Cruzei-me com os olhos da minha avó


Isto é por tua causa, João.

Hoje, fui felizmente obrigado a ir até à Rua de Santa Catarina (ou até Santa Catarina, como dizem os meus irmãos portuenses). A manhã estava luminosa, indecisa entre fria e quente. Fui até à Latina, comprei um livro e regressei, de costas para a Batalha. Estava como gosto de estar, com tempo. Como se fosse um turista sem a pressão das visitas guiadas, livre de mapas. À porta do Majestic, fui turista de turistas (já não deve faltar muito para que se organizem percursos de observação de turistas).

Precisava de tomar o segundo café, ler um bocadinho do jornal de ontem, continuar o livro, sentar-me. Ócio, o luxo obrigatório.

Pelo caminho, cruzei-me com uma velha conduzida por um casal. Estava a olhar para mim. Eram os olhos da minha avó. Não da mesma cor, não os mesmos olhos, antes o mesmo olhar, como é que isso se explica? Um certo desamparo, uma espécie de espanto infantil com a realidade, como se tivesse desaprendido tudo o que já soube. Os olhos da minha avó olharam para mim e não me estavam a acusar, talvez porque queira (eu ou ela?) limpar a minha consciência.

Mais à frente, entrei numa geladaria que poderia ser em Florença, como muitos cafés que agora embelezam o Porto. Sentei-me e fechei os olhos enquanto tomava o café. Lá fora, o ceguinho tocava acordeão (ceguinho, claro; nem cego e muito menos invisual) e uma vendedora gritava.

Abri o livro e tentei parecer concentrado. Poucos minutos depois, a velha com os olhos da minha avó entrou, guiada, apressadamente, pela mulher mais nova. Apressadamente continuaram em direcção à casa de banho, que, nestas idades, há urgências. Ao passar, outra vez os olhos da minha avó a olhar para mim.

O acordeão do ceguinho continuava a tocar. Olhei para a rua e vi um vendedor de castanhas. Infância, cheiro a queimado doce. Não conseguia continuar a ler. Estava à espera que os olhos da minha avó voltassem.

Passado um bocado, a velha, sempre ligeiramente alheada, mais fora do que dentro, passou por mim, mais puxada do que amparada. Voltou a olhar para mim e ciciou mais do que disse:

– Bom dia.

Talvez o tenha feito porque viveu muitos anos numa terra em que todos se cumprimentavam ou talvez porque tinha os olhos da minha avó.

Comments

  1. Efe Esse says:

    Andanças com reminiscência de menino

Trackbacks

  1. […] ia escrever umas coisas sobre ti. Mas ao começar, li o post do Nabais e, com o meu velho complexo de inferioridade, decidi não escrever nada. Perante aquele poema, […]

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