
Neste caso, Lisboa. A paranoia de andar sempre a tropeçar com o absurdo da injustiça normalizada.
Dois exemplos:
- SUV dominam a cidade, como se estivéssemos no deserto e não houvesse amanhã. O espaço que ocupam, a brutalidade que impõem, a desigualdade que cimentam, os recursos que consomem, a poluição que provocam e o pouco que pagam por tudo isso, à custa dos outros. Porquê?? Enquanto isso, autocarros cheios, sardinhas em lata. Nem um vestígio de discernimento sobre o que seria justo: pagar às pessoas que andam de autocarro, compensá-las por fazerem aquilo que é necessário.
- Frente a uma repartição da AT: uma fila até à rua; só atendem com marcação; Porquê?? Uma funcionária à entrada atende por alto; duas no balcão de trás fazem qualquer coisa nos computadores. Todas respondem como se não fossem pagas por nós e como se não quisessem dar seguimento aos assuntos de quem vem pagar os seus impostos. Um cartaz na parede: Atendimento preferencial: Advogados, solicitadores, agentes de execução, contabilistas certificados. Porquê?? Diz-se que por estarem estas pessoas a agir em representação dos interesses dos seus clientes; E daí? É o seu trabalho, são remuneradas por isso. Já as outras pessoas, os cidadãos “normais” em muitos casos têm de faltar ao seu trabalho para ir às Finanças; pois ainda são penalizadas e subalternizadas. Com que legitimidade se dá um tratamento preferencial a este grupo? Só porque exerceu o seu lobby para se sobrepor ao cidadão “normal”??
A injustiça está entranhada neste sistema, todo ele montado para beneficiar os mais abonados e os turistas. Privilegiar os mais ricos é considerado o normal. A arraia-miúda que se lixe. Como naquela anedota de mau gosto, em que a filha sem pernas pede à mãe que lhe dê uma bolacha da caixa que está em cima da mesa e a mãe lhe diz que vá ela buscar, ao que a filha responde: ó mãe, mas eu não tenho pernas e ao que a mãe contesta: pois se não há pernas, não há bolachas. Pois se és remediado, aguenta.







autocarros cheios, sardinhas em lata
Não sei onde a Ana vê isso.
Eu andava de transportes coletivos (atualmente ando geralmente a pé) há 40 ou 50 anos. Nessa época, sim, era sardinhas em lata, ia-se mesmo muito apertado. Atualmente, o que vejo e (ocasionalmente) sinto, nos transportes públicos nunca se anda sardinha em lata. As pessoas raramente ou nunca têm que empurrar, fisicamente, para entrar. Como eu fiz muitas vezes quando era miúdo ou jovem.
“Não sei onde a Ana vê isso.” Não vejo Luís Lavoura, quando estou em Lx. ando por opção nos TP e tenho sempre várias oportunidades de vivenciar como se sentem as sardinhas em lata.
Utilizo transportes públicos regularmente para me deslocar de casa, em Vila Nova de Gaia, para o trabalho, no Porto. Na hora de ponta, não só é habitual viajar ensanduichado e assistir ao jogo do empurra que o meu caro Luís Lavoura refere como relíquia do passado, como não é nada raro que os autocarros passem e não parem pois seguem completamente cheios.
Note que não me refiro ao serviço da STCP mas sim a outros privados incluídos no “Andante”, designadamente a UTC e a MGC.
E isso só demonstra o total enviesamento das políticas, face ao que seria imperativo: todo o conforto e gratuitidade para os TP.
Pois…disse muito bem “ocasionalmente”. E devia acrescentar às horas em que anda
Desolador.
Que misturada com toque macabro!
Que os profissionais pudessem ter privilégio em horário limitado era o mínimo da decência.
Aparecer um tipo que nos ultrapassa e que vale por quantos clientes tenha a tratar só nesta choça!
Quanto aos SUV …
… vá lá: um SUV eléctrico é só o melhor exemplo da cultura capitalista-woke: duas toneladas e meia de chapa amiga do ambiente e fiscalmente apetecível.
É apenas puto desvirtuamento capitalista.
Palmas, palmas, palmas, palmas……………….
Lisboa perdeu mais de 300 mil habitantes nos últimos 70 anos mas ganhou mais de 350 mil automóveis a entrarem diariamente, sem falar na explosão do turismo na última década, e o transporte público não acompanhou na mesma velocidade este processo.
Aquilo que Luis Lavoura disse simplesmente não existe.
É frequente quando não diário haver autocarros acima da limitação prevista de passageiros. Sobretudo nos autocarros de longo percurso. Também é frequente a junção de 2 autocarros até em horas fora de ponta, e o resultado é que o da frente vem cheio e o de trás vem quase vazio.
Tente apanhar por exemplo o 750 nas horas de ponta da tarde em Algés, e quase sempre acontece isso. É que o 750 em parte do seu percurso substitui a ridícula ausência de uma ligação ferroviária directa entre as linhas de Cascais e de Sintra e o resultado é que não tem capacidade para a boa fluência de passageiros.
O mesmo acontece por exemplo com os eléctricos amarelos, que os turistas acham que é para turismo e nós achamos razoavelmente que é transporte público e o resultado é caótico.
Mas há mais – por exemplo, jogos de futebol. Lisboa entre Alvalade e Luz não tem condições mínimas de transporte público para um potencial acréscimo local de mais de 100 mil pessoas, e o resultado é que o popó ganha em toda a linha e entopem e travam o normal funcionamento horário dos autocarros. Os utilizadores normais já o sabem – tempo duplicado? é hora de jogo. É por isso que sou contra o mundial, em termos de transporte público está tudo por fazer.
Outro dos gigantescos problemas da cidade é não haver praticamente corredores BUS dedicados, tornam o autocarro demasiado lento, é absurdo haver autocarros parados em vias rápidas como na 2ª circular ou nas Avenidas Novas ou na zona dos Campos, que entope tudo frequentemente em hora de ponta, os autocarros estão sujeitos às vicissitudes dos veículos ligeiros\pesados, se há acidente pára tudo.
As linhas de metro estão todas ligadas apenas há 10 anos, e não há nenhuma linha terminada. Seria preciso duplicar a actual quilometragem para o serviço ter algum nexo. E só faz sentido haver uma linha central se as actuais ligações periféricas se mantiverem. Coisa que não está planeada.
Concordo com o post, no fundo a mentalidade do transporte público é que serve os pobres, é a carroça moderna. Os “outros” andam nas carruagens modernas, e têm muita dificuldade psicológica em travar os cavalos nas passadeiras, e deixam-nas por todo o lado – agora até há as trotinetes que são um sintoma evidente do gigantesco desleixo do Município em relação ao peão\cidadão. Este desleixo é de mentalidade, para mim há ainda a velha separação aristocrática\povão em Lisboa.
Acho que já digo isto há 20 anos, aquele\a que tiver a pasta dos transportes em Lisboa e revolucionar por completo a mobilidade de transportes que atualmente não existe merece uma estátua.
É que não basta o sistema de passes. É preciso redesenhar tudo.
O 50 atravessa (ou atravessava) literalmente a cidade toda. Vazava e enchia na Estação de Benfica.
Engraçado como ligava Alvalade à Luz em 5 minutos, sendo que de Metro era preciso quase fazer duas linhas completas para o mesmo percurso
Curvo-me perante o gajo que, para demonstrar o espírito ovino dos portugueses, resolveu fazer a experiência sociológica de botar um “7” à frente do número de todos os autocarros da Carris e ver quantos lorpas o liam. Resposta: Países Baixos.
“Nem um vestígio de discernimento sobre o que seria justo: pagar às pessoas que andam de autocarro, compensá-las por fazerem aquilo que é necessário.”
Raios, jamais teria sido pago… porque andava de transportes não por ser necessário, mas por ser mais cómodo.
E penso que, havendo excepções (porque as há, quem ache TP atestado de menoridade), houvesse bons transportes públicos, as pessoas iriam aderir mais. Em Lisboa há a questão do horário nocturno, da pontualidade e periodicidade, nunca se resolveu totalmente a circulação dos autocarros; em muitas cidades… não há.
Não conheço muito Lisboa, mas os transportes iam para onde estavam as pessoas; continuam a ir para o mesmo sítio, depois de estas terem sido empurradas para fora, e o resto dos percursos sofrerem outras movimentações.
Depois a falta de capacidade e corredores BUS, é natural que seja menos cómodo.
Quem tem posses, tudo pode; o resto que se amanhe, paga pouco em contribuições… partidárias.