Selecção iraniana goleia o Ocidente

Os jogadores do Irão foram goleados pela Inglaterra, num jogo em que golearam as democracias liberais em prova – Inglaterra incluída – rendidas à proibição do uso de braçadeiras arco-íris e t-shirts a dizer “direitos humanos para todos”. Desafiaram um regime tão violento como o qatari e recusaram-se a cantar o hino, em protesto contra a repressão no país. Ou, escrito em bom português futeboleiro, mostraram que têm uns tomates do crlh*!

Extrema-capitalista

Liz Truss, antiga avençada da Shell e defensora acérrima do capitalismo na sua forma mais desregulada e predadora, definiu como prioridade máxima, imediatamente após chegar ao n°10 de Downing Street, um enorme corte nos impostos, que tinha como principais destinatários os mais ricos entre os mais ricos. No entender da sucessora de Boris Johnson, tal decisão alavancaria a economia para o benefício de todos. Trickle down economics bullshit all over again.

Notem antes de mais, senhoras e senhores, que cortar impostos a direito, beneficiando as elites e reduzindo as receitas fiscais que permitem ajudar os mais desfavorecidos, é, segundo a narrativa dominante, sinónimo de moderação. Todos sabemos que exigir justiça fiscal é radicalismo a fugir para o extremismo, ali no mesmo patamar que o racismo, a xenofobia, a censura e a perseguição de minorias. A mesmíssima coisa. Tem feito um excelente trabalho pela democracia e pela generalidade das pessoas, esta moderação.

Adiante.

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Jair Bolsonazi e Silas Malafacho

Que Jair Bolsonaro é um fanático religioso já todos sabíamos, mas levar o ayatollah Malafaia para o funeral da rainha foi mais uma prova da teocracia que pretende impor no Brasil, até porque o pastor fundamentalista não desempenha qualquer função que o torne elegível para marcar presença num funeral de Estado. Silas Malafaia agradece e põe o seu exército pessoal de jihadistas cristãos a distribuir propaganda da extrema-direita no final da missa. Brasil e Irão, a mesma luta.

London Bridge is falling down

À vista desarmada do comum plebeu, o protocolo London Bridge, planeado ao micromilímetro para garantir que as exéquias de Isabel II decorreriam de forma imaculada, estava em curso desde a manhã de Quinta-feira, pese embora o seu planeamento estivesse a ser preparado e limado há muitos anos. A família mais próxima a caminho de Balmoral, as declarações da sua equipa de médicos em crescendo de preocupação até ao anúncio oficial no final da tarde e até o Huw Edwards da BBC, de fato e gravata preta a apresentar no noticiário da uma, tudo apontava para o inevitável desfecho. É possível até que a rainha tivesse falecido durante a noite anterior, mas ainda não tinha chegado o momento de o anunciar, precisamente por haver um protocolo a seguir. Longo foi o seu reinado, como sempre se deseja nas monarquias sólidas, mas nem Isabel II era eterna. Nem verdadeiramente soberana. Era – sempre foi – refém do protocolo. Até na sua morte.

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Boris Johnson meets Zack Galifianakis

Trata-se de um dos piores governantes da história do UK.

Um populista que mentiu descaradamente para conseguir o Brexit.

Um javardo que se emborrachava enquanto o mundo lidava com a pandemia e a rainha com a morte do marido.

Um palerma que está aí para provar que é possível ter a higher education de Eton, e saber citar longos trechos da Ilíada, sendo, em simultâneo, um profundo imbecil.

Mas uma coisa ninguém lhe tira: se o Zack Galifianakis deixar de representar, ninguém estará melhor posicionado que o Boris para ser o Alan do Hangover IV.

Greve geral ao arrepio dos ensinamentos (neo)liberais

Há dias li por aí que o problema com as greves da CP residia no facto de se tratar de um monopólio estatal. Que, privatizando a empresa e liberalizando o mercado, o problema resolver-se-ia. Strawberry neoliberal fields forever.

A mesma pessoa que brindou o Twitter com o brilhante raciocínio acima, aproveitou para acrescentar que, se fosse num país como o UK, onde o mercado é liberalizado e existem alternativas, tal nunca poderia acontecer.

Entretanto, no mundo real, a propaganda bateu na trave, com estrondo, e saiu do estádio. A culpa, em princípio, terá sido do socialismo.

De ditador em ditador, até à descredibilização final

Muito se tem falado sobre os PCPs desta vida, e respectivas posições sobre a invasão da Ucrânia (e muito bem), mas muito pouco sobre certos e determinados quadrantes ideológicos, que conseguem fazer igual ou pior, sempre daquela forma hipócrita e dissimulada que os caracteriza. São todos muito democratas excepto quando a economia exige a capitulação perante os interesses económicos que mandam nisto tudo. E eles capitulam, sem pestanejar. Ou, parafraseando o CEO da Volkswagen, “Limitar a actividade a países democráticos não é um modelo de negócio viável para os fabricantes”. Esclarecedor.

Vejamos, por exemplo, o caso dos impolutos conservadores britânicos, grandes guardiões da democracia, que passaram anos a receber milhões de rublos da oligarquia russa, sabendo perfeitamente a proveniência desses financiamentos, o que nunca os fez recuar. Nem cleptocracia oligárquica nem os envenenamentos de opositores de Putin por terras de Sua Majestade, como os casos de Alexander Litvinenko e Sergei Skripal.

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Roman Abramovich e a mão pesada do governo britânico

Pela glória de Sua Majestade, deram os seus bravos cavaleiros cabo do sonho londrino de Roman Abramovich. Quando comprou o Chelsea, em 2003, ocupando na altura o cargo de governador de Chukotka, onde se manteve até 2008, as mãos de Abramovich não estavam sujas. A sua eleição, para um oblast tão longínquo que está mais perto de Washington DC do que de Moscovo, terá seguramente sido limpa e transparente. A sua fortuna relâmpago, estratosférica, terá seguramente resultado do trabalho árduo e do seu génio fora de série. E as ligações a Putin, é sabido, remontam a 24 de Fevereiro de 2022, quando ambos se conheceram e Abramovich sujou as mãos. A mão pesada de Londres é implacável. Os oligarcas russos que andam há anos a enviar remessas para o Palácio de Westminster que o digam.

O Putin é mau, mas o gás dele é muito jeitoso

Não tinham passado 24 desde o reconhecimento da independência das repúblicas-fantoche de Lugansk e Donetsk. E, daí a outras 24, o exército de Putin atravessaria a fronteira da Ucrânia, dando início a invasão para a qual os membros da NATO estavam a alertar há vários dias. Tal não os impediu de comprar centenas de milhões de euros em gás, petróleo e outras commodities russos. Presumo que terá presidido à decisão o mesmo espírito que procurou excluir marcas de luxo do primeiro pacote de sanções. Ou abrir as comportas dos espaços aéreos, convictamente fechados à malvada Rússia, para que os pobres oligarcas pudessem entrar no seu playground. Ou, em geral, a mesma convicção democrática que nos leva a ter os chineses como principal parceiro de negócio. Os campos de concentração, perdão, de reeducação para Uigures não se vão pagar sozinhos, não é?

Brexit, in theatres

Isto não tem paralelo. Pelo menos na história recente de um reino que é uma potência cultural, económica, militar e, não menos importante, democrática. Não tem. O Brexit foi há dois dias, e os efeitos já se fazem sentir, muito antes do que era expectável, pelo menos para mim. E para muitos outros. E surpreende-me, com toda a sinceridade, a quantidade de negacionistas deste desastre em curso. A quantidade de pessoas que acredita, verdadeiramente, que a escassez de combustíveis e as filas para os postos de abastecimento são uma encenação. Que as prateleiras vazias em inúmeros supermercados são montagem. Que a falta de mão de obra em vários sectores é fake. Que os militares nas ruas a substituir camionistas é algo que nunca aconteceu. O Reino Unido não se vai dissolver, apesar das ameaças dos descendentes de William Wallace, nem se vai transformar num Estado falhado. O UK é too big to fail. Mas que isto é muito grave, e inimaginável há poucos anos, e um dos maiores embaraços da história deste país, é.

Chegou-se a este ponto. Ao ponto de ser necessário abater 120 mil porcos saudáveis, todos os 120 mil impróprios para consumo, porque faltam trabalhadores. Porque os imigrantes que foram demonizados durante a campanha negra do Brexit já não entram ou foram embora. E não há, entre os súbditos de sua majestade, quem queira ocupar as vagas abertas. Na volta anda tudo agarrado ao RSI lá do sítio. Deve ser isso.

Países desenvolvidos não são para governo de marxistas…

Apesar dos britânicos estarem fartos das trapalhadas políticas dos conservadores, apesar do Brexit, apesar da impopularidade do político errante Boris Johnson, os eleitores do Reino Unido deram uma derrota colossal à esquerda radical, liderada pelo marxista Jeremy Corbin, provavelmente o pior resultado do labour desde a 2ª guerra mundial. Longe vão os tempos de Tony Blair, os militantes trabalhistas podem agora escolher continuar o caminho que os leva ao precipício, ou regressarem ao bom senso e voltarem a merecer a confiança da sociedade britânica.
Faço votos para que do outro lado do Atlântico, o partido democrático não caia na tentação de eleger Sanders ou Warren, oferecendo de bandeja mais 4 anos a Trump. Por muito graves que sejam os problemas no presente, não é com ideologias do passado, que serão resolvidos. No século XXI ninguém quer ser governado por socialistas de inspiração marxista, pelo menos nos países desenvolvidos.

Diplomacia, demagogia e hipocrisia: o caso Skripal e o oportunismo político

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Indústria petrolífera à prova de sanções diplomáticas. Fotografia via CBS

Percebe-se o desespero de Fernando Negrão e a necessidade de se pôr em bicos de pés para tentar marcar a agenda mediática com declarações como as que proferiu ontem, que de resto mais não foram do que uma espécie de retweet parlamentar das declarações proferidas no dia anterior por Paulo Rangel na SIC Notícias. Ou não estivéssemos perante um líder parlamentar desorientado, cuja primeira linha de oposição que enfrenta está no interior do próprio grupo parlamentar que tenta, sem grande sucesso, dirigir. Um líder parlamentar fragilizado, em sintonia com uma direcção partidária enredada em casos que se sucedem, sob fogo cerrado da imprensa afecta ao passismo. É natural que recorra ao facilitismo deste tipo de subterfúgio. [Read more…]

Retrocesso e radicalização: o alarmante destino de Theresa May

New British Prime Minister Theresa May speaks to the media outside her official residence,10 Downing Street in London, Wednesday July 13, 2016. David Cameron stepped down Wednesday after six years as prime minister. (AP Photo/Kirsty Wigglesworth)

A chegada da eurocéptica Theresa May ao poder no Reino Unido não está a ser particularmente animadora. Poucos dias após se mudar para o nº10 de Downing Street, a nova primeira-ministra inglesa já conseguiu a proeza de promover uma onda de retrocessos de proporções consideráveis. Margaret Thatcher iria adorar.

Para a pasta do Ambiente, May convidou Andrea Leadsom, a Ministra da Energia de David Cameron que recentemente questionou a veracidade do problema das alterações climáticas, flagelo que ainda esta semana regressou à ordem do dia, após a divulgação de um relatório encomendado pelo executivo Cameron que avisa para a necessidade do país se preparar para cheias, vagas de calor e escassez de alimentos provocadas precisamente pelas alterações climáticas. Leadsom é também uma apoiante da caça à raposa, do abate da floresta e do regresso em força do carvão, caminho que o seu antecessor tentou reverter.  [Read more…]

Brexit – Um sopro de Liberdade…

Os dinamarqueses rejeitaram em referendo Maastricht, mas foram obrigados a repetir votação. Os irlandeses rejeitaram Lisboa e tiveram o mesmo destino. Pelo meio os franceses rejeitaram uma Constituição europeia e entre outras chapeladas até os irrelevantes portugueses nunca viram concretizada a promessa de realização de referendo. [Read more…]

Afinal também existem eurocépticos na família política do PàF

caso dos 6 ministros do governo britânico que já pediram a David Cameron para fazer campanha a favor da saída do país da União Europeia. Ou não fossem os tories eurocépticos. Em Portugal, segundo a narrativa actual, seriam comunistas.

Sobre as eleições no U.K.

Existem várias razões para os britânicos manterem o sistema eleitoral e comparações com Portugal são absurdas, porque a realidade é diferente. Seria mais fácil a comparação com Espanha. Porque também é uma federação de nações. Fala-se agora nos escoceses, mas poucos referem os 8 deputados unionistas a que se somam os 4 que o Sinn Fein elegeu na Irlanda do Norte, bem mais que o UKIP. Para lá dos 5 partidos amplamente referidos nos noticiários em Portugal, foram eleitos mais 22 deputados. Ora imaginem o que seria um círculo nacional único no U.K., retirando a representação parlamentar às várias nações que o integram. Imaginem também um círculo único em Espanha, que reduziria imenso o peso dos nacionalistas catalães ou bascos…