
Marcelo Rebelo de Sousa não comete erros, salvo raríssimas excepções. Porque Marcelo é calculista, planeia e antecipa, e joga o jogo como poucos, na política e na imprensa.
Marcelo é de outro campeonato. Tanto que destruiu a concorrência na corrida à Belém, num momento de crise existencial à direita, com o apoio do primeiro-ministro e presidente do partido com o qual o seu PSD disputa o controle do Estado.
Esta semana, porém, assistimos a uma dessas raríssimas excepções. E não, não estou a tentar desculpar Marcelo. As declarações do presidente são hediondas e inaceitáveis. E não acho que Marcelo o tenha feito inadvertidamente. Acho que foi calculado, com o objectivo de minimizar o horror que aqueles números representam. Foi um frete do presidente da República de um Estado laico à hierarquia da Igreja Católica. Só que correu mal, obrigando Marcelo a recorrer ao seu amplo repertório de desculpas esfarrapadas.
Isto para vos dizer que já vi cabeças serem pedidas por declarações menos graves. Mas Marcelo é uma espécie de semi-deus da política que sobrevive a tudo.
Sobreviveu às ligações a Marcello Caetano e ao Estado Novo. Por muito menos, Cavaco foi acusado de ser fascista.
Sobreviveu à amizade e às férias pagas por Ricardo Salgado, antigo patrão da namorada de Marcelo. Por muito menos, dezenas de políticos foram acusados de corrupção, sem uma única prova.
Sobreviveu ao namoro com uma antiga aluna. Por muito menos se acusaram professores de conduta inapropriada, assédio e até abuso.
De maneira que, em princípio, sobrevive a esta também. Ou não tivesse sido eleito por uma esmagadora maioria absoluta de pessoas que já sabia, há anos, que Marcelo costumava dar o ar da sua graça no camarote Espírito Santo do Estoril Open. Temos exactamente os políticos que merecemos.







Marcelo Rebelo de Sousa cada vez se parece mais com Álvaro Cunhal no período pós Perestroika.
Está para a ICAR como Álvaro Cunhal estava para a União Soviética e o comunismo em geral.
Cunhal acreditava que a US e o comunismo iriam salvar a humanidade do imperialismo, das desigualdades sociais, da pobreza, da miséria e da servidão.
Quando se desmembrou a União Soviética e toda a rede de países à sua volta, como os do chamado Pacto de Varsóvia, mas não só, deitando por terra tudo aquilo em que os comunistas acreditavam, como a igualdade e a felicidade numa vida melhor, em todos os aspectos, incluindo o económico, Cunhal, em vez de assumir o falhanço do sistema e o seu erro de análise, de forma humilde, como bom estalinista que era, passou à fase do passa culpas e da desvalorização daquilo que foram as atrocidades e ditaduras comunistas.
Havia sempre uma desculpa para tudo e para todos os falhanços do comunismo. Ou eram desvios ideológicos, ou era o aburguesamento, … a culpa foi sempre daqueles que ele e os restantes comunistas, antes idolatravam.
Marcelo é um católico convicto. Ainda me lembro dele, ambos miúdos, ele mais velho do que eu, na Sé Catedral de Lourenço Marques, hoje Maputo, com os seus pais na missa. Eu também lá estava. Não tínhamos alternativa.
O Governador e a família tinham um lugar separado dos outros crentes, uma espécie de camarote, numa das alas laterais da nave onde estava o altar mor, da imponente catedral. Compreendia-se pela Segurança imposta pela PIDE, aos actos públicos do governador. Lá estava ele de calções ou calças, tipo uniforme colegial, com os pais na missa.
Marcelo sabe que a história das igrejas em geral, nomeadamente daquela em que é crente, está cheia de atropelos à dignidade humana e terror. É um rol de assassinatos contra personagens do próprio clero que destoavam da voz dominante, incluindo Papas, a denunciantes da corrupção instalada, à actuação da Inquisição durante vários séculos contra pessoas de outras confissões religiosas, a pedofilia, etc. Tudo isto faz parte do legado histórico da ICAR ao longo de 2000 anos. Claro, também há boas ações. Não nos equivoquemos. Temos é de encarar a realidade e não nos refugiarmos na cobardia, desvalorizando o crime, e muito menos no negacionismo.
Tal como Cunhal, Marcelo não quer acreditar no que está a assistir com sua Igreja, aquela em que faz fé, por medo de assumir o equívoco no comportamento do clero, os pilares da estrutura. Em certa medida, ao desmoronar de um certo conceito de moral e bons costumes construídos em volta da doutrina social da igreja.
A Igreja é feita por homens de carne e osso. Gente com libido tal como os restantes mortais da sua espécie. Gente com aspirações de amar uma mulher ou um homem, conforme as circunstâncias, mas que por adversidades várias, sendo a pobreza e o desemprego uma delas, optaram pela vida eclesiástica para fugir da miséria. Foi assim sempre e ainda o é.
O resultado não poderia ser muito diferente deste.
Olhe que não, olhe que não. Ao menos acertou no ao que nós íamos.