Paulo Raimundo Em Curso

Foto: MANUEL DE ALMEIDA / LUSA

Os processos internos dos partidos interessam-me tanto como os das empresas privadas. Não sou apologista do modelo comunista de eleição – chamemos-lhe assim – do secretário-geral do partido, mas também não sou propriamente um entusiasta da alternativa proposta pelos partidos do bem, assente em campanhas difamatórias, compra de votos, quotas pagas em cima da hora, de militantes que vivem aos 20 na mesma casa, e facadas em geral.

Devo dizer, aliás, que a prática do PCP tem uma vantagem, que é a transparência: toda a gente sabe ao que vai quando entra no partido, e toda a gente que está fora, a rachar outro tipo de lenha, sabe o que a casa gasta. E, que se saiba, só lá está quem quer. A mim interessa-me, sobretudo, que o PCP cumpra as regras da democracia no Parlamento, nas autarquias que governa e na sua acção política em geral. O que se passa no interior do edifício na Soeiro Pereira Gomes é lá com eles.

Interessa-me, contudo, um aspecto deste processo, que distingue o PCP da generalidade dos partidos portugueses. Em nenhum outro partido seria possível eleger alguém como Paulo Raimundo.

Quem?

Exactamente.

Liderar um partido como o PS ou o PSD obriga ao cumprimento de inúmeros requisitos. Um deles é o mediatismo do candidato. Um candidato desconhecido do grande público, ainda que extremamente competente e sobejamente conhecido no seio do partido, não tem a mínima hipótese. Paulo Raimundo, de quem eu nunca tinha ouvido falar, chegou à JCP aos 15 anos, transitou para o PCP aos 18 e, aos 20 anos, já era membro do Comité Central. Em princípio, aos olhos dos militantes comunistas, será um tipo competente e com valor. E, presumo eu, não andará atrás de tacho. Porque já era funcionário do partido antes desta nomeação, porque a diferença salarial, a existir, será insignificante, e porque, convenhamos, quem compra políticos neste país não está propriamente interessado em militantes comunistas para conselhos de administração. Está interessado no seu desaparecimento e, se possível, no desaparecimento dos sindicatos e no isolamento unitário de cada trabalhador.

O que me espanta, neste processo de substituição de Jerónimo de Sousa, é a teimosia de um partido que vem perdendo terreno a cada eleição, e que prefere abdicar da dimensão mediática, com activos como João Ferreira, João Oliveira ou Bernardino Soares. Em detrimento de um ilustre desconhecido, que corre o risco de, à imagem do PCP, ser olimpicamente ignorado pela comunicação social. Num momento como o actual, com o PCP em tendência descendente, reduzido ao mais pequeno grupo parlamentar da sua história, a perda voluntária de visibilidade parece-me uma decisão arriscada. Mas eu não ando nesta vida há quase 102 anos. Ando há 38 e há mais de 20 que ouço dizer que o PCP morreu. Aposto convosco que vamos todos primeiro.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Quem conhecer a história do PCP sabe que dificilmente uma personalidade como João Ferreira; o bonitão lá do sítio, ou João Oliveira, um tribuno de muito boa qualidade, isto para não falar noutros que ainda lá estão, seriam líderes do partido.
    Nos últimos 30 anos o PCP perdeu uma série de intelectuais, muitos deles com o nome firmado na Academia. Uma boa parte deles, como Pina Moura, Carlos Brito, Domingos Lopes, Vital Moreira, etc, etc, acabaram como CEO’s de grandes grupos económicos, mandando o comunismo às malvas. Ou seja, para comunista “ortodoxo apostólico leninista”, eles venderam-se. São uma espécie de Judas.
    O purismo do PCP jamais permitiria um desvio à linha Leninista que sempre presidiu ao partido. Para o Comité Central do PCP os intelectuais são bem vindos, mas sempre com um pé atrás neles.
    Enquanto o PSD é o partido da CIP e dos grandes negócios, o CDS o partido flop, limitado aos gabinetes de alguns jovens Advogados, e o PS o partido dos arranjinhos entre o Estado e o privado, o PCP é o partido dos Sindicatos. O partido da única Central Sindical que existe no país. O resto são sucedâneos do PREC para entreter alguns idiotas que acreditam num sindicalismo fofo abraçado ao patronato.

    • POIS! says:

      Só uma pequena correção: não me consta que Carlos Brito e Domingos Lopes sejam CEOs de coisa nenhuma. Pelo contrário! Veja só esta entrevista do Domingos Lopes:

      https://expresso.pt/guerra-na-ucrania/2022-03-06-domingos-lopes-ex-dirigente-comunista-posicao-do-pcp-sobre-a-russia-e-cegueira

      Tanto um como o outro se situam claramente à esquerda.

      Mesmo o Vital Moreira (esse já não o situo à esquerda em termos de posições políticas, pelo contrário!) não pode ser metido nesse saco. Que me conste é professor da Universidade Lusíada Norte, onde tem desenvolvido um trabalho bastante meritório, em conjunto com José Domingues, sobre a Revolução Liberal de 1820 e o que se lhe seguiu – a Constituição de 1822, publicado na revista “JN História” e compilado em livro – “No Bicentenário da Revolução Liberal – Da Revolução à Constituição 1820-1822”, publicado pela Porto Editora (que recomendo vivamente!). Não sei se tem alguma alcavala no mundo empresarial, mas não me consta.

      Já o falecido Pina Moura, ou o “jamé” Mário Lino, por exemplo, realmente consta que rumaram ao CEO.

      • Rui Naldinho says:

        O Vital Moreira esteve na EDP, durante alguns anos, o actual CEO da Melo Saúde, que foi ministro da Saúde de um governo do PSD, Luís Filipe “das não sei quantas”, foi dirigente comunista até 1980. O Daniel Bessa, nos tempos do PREC também lá andava.

      • Rui Naldinho says:

        Eu sei que o Carlos Brito, o Domingos Lopes, e mesmo o Carvalho da Silva, entre outros, não viraram a casaca. Evoluíram apenas na forma do PCP se posicionar em face das novas realidades que a globalização desencadeou.
        E louvo essa sua postura. Aliás para mim o PCP só perde com alguns dos seus posicionamentos no que diz respeito à política internacional, como defender a Coreia do Norte, a China, etc.

        • Paulo Marques says:

          Estranho, este ano só relevou a importância da soberania, da não-interferência, da negociação internacional, dos perigos dos blocos hegemónicos onde só um ganha, e por aí fora.
          Mas quem quiser celebrar a falta de luz, comida, e tecto em troca é livre de o fazer, e ainda bem. Podia era perceber a origem.

          • Paulo Marques says:

            Onde se acrescenta a existência de palhaços a instigar a troca nuclear o mais depressa possível.
            Ao menos ver o Dupont e Dupont assustados com o que andam a vender quase valeu a pena.

    • Anonimo says:

      Dos Sindicatos, mas já nem isso.
      Por alguma razão eles, e muita esquerda tradicional, não gosta dos sindicatos orgânicos (é assim que se chamam?). Perder o monopólio custa.

  2. Paulo Marques says:

    Vai-se a ver, e quer a gente séria ainda quer acabar com o mundo, seja com as bombas, seja com as alterações climáticas, a ver se finalmente se livra do espectro.
    Se não conhecemos o sr Raimundo, é bom que apresente serviço, porque a carteira não se mantém sozinha, e a alternativa, bom, é isto.

  3. Anonimo says:

    Não percebo as críticas ao PCP e ao modo como escolhe os seus dirigentes.
    Quem não goste que vote noutros.

    Aliás, como vintage, gosto de saber que há coisas que não mudam. Eles funcionam assim, no dia em que mudarem aquilo deixa de ser “o” PCP.

    • Paulo Marques says:

      Preferem fazer as coisas de forma moderna, de forma semelhante ao mercado, com promessas de cargos, financiamento das cotas, transporte de eleitores, conluios de bastidores, facadas nas costas…
      Ninguém preste atenção que ainda há 2 meses estavam a elogiar que 400 pessoas escolherem um primeiro ministro era digno de uma grande democracia europeia. Por 44 dias, tal a grandeza.

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