Muito se tem falado sobre os lucros ditos excessivos que algumas das maiores empresas, em Portugal e lá fora, têm acumulado ao longo dos últimos anos, primeiro durante a pandemia, agora com a invasão da Ucrânia e a inflação que daí resultou.
Já aqui escrevi sobre a decisão de vários governos europeus, à esquerda e à direita, de aplicar taxas sobre a fatia dos lucros considerados excessivos. E sobre a resistência deste governo de eSqUeRda em seguir o mesmo caminho. Não sei o que esperavam de um governo que se chegou à frente para pagar o aumento do salário mínimo nessas empresas, mas eu não esperava nem espero nada. O único governo de esquerda que este país conheceu foi o XXI, este e os restantes são o business as usual de sempre.
Mas não vos vim cá falar sobre dinâmicas políticas e governamentais. O tema de hoje é a inflação, os lucros excessivos e supermercados. Grandes e pequenos. E é sobretudo sobre estes últimos que venho falar. Um grande, o Continente, e um pequeno, o Pomar Coutinho. O Continente todos conhecem. Está por todo o lado. Já o Pomar Coutinho só os meus conterrâneos conhecerão. Para os que não têm a sorte de residir no belo concelho da Trofa, trata-se de um pequeno supermercado, bem no centro da cidade, onde os preços praticamente não foram alterados desde que a inflação se tornou tema.
Tenho a sorte de nunca ter sentido a necessidade de comparar preços ao cêntimo. Mas comecei a fazê-lo, a partir do momento em que percebi que a narrativa dos preços baixos das grandes superfícies comerciais era uma mentira. Já lá vão 5 ou 6 anos.
Produto e produto, fui transferindo todas as minhas compras de mercearia para o Pomar Coutinho, como de resto já tinha feito com os legumes e fruta, que passei a comprar no mercado semanal da Trofa, e fui progressivamente abandonando o Continente, onde fazia 90% das minhas compras.
Continuo a comprar alguns produtos no Continente, e também na Mercadona. Este texto não é um apelo de boicote. É, isso sim, uma sugestão para que façam o mesmo: comparem preços, nas grandes superfícies, nas pequenas mercearias de bairro e nas bancas dos agricultores da vossa terra nos mercados de frescos. Rapidamente encontrarão muitos motivos para mudar. Deixo-vos alguns exemplos, de produtos que compro habitualmente, para perceberem de que diferenças falamos.
EXEMPLO 1: gel de banho Nivea
No Pomar Coutinho, compro este produto a 3,19€. No Continente, na passada Sexta-feira, descobri-o a 6,99€. Uma diferença de 3,80€, mais do dobro. Ou, se preferirem, um acréscimo de 119%.
EXEMPLO 2: Cápsulas de Café Delta Q
No Pomar Coutinho, uma caixa de 40 cápsulas de café Delta Q custa 10,60€. No Continente, na passada Sexta-feira, custava 12,99€. Uma diferença de 2,39€, mais 22%.
EXEMPLO 3: Macarronete Milaneza
No Pomar Coutinho, um pacote da massa preferida cá de casa custa 0,99€. No Continente encontrei-o em promoção na Sexta-feira, 3 cêntimos mais baratos, mas o preço real é 1,75€. Mais 0,76€, uma vez mais perto do dobro do valor. Ou, percentualmente falando, mais 77€.
EXEMPLO 4: Grão de Bico Compal
No Pomar Coutinho, uma lata das grandes (468gr) custa 1,99€. Não tenho foto da sua congénere no Pomar Coutinho, mas tenho a minha factura de Sexta-feira e o custou-me 1,60€. Uma diferença de 0,39€, mais 24%. E notem que este foi um dos poucos produtos, entre os que fazem parte das minhas compras habituais, que viu o seu preço aumentar deste o início da escalada inflacionária. Se não me falha a memória, custava 1,49€ antes da subida.
Bem sei que isto é apenas uma amostra, mas poderia perfeitamente ter alargado os exemplos a outros produtos, e tinha mais exemplos para vos dar. Não pretendo, contudo, ser exaustivo. Pretendo, isso sim, desafiar-vos a fazer o mesmo exercício, e rapidamente chegarão às mesmas conclusões que eu. A matemática, ao contrário do marketing ou da propaganda, é mesmo uma ciência exacta. E é precisamente aqui que ganham as grandes superfícies: no marketing e na propaganda.
Eis uma boa razão para taxar os lucros excessivos: os gigantes da grande distribuição, não apenas o Continente, aproveitam-se do poder que têm para aplicar aumentos que não resultam da inflação, mas da ganância pelo lucro fácil. Mas se o Pomar Coutinho resiste há décadas, sem explorar o consumidor, parece-me óbvio que é preciso dar o troco, até ao cêntimo, a quem se aproveita de uma desgraça para lucrar. Agora só espero que a gente boa do Pomar Coutinho não chegue a ler este texto e me aumente os preços na próxima semana.






A inflação resulta, entre outras coisas, do excesso do dinheiro em circulação o que dá azo a que ainda se possa pagar o que consumimos, apesar dos preços elevados devido á escassez dos mesmos. Resulta daqui que quem tem maior poder de compra sufoca os mais desfavorecidos. Também e, fundamentalmente, da ganância dos comercializadores que se aproveitam da situação para exagerarem nos lucros. Os governos decentes procuram minimizar a situação taxando os lucros excessivos resultantes da falta de dignidade destas empresas. Não sei se este governo, está ou não, entre os governos decentes. Temos de esperar para ver.
Ainda não morreu a parvoíce da teoria do excesso de dinheiro em circulação? Têm que ir à vida as poupanças todas para o perceberem?
Morreu? Está mais viva do que nunca!
É só escutar todos os dias Camelos Lourinços e os Gomas Ferreiros!
Não é que seja mude grande coisa, mas a Sonae é o retalhista mais caro, e as contas do senhor Coutinho não devem andar muito boas. Mas que vai haver mais multas para o ano, lá isso vai.
Eis uma boa razão para taxar os lucros excessivos: os gigantes da grande distribuição aproveitam-se do poder que têm para aplicar aumentos
Que poder têm eles? Não têm poder nenhum. Qualquer pessoa que ache que os preços deles são excessivos pode fazer o mesmo que o João Mendes faz: ir comprar alhures.
A concorrência é livre, e as pessoas são livres de fazerem compras onde bem entendem. Não há qualquer razão para taxar os lucros.
O João Mendes também, se quiser cortar o seu cabelo num cabeleireiro, pode cortá-lo por 5 euros, por 10, por 15, por 20 ou até por mais. Nenhum cabeleireiro está a fazer lucro excessivo: eles cobram o que entendem e o João Mendes pode aceitar, ou então ir cortar o cabelo noutro lado.
Ora pois!
E o que se passa com o cabelo, passa-se com os combustíveis, a água, a eletricidade, etc.
E até com as couves e as hortaliças. O Mendes pode aceitar, ir comprar a outro lado e, se o preço não agradar, não comer até ao fim do período inflacionário.
Como é um fenómeno temporário (*), o Mendes aguenta bem. Há até um faquir indiano que, dizem, aguentou 60 anos sem comer, deitado numa cama de pregos (os colchões, lá na Índia, estão pela hora da morte! Mas, em contrapartida, as casas de ferragens florescem! É o Mercado a funcionar!)..
(*) Vidé sucessivas e perentórias declarações de Lagarde, Centeno e Costa. O fim está para breve. Não se sabe é o fim de quê!
Têm largamente a maior parte do controlo efectivo do mercado como definido pelos tratados que tanto gostam, e pelo qual ainda há pouco foram multados.
E, mais do que isso, têm o poder de ditar os preços e outras condições ao produtor através da sua cota de compra.
Tambem pode cortar em casa então é que fica barato
Exatamente. É o que a minha mulher faz, por exemplo: corta o cabelo a si mesma. Não gasta um tusto em cabeleireiros.
Esse luxo burguês, cortar o cabelo!