Miguel Alves é a regra, não a excepção

Não fiquei minimamente surpreendido com o desenrolar e desfecho do CaminhaGate. Até porque Miguel Alves é a regra, não a excepção.

É a regra num universo de 308 autarquias pouco escrutinadas, vezes demais controladas por autênticas quadrilhas partidárias e interpartidárias, que manipulam o uso de orçamentos camarários e fundos europeus em proveito próprio.

Que servem os interesses de empresários e investidores.

Empresários ou investidores, que, por sua vez, financiam campanhas e sacos azuis, a troco de negócios, obras, licenças, empregos ou simples lobby.

São dezenas, centenas de milhões de euros que são desviados e afastados do seu uso devido, em clara violação das mais elementares regras de legalidade e concorrência.

Quem me conhece sabe o que penso sobre o poder autárquico. Quem não conhece, fica a saber: o poder autárquico é uma fonte interminável de corrupção. Não discuto que existam boas excepções e eleitos honestos, é óbvio que existem, mas toda a gente sabe que parte significativa das dinâmicas autárquicas assenta no tráfico de influências, no suborno e na corrupção.

E é fácil de perceber porquê.

É que, com meia-dúzia de excepções, o escrutínio é fraco ou não existe. E quanto mais pequena a autarquia, menor o escrutínio e mais fácil se torna a prática destes crimes. E os holofotes que pendem sobre Lisboa, Porto, Braga, Coimbra e Setúbal, e sobre uma mão cheia de autarquias mais, simplesmente não existem em autarquias como Caminha, salvo raras excepções.

Não sei qual foi o arranjo entre Miguel Alves e Ricardo Moutinho. Sei que o empresário é um vigarista, daqueles que constrói empresas de fachada sem outro propósito que não o de circular dinheiro por paraísos fiscais, que se gaba de ser dono de um império que, apesar de tudo, não lhe permitiu abdicar dos 300 mil euros que esmifrou à autarquia de Caminha, e que mentiu no CV e no percurso profissional. E mais cera não gastarei com o homem que afirma ser tratado por PhD. Querendo saber mais, façam o favor de ver o jornalista Micael Pereira a esmagar este doutor ou o RAP a fazer dele uma piñata no Isto é Gozar com quem Trabalha de há três semanas.

Já Miguel Alves não me surpreende porque nenhum dos seus esquemas é novo. Nem preciso de sair da Trofa para já ter visto empresas serem criadas para responder a concursos viciados. Aliás, já vi uma empresa ser escolhida para prestar um serviço à Trofáguas meses antes de ser criada. Já vi concursos serem abertos para obras já concluídas. Já vi um autarca gastar mais de 200 mil euros do erário público para pagar o seu jornal de campanha e outros esquemas mais. Isto para vos dizer que políticos como Miguel Alves é o que mais há neste país.

E, lamento a frontalidade, é o que este país merece.

Políticos que roubam, mas fazem. O povo adora-os. Que o diga Isaltino Morais.

Outro aspecto, igualmente comum cá pela Trofa, foi o patético argumento usado por Miguel Alves sobre a elite da sua cidade natal, Lisboa, ser contra a construção de pavilhões transfronteiriços em Caminha. A velha balela que se traduz em responder a uma crítica ou acusação fugindo dela e aplicando uma canalhice de natureza populista-emocional. Tipo isto:

  • Essas pessoas estão a criticar/acusar porque não gostam de ___________!

Basta introduzir o nome do concelho, qualquer um, porque, regra geral, serve para todos. Mas tem sempre piada, um lisboeta, que fez carreira no PS, foi assessor de Sócrates, fez ajustes directos com a CML governada por Costa, foi dar uma perninha à CM de Caminha e ainda chegou a Secretário de Estado venha falar nas elites de Lisboa. É preciso não ter vergonha na cara.

Em suma, o que se passou com Miguel Alves poderia passar-se com dezenas, centenas de autarcas, caso saíssem do anonimato e dessem à costa em Lisboa para assumir um ministério ou secretaria de Estado. É tudo uma questão de holofotes. Mas não esperem grandes mudanças. Os autarcas, por vários motivos, são ainda mais imunes que os governantes de Lisboa. De maneira que me resta fazer votos de que a justiça leve este caso até às últimas consequências e que todos os envolvidos, não apenas Miguel Alves e Ricardo Moutinho, paguem a factura do compadrio. É o mínimo que podem fazer por nós. E o mínimo que a sociedade civil deve fazer é não permitir que casos como este caiam no esquecimento.

Comments

  1. José Manuel Faria says:

    -nem mais!

  2. Paulo Marques says:

    Ora bem, ou a democracia é participativa e escrutinada, ou ganha os mesmos tiques, de cima a baixo, daquilo que garante a pés juntos que não é.
    Se calhar devia passar pel’A obra começar pela saúde, educação e qualidade dos serviços públicos, já que, pelos vistos, há sempre dinheiro, e sempre são capazes de atrair mais investidores.

  3. JgMenos says:

    Eu não diria melhor, mas importa pôr a questão na prespectiva certa.
    As leis são feitas bem acima, na capital da bandalheira

    • POIS! says:

      Pois não diga!

      Então Vosselências estão tão bem organizados que até já têm uma capital?

      Espantoso! Um verdadeiro estado paralelo! (*)

      (*) Ou, pelo Menos, formado por venturosos paralelos!

  4. Anonimo says:

    O doutor foi esmagado? Sério? Ou também terá sido arrasado…
    Já agora, quais foram as consequências? Perante tais acusações (nao leio os alegadamentes) foi destituído de todos os cargos, já levou com um processo crime, limita-se a sair de cena uns tempos até a poeira assentar?

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