um bom exemplo. Mas a Bélgica, com francófonos e valões, também. Tal como a Holanda que difere de boa parte da Bélgica valónica, apenas porque uns são católicos, os belgas, e os outros Calvinistas, os holandeses. No entanto falam a mesma língua.
        Já no caso Sueco, Norueguês e Dinamarquês desconheço as motivações. Mas também é verdade que nestas monarquias, o Rei é um comum cidadão, discreto, avesso a escândalos e a mediatismos, que anda de bicicleta, janta em restaurantes como um qualquer mortal, sem séquito e apenas com a segurança pessoal que lhe é devida, apenas ganhará mais uns tostões do que a média, por ser figura máxima do Estado.
        Já no Reino Unido e na vizinha Espanha, escandaleira, negócios rocambolescos e corrupção são apanágio dos monarcas ou descendentes destes.
        Um dos maiores negócios de merchandising dos dias de hoje, para além dos grandes clubes de futebol, e dos locais ditos sagrados das várias confissões religiosas, são os eventos monárquicos.

        • JgMenos says:

          Pois não é que lá conseguiu encontrar razões para a monarquia, e nem desgosta de reis baratos!

          • Rui Naldinho says:

            O que dispenso é bobos da corte, Menos.

          • JgMenos says:

            SE não te preocupasses tanto em não te desviares do corretês evitavas umas tantas figurinhas tristes.

          • POIS! says:

            Ora pois!

            É que tivemos um reinado que nos custou muito caro: o do António I, o Botinas. Felizmente não deixou descendência, talvez por esterilidade da Nação.

            Terá ainda tentado com outras damas da corte, mas consta era tarefa difícil. Quando se proporcionavam uns raros momentos de intimidade, aparecia o Cerejeira e ficava tudo estragado.

        • Anonimo says:

          Não ganham “tostoes”, a princesa da NL fez 18 anos e ganhou direito a salário, acima de 1M/ano (de que abdicou para já), entre pagamento directo e despesas. E depois há o orçamento dos royals, para deslocações, etc.
          Claro que é mais fácil viver à grande num país rico que num miserável. Desconheço se gastam mais ou menos que o rei Marcelo.
          Os monarcas terão o seu papel, haverá sempre quem queira uma República, mas a maioria sai à rua quando o rei faz anos, literalmente, portanto algum valor verão naquilo. Associar a monarquia a subdesenvolvimento intelectual e social, ou afirmar que não faz sentido no sec xxi, parece algo exagerado.

      • Paulo Marques says:

        É o que eu disse, ajuda a manter a propaganda da hierarquia meritocrática hereditária, que dá muito jeito às pessoas de bem.
        Depende das pessoas. Gostar das festas com blackface e amizades com os Epstein não é para todos.

  3. Eduardo Duarte Campos says:

    5***** Já reenviei
    Eduardo Campos

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