Os meus terroristas são melhores que os teus

Há uns tempos, acerca das declarações de Marcelo Rebelo de Sousa sobre os incêndios de Pedrogão, Ricardo Araújo Pereira notou que o Presidente começou por “Antes de mais, quero dizer que sou um ser humano” e que isso fazia falta. E parece que não era só aí. Os seres falantes que vemos por aí deveriam começar por se identificar para saber se vale a pena continuar a ouvir ou se vamos apenas assistir a uma subversão aos donos. A maioria dá mesmo vontade de ir lá dizer baixinho ao ouvido “diz lá algo de ser humano”.

Mais uma vez, o mundo percebeu que um conflito existe. Tal como aconteceu na Ucrânia, muitos colocam a mão à boca totalmente chocados com algo que não é de hoje. Tal como sempre, o ocidente só acorda para um conflito quando se sente minimamente afetado. Enquanto os conflitos são negócios lucrativos para a restante Europa e para os EUA, tapamos os olhos e beneficiamos disso. O meu lado político tem tendência para lhe chamar mercado livre. Enquanto temos uma direita que ignora atrocidades a troco do bem-estar de uma pequena parte da humanidade da qual fazemos parte, temos uma esquerda que tapa os olhos a atrocidades se estas afetarem a UE e os EUA. Todas estas posições são de um fanatismo atroz. Decidem em escritórios no centro de Lisboa o que declaram sobre situações que tiram vidas a pessoas diariamente. Eu também costumo mandar umas bocas meio-parvas no descanso do meu sofá. No entanto, é a insinuar que até eu marcava o que o Galeno falhou na Supertaça, não é a brincar com vidas de pessoas.

Neste momento, as pessoas escolhem o seu clube. Escolhem Palestina ou Israel. Dobram a coluna toda para defender até mortes de crianças. São pessoas que consideram que a morte de um ser humano inocente depende da sua certidão de nascimento. A direita pelo indivíduo e a esquerda tão solidária com o próximo unem-se para defender que um papel é mais importante que a pessoa.

Há aqui dois inimigos a combater: o Hamas e o Governo israelita. É um bocado utópico pensar que o mundo se reuniria lutar contra o governo do país criado pelas mães do mundo e um grupo terrorista simultaneamente, mas antes ser utópico em identificar os inimigos certos, do que só escolher um por satisfazer os que financiam a minha ideologia ou o meu estilo de vida. Se a vida das pessoas não está em primeiro lugar, perdemos toda a dignidade. A pouca que nos resta.

Comments

  1. Figueiredo says:

    «Eu digo: chega de opressão contra o Povo Palestino! Chega de desprezo contra todos os Árabes, eu diria.

    Qualquer um que pense ou acredite que, ao matar de fome o Povo Palestino, o Povo Sírio ou até mesmo o Povo Libanês, eles podem conquistar, qualquer um que pense que essa é a maneira de atingir seus objectivos, está enganado.

    Eu diria até que estão cometendo um crime contra esses Povos. A paz não vem dos corpos de crianças, pessoas mortas, pessoas inocentes e mulheres. A paz vem quando os que tomam decisões neste Mundo percebem que o nosso Povo tem dignidade, como todos os Povos do Mundo.

    Não somos defensores da guerra, rejeitamos a violência e a matança e buscamos a paz, mas, ao mesmo tempo, buscamos a justiça e temos um direito do qual não abriremos mão.» – Patriarca João X de Antioquia

    • Nortenho says:

      “Há aqui dois inimigos a combater: o Hamas e o Governo israelita. ”

      Na minha opinião esta errado. Ha dois inimigos a combater: O governo Israelita e o povo palestiniano

      O Hamas é apenas uma organização oportunista que usa métodos terroristas para combater a ocupação sionista da Palestina, depois de muitas outras tentativas de outras organização não terem conseguido aquilo que a ONU definiu em 1948, dois estados independentes, o de Israel e outro da Palestina

      Ao fim destes anos de frustrações com Israel conseguir fazer tudo o que quer mesmo contra as declarações da ONU.
      Tal com a rapariga desta entrevista, que se sente humilhada e lhe esta a crescer uma raiva ….. ha muitos palestinianos com odio a Israel que apoiam quem combate o inimigo que os atormenta, neste caso Israel

      “https://cnnportugal.iol.pt/guerra/israel/vivo-a-humilhacao-de-passar-por-check-points-de-ser-revistada-e-de-ter-todos-os-dias-pessoas-a-apontarem-me-armas-apenas-para-eu-ir-para-a-faculdade-nofouz-acredita-numa-solucao-pacifica-mas-foi-lhe-crescendo-uma-raiva/20231017/652ea8c5d34e371fc0b8ccec

      Só quem passou por estas situações que vêm já desde 1947, no tempo da ocupação inglesa, pode avaliar.
      Isso chama-se colonialismo que ja devia ter acabado há muitos anos

      Os judeus quando se sentem com poder, humilham os outros porque se acham superiores, têm segundo eles uma religião superior e os outros são como animais para eles.
      Depois ha o reverso da medalha, quando perdem o poder. O odio que geraram nos outros vira-se contra eles.
      So assim se explica o povo de Lisboa ir para o Terreiro do Paço assistir e bater palmas,ao massacre e a queima viva dos judeus no fim do seculo XV

      • Nortenho says:

        No reinado de D- Manuel I, no fim do seculo XIV (14) erro meu

      • É pá, não. Não se pode criar culpa colectiva negando o grande número de judeus a protestar contra o estado de Israel.

  2. A questão não tem nada de complicado; tudo aquilo que se exagerou e acreditou sobre a acção da Rússia existe agora 10x pior naquilo que a maioria da comunidade internacional chama de limpeza étnica, boa parte da comunidade judaica protesta (e é impedida de protestar pela polícia como a alemã, ironia das ironias; para o resto são só anti-semíticos, sabe-se lá como) que não quer um genocídio em seu nome.
    Que até a família de israelitas raptados e pessoas soltas, sujeitas a assédio dos conterrâneos, digam que são humanos em desespero, que outros escrevam que é uma inevitabilidade da política de encarceramento e limpeza étnica, e quem foi solto desminta ainda mais descrições intencionadas a desumanizar não é conveniente, pois tínhamos que aceitar compactuar com um genocídio a céu aberto.
    Mas a realidade é a que é, tão real como o bombardeamento de mais um hospital, mais uma escola da ONU, mais uns quantos jornalistas assassinados, mais uma vez os animais enclausurados na Cisordânia e colonos incentivados à matança: é um genocídio com o nosso apoio. É lidar, o mundo está a ver e nunca esquecerá. Minto, dois, o Azerbaijão também faz aquilo que sempre disse que faria depois de passar a parceiro priviligiado.

  3. JgMenos says:

    «Se a vida das pessoas não está em primeiro lugar, perdemos toda a dignidade.»

    Problema seu!
    Se me dão a notícia que um fanático judeu ou muçulmano leva um tiro nos cornos quando ataca gente pacífica, prossigo a minha vida com toda a dignidade, perguntando-me qual a idiota ideologia que suscita tal fanatismo.
    Quanto a guerras, tudo se altera, que sendo matar e morrer a sua essência, subsiste dever julgarem-se as ideologias que as motivam, fazendo a escolha digna.

    • POIS! says:

      Pois sim, problema dele, é para que saiba!

      Porque Vosselência já há muito que procura a sua. Na melhor das hipóteses deve ter ido parar lá aos objetos perdidos.

      Despache-se que está quase a ir a leilão. Num lote conjuntamente com dois casacos da Legião Portuguesa, três guarda chuvas, uma calçadeira, uma escova para dentaduras e o Volume III dos discursos do Oliveira da Cerejeira.

    • Sendo o colonialismo a escolha digna, portanto.

    • João L. Maio says:

      O Cardeal Cerejeira está a dar voltas no caixão.
      Angola é nossa!!!

  4. balio says:

    Há aqui dois inimigos a combater: o Hamas e o Governo israelita.

    Exatamente. Muito bem. De acordo.

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