
À vista desarmada do comum plebeu, o protocolo London Bridge, planeado ao micromilímetro para garantir que as exéquias de Isabel II decorreriam de forma imaculada, estava em curso desde a manhã de Quinta-feira, pese embora o seu planeamento estivesse a ser preparado e limado há muitos anos. A família mais próxima a caminho de Balmoral, as declarações da sua equipa de médicos em crescendo de preocupação até ao anúncio oficial no final da tarde e até o Huw Edwards da BBC, de fato e gravata preta a apresentar no noticiário da uma, tudo apontava para o inevitável desfecho. É possível até que a rainha tivesse falecido durante a noite anterior, mas ainda não tinha chegado o momento de o anunciar, precisamente por haver um protocolo a seguir. Longo foi o seu reinado, como sempre se deseja nas monarquias sólidas, mas nem Isabel II era eterna. Nem verdadeiramente soberana. Era – sempre foi – refém do protocolo. Até na sua morte.
Ao longo dos próximos dias, semanas, este será o assunto que ofuscará os demais, sejam eles a Ucrânia, crise energética e inflação. Só o futebol sobreviverá a avalanche real. Será um espectáculo mediático sem paralelo, como nada do que vimos até aqui. Seremos levados por uma enxurrada de notícias, artigos de opinião e obituários até à exaustão. Faz parte, mais ainda quando a rainha era uma das grandes figuras da pop culture mundial. Trata-se de um outro protocolo, este informal, que nos obrigará a todos a discutir (ou ouvir, ler) a existência da rainha em todas as suas dimensões, que não são poucas nem particularmente superficiais.
Protocolos à parte, há algo que me parece inevitável: a morte de Isabel II não é apenas a morte de uma mulher, de uma rainha, por extraordinária que seja a sua existência. É a morte simbólica do último elo do Reino Unido com o seu passado imperial, cujo declínio, em bom rigor, começou ainda antes do início do seu reinado. E o que se segue poderá muito bem ser a deserção de todos, ou quase todos os Estados que tinham Isabel II como monarca, do Canadá à Papua Nova Guiné. Faz sentido que assim o seja. O que não faz sentido, há décadas, é a manutenção deste status quo que roça o absurdo. Na Austrália já começou e, em breve, outras peças deste dominó começarão a cair, uma atrás da outra, até só restar a metrópole. Como uma estrela que falece lentamente na imensidão do cosmos, assistiremos ao lento desmoronar do que restava do Império Britânico. Isabel era a cola que mantinha os cacos do reino unidos, mas Carlos está a anos-luz de ser um figura consensual. E os escoceses há muito que afiaram as facas. Irónico, que a rainha tenha falecido precisamente em Balmoral.
Sobre Isabel II, não tenho muito a acrescentar. Foi uma figura consensual entre a larga maioria dos britânicos, alguém que soube manter-se afastada dos escândalos que sempre rodearam a sua família e que nunca – ao contrário do filho Carlos – se perdeu em diatribes opinativas, que não lhe competiam e eram contrárias à gravitas que se lhe exigia e exige a qualquer monarca. Porque, no fim de contas, o que sabemos nós verdadeiramente sobre uma monarca como Isabel II, 96 anos refém de protocolos e encenações reais?
Anyway, may she rest in peace.






Bom texto, João. No essencial estou de acordo.
Só um pormenor. A monarquia britânica no seu esplendor colonial finou hoje de vez. Com os seus 70 anos de reinado, Isabel II apanhou uma boa parte das independências coloniais africanas, e alguns conflitos regionais, como o das Malvinas, por exemplo.
Contudo, dentro da Grã-Bretanha a monarquia ainda funciona como um cartaz turístico forte, cujas receitas são Infindáveis. Não estou a imaginar os ingleses a querem perder esse “maná”. E logo agora que se afastaram da restante Europa.
Isto é um bocado como os italianos perderem o Vaticano, os franceses perderem Lourdes, os espanhóis, Santiago Compostela, ou os portugueses, Fátima. Haverá um “milagre que ressuscitará a monarquia em todo o seu esplendor mediático e fofoqueiro”, nem que Camila faça uma plástica e Carlos escreva uma ou duas obras literárias.
Como se tudo fosse um mero cenário.
O Grã-Bretanha tem poder e organização política, militar e civil suficientemente estável para ser um parceiro útil.
Aproximadamente o contrário da metrópole do falecido império português, com uns palhaços a pedirem desculpas sem que se saiba de quê.
Nem se sabem governar, quanto mais. Ai, não, espera, não ter comida, água, mandar os indesejados para África, proibir greves, e poder hereditário, permanente, e sem eleições é um bom modelo, esqueci-me disso.
Ainda por cima dava-se bem lá, gostam muito de máquinas de lavar e não saber o que são genocídios.
proibir greves, o que é que os países socialistas são para aqui chamados
Lá está, não estão; é mesmo nos nossos amigos que gostam da ideia do Zé.
O bostinha resolveu brindar-nos com mais uma das suas tiradas. Foi pena a tua mãe não te ter abortado. E olha que não era genocídio, era só bom senso.
Perdoe esta pequena nota: é “status” (no caso nominativo), mas “statu quo” (caso ablativo).
O Rei de Inglaterra, Carlos III:
https://toranja-mecanica.blogspot.com/2022/09/o-rei-de-inglaterra-carlos-iii.html
Para lidar com o Wallace tem de ir para lá o William.
Carlos 3 não deve aquecer o lugar.
Os ingleses lá saberão, brexit, República, eles devem ter noção do que lhes serve.