Extrema-capitalista

Liz Truss, antiga avençada da Shell e defensora acérrima do capitalismo na sua forma mais desregulada e predadora, definiu como prioridade máxima, imediatamente após chegar ao n°10 de Downing Street, um enorme corte nos impostos, que tinha como principais destinatários os mais ricos entre os mais ricos. No entender da sucessora de Boris Johnson, tal decisão alavancaria a economia para o benefício de todos. Trickle down economics bullshit all over again.

Notem antes de mais, senhoras e senhores, que cortar impostos a direito, beneficiando as elites e reduzindo as receitas fiscais que permitem ajudar os mais desfavorecidos, é, segundo a narrativa dominante, sinónimo de moderação. Todos sabemos que exigir justiça fiscal é radicalismo a fugir para o extremismo, ali no mesmo patamar que o racismo, a xenofobia, a censura e a perseguição de minorias. A mesmíssima coisa. Tem feito um excelente trabalho pela democracia e pela generalidade das pessoas, esta moderação.

Adiante.

E o que é que aconteceu, perante o anúncio de tal medida?

Euforia nos mercados?

Fogo de artifício na City?

Aplausos das instituições financeiras internacionais?

Não, não é não. Em vez disso, aconteceu uma coisa muito mais divertida, que foi a economia britânica se ter aproximado perigosamente do colapso, como não acontecia desde a queda do Lehman Brothers. A libra caiu para mínimos 37 anos (!!!) face ao dólar, os índices bolsistas afundaram, os juros do crédito à habitação dispararam, os fundos de pensões foram perigosamente ameaçados e o Banco de Inglaterra viu-se forçado a intervir. Faltou pouco para adicionar mais uma boneca na matrioska de crises que estamos a viver.

A visão neoliberal da economia, fundada numa abordagem absolutamente selvagem e extremista do capitalismo, sem outro valor que não seja lucro das elites a qualquer custo é, a meu ver, o problema do qual derivam todos os outros. É ele que alavanca a normalização de líderes e regimes autoritários e totalitários, de paraísos fiscais, da degradação de direitos laborais e sociais em geral, da destruição de serviços públicos e – entre tantos outros – da oligarquia russa, que ainda ontem era sua parceira de referência. Mesmo após a invasão da Crimeia, que não beliscou o estatuto.

A clientela deste monstro anarco-capitalista, que promove uma concentração monopolística e destrói a pequena concorrência, para, de seguida, se dedicar à cartelização, é, em si, uma forma de extremismo. E a negação desse utópico e imaginário mercado livre. Uma ameaça tal que o próprio capitalismo mainstream se colocou na dianteira das críticas às opções do governo britânico. Cercada, Liz Truss recuou. Mas a capa da The Economist, esse ícone das Edições Avante, disse tudo.

Comments

  1. Luís Lavoura says:

    um enorme corte nos impostos

    Não sei nada de detalhes, mas o que ouvi algures é que esse “enorme” corte consistia em parte em descer o IRS dos mais ricos de 45% para 40%. Isso não me parece propriamente um corte muito grande.

    • Parece que foi suficientemente grande para os “mercados” reagirem, e de que maneira. Mas se não quiser ver o que para eles foi evidente, esteja à vontade.

    • Ernesto says:

      Isso já não é ideologia nenhuma, é religião!!

  2. JgMenos says:

    Nem para dizer que os pilares mestres da economia capitalista (mercados, …) reagiram mal às propostas da Truss se dispensam da lenga-lenga dos coitadinhos subsidiados por impostos.

    • POIS! says:

      Pois foi!

      Quem diria? Os liberaleiros em combate assanhado!

      Pelo Menos desta vez, lenga-lenga liberalesca foi parar à valeta! Ninguém acreditou que a receita da cotrimtintinada liberalesca lá do sítio se pagaria a si mesma!

      A alternativa? Seria cortar fortemente na despesa pública, mas aí…mais que o cargo, os coirões da troupe “Truss & Sus Muchachos”, arriscavam mesmo o seu maior capital: o coiro!

      Vamos lá voltar atrás e ala que se faz tarde!

  3. Paulo Marques says:

    A única coisa correcta na narrativa popular é que os fundos de pensões estiveram ameaçados, uma vez que tinham uma posição grande na estabilidade da taxa de juro; o BoE fez o que tinha que fazer, já não estamos é habituados, e o resto recuperou para o declínio anterior, que o monopolista manda.
    Claro que os juros à habitação subiram, qual é que acham que é o objectivo de subir as taxas de juro de referência, resolver as cadeias de produção ou passar o custo à classe média? De resto, a única coisa que mudou foi riscar a descida dos 45%, que, sejamos sinceros, nenhuma dessa gentinha paga, e desde quando é que os mercados são contra?
    Ver a esquerda a festejar a austeridade ligeiramente mais ligeira é deprimente; é sinal que concorda com o fundamental.

  4. luis barreiro says:

    A mentalidade exposta: acabar com os ricos para que todos fiquem mais pobres, e em pleno séc. xxi ainda há doutrinados.

    • Pimba! says:

      Entretanto, a Truss prefere acabar com os pobres à fome para que todos fiquem mais rico, e em pleno séc. xxi ainda há Barreiros doutrinados a achar bem, porque näo entendem que o melhor é tornar os obscenamente-ricos apenas super-ricos, para que os pobres passem a remediados…

  5. Anonimo says:

    Os mercados patriarcais querem é fazer tudo para mandar abaixo uma governante, preferiam o caucasiano homem Boris.

  6. Joana Quelhas says:

    Este Comuna João Mendes no seu melhor…com a careca toda à mostra.
    Propaganda Comuna embrulhada em “boas intenções”.

    Este é o tipo de comuna mais perigoso que há.

    Dizer mal das sociedades capitalistas livres porque existem ricos e pobres comparando-as com sociedades comunas ideais que só existem nas suas cabecinhas ocas , totalitárias e pouco democráticas.

    Se fossem intelectualmente honestos bastava compararem as sociedades livres capitalistas com as sociedades comunistas reais e depois perguntarem ao cidadão comum qual a melhor opção.

    Ou para simplificar perguntem a um pessoa normal para onde quer emigrar, para os EUA ou RU ou para a Venezuela ou Argentina ou Nicarágua ou etc, etc.
    Liz Truss (sobre a qual não tenho ainda opinião formada) pelo pavor que provoca aos comunas parece ser a mulher certa para colocar a Inglaterra no rumo certo.
    Esperemos que Liz Truss seja pelo menos parecida com Margareth Tatcher pois o mundo ocidental precisa para além dos EUA fortes um Reino Unido também forte.

    Joana Quelhas

    • Paulo Marques says:

      Olhe que não, também vai ter que salvar, por exemplo, as empresas de transportes, e interferir no livre preço da energia, é uma malvada socialista. Apesar de proibir greves e manifestações, não vá restringir a liberdade dos patrões.
      Livres, livres foram os que assaram em Grenfell, falta de mérito em escolher uma habitação bem construída.

      Numa coisa tem razão, é natural que as pessoas sigam o mesmo rumo dos recursos espoliados pela metrópole, sabem que não fica por aí, como nunca ficou.

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